O terraplanismo não é exclusividade do bolsonarismo, por Luis Nassif

As famílias midiáticas descobrem que, ameaçando derrubar governos, ganhariam popularidade, imporiam temor, o que seria ótimo para as vendas e os negócios.

Análise prospectiva não é tarefa fácil, especialmente em tempos de ruptura como os atuais. Não se trata simplesmente de pegar o passado e somar o presente para se chegar ao futuro, como preconizava Monteiro Lobato em seu romance “A Onda Verde e o Presidente Negro”.

Como no xadrez, há um enorme conjunto de peças. Cada movimento de uma delas altera o equilíbrio anterior, mudando as projeções sobre o desfecho de um jogo interminável – porque refletindo a vida de nações.

Mesmo assim, é chocante o grau de ignorância sistêmica do país. Nem se fale das fakenews, da campanha contra as vacinas e da própria eleição de Bolsonaro. Refiro-me ao Brasil institucional, aquele que comandou as políticas públicas, a mídia, o Judiciário, o mercado, os partidos políticos.

O jogo de desmoralização da política começou nos anos 90, a partir do impeachment de Fernando Collor, quando a mídia descobriu sua força – e descobriu o grande negócio de explorar os sentimentos baixos dos leitores com factoides. Havia muitos elementos concretos para denunciar Collor, as aventuras de seu irmão na Telesp, as jogadas com fundos de pensão.

As famílias midiáticas descobrem que, ameaçando derrubar governos, ganhariam popularidade, imporiam temor, o que seria ótimo para as vendas e os negócios.

Ao dar guarida para o discurso de ódio, em nenhum momento deram-se conta de sua responsabilidade perante o país e perante seu público. Foram incapazes até de perceber que o único ambiente de influência da mídia é o democrático. E sua grande força é a filtragem dos fatos, o respeito aos fatos, a garantia de que, independentemente de sua posição política, o fato é sagrado.

Em vez disso, esmeraram-se em desmoralizar a notícia e a democracia, justamente os pilares de uma sociedade da informação, aquela que garantia seu protagonismo. A Globo conseguiu essa unanimidade rara, de ser  odiada pela esquerda e pela direita.

E o que se passava na cabeça do Ministro Luís Roberto Barroso quando tirou Lula das eleições, apostando em um novo “iluminismo”? Quais as evidências de que dispunha sobre o desfecho dessa aventura político-jurídica? Apenas o fato de tirar do jogo um político que defendia direitos dos trabalhadores e o papel das estatais, inclusive as estratégicas, seria suficiente para o país entrar em uma era iluminista. Reduziu uma realidade complexa a duas peças e jogou o país em uma nova era medieval.

Deixou de lado:

1. As consequências da eleição de um miliciano anti-política.

2. Os efeitos da precarização do trabalho no tecido social.

3. O mau exemplo do ativismo jurídico, que se espalhou por todo o Judiciário, desmoralizando um dos poderes fundamentais.

4. O endosso à manipulação dos processos por seus amigos da Lava Jato, praticando o direito penal do inimigo, um dos aríetes da queda das democracias.

Agora, o que se vê é um jogo desesperado de jornalistas plantadores de ódio e de magistrados manipuladores de leis para impedir o golpe final contra a democracia – a reeleição do monstro que colocaram no mundo. Tornaram-se democratas, defensores de direitos, alguns até ousam críticas ao ultraliberalismo.

Que sejam bem vindos de volta ao jogo democrático. Mas, à falta de uma autocrítica essencial, que me permitam desabafos sobre sua conduta homicida da democracia.

Luis Nassif

9 Comentários

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  1. Parabéns, Nassif, pela lucidez dessa sua análise! Ainda pagaremos muito caro por esse bebê de Rosemary gerado no ventre da grande mídia… O “com supremo, com tudo” só visou os próprios interesses e bolsos!

  2. A história é uma roteirista insuperável = em 16, Gilmar Mendes impede Lula de ir pra casa civil do moribundo governo Dilma 2. Ação totalmente ilegal – assim como o vazamento do grampo irregular da conversa entre Dilma e Lula, obra de Sérgio Moro. Mas aí tudo valia, pois Mendes e Mídia viam que ali era a maior chance do PSDB voltar ao planalto . Passados 6 anos, e eis STF fazendo o diabo a quatro pra impedir que Bolsonaro, o monstro que eles alimentaram, continue no poder. Gilmar está no comando, mas não se expondo. Quem faz o serviço é Alexandre de Moraes. Pra mim, dois personagens símbolos desse capítulo Quem te viu Quem te vê : Gilmar Mendes – a pessoa que deu a largada pra perseguição de Lula que acabou em sua prisão por 2 anos e que mudou seu voto para prisão em segunda instância quando viu que Lula é o único com chance real de vencer Bolsonaro – e Reinaldo Azevedo, que justificou todas as barbaridades contra Lula e o governo Dilma, que atacava de forma implacável seus inimigos ( Nassif entre eles ). E mudaram não pelos belos olhos de Lula mas porque, no caso de Mendes, ele percebeu que Bolsonaro não vai pensa duas vezes se tiver a chance de enquadrar o STF ; no caso de Reinaldo, sua conversão se fez por se ver sem emprego após ser pego num grampo. O que o vencimento de boletos não faz E não se enganem. Pra mim, Lula ganha, apertado, mas ganha. Mas esses mesmos que são recém amigos de infância de Lula, serão os primeiros a tentar enfraquecê-lo no poder até tirá-lo- afinal, o vice dele é o sempre tucano de alma ( embora hoje não mais de sigla) Geraldo Alkimin, o político que tem a proeza de ter mandado no Estado de SP por 12 anos e não ter deixado UMA marca relevante. E talvez nem precise disso, caso Lula venha a falecer durante o mandato. Afinal, o verdadeiro regime político no Brasil é o vice-presidencialismo.

  3. O Fato é sagrado? Gostaria de acreditar nisso.
    Fato é pop, fato é tecno, fato é tudo?
    Fato não é nada. O que se diz dele é tudo, e o que se diz dele é o que se quer dizer dele. Exemplos? Bolsonaro e Lula são a mesma coisa; a Lula se atribuem fatos e ditos escabrosos, Bolsonaro não tem nada atribuído a si – é ele mesmo que se declara canibal, pedófilo, miliciano, o diabo – mas eles são as duas faces da mesma moeda. São iguais. São a mesma coisa. Para que fatos, no mundo, para que divulgá-los, se a lenda é tão mais colorida, chamativa? Gera mais cliques, likes, e compartilhamentos? Fecunda o ódio, que é para a classe média o que o sangue é para o vampiro. A lenda é que é sagrada, além de pop, e tudo.
    Somos uma civilização fundada em lendas, nossos países são embalados na lenda de seus mitos fundadores, cada um mais falso que o outro, cada um mais sedutor e convincente que o outro. E a verdade, chocha, insípida, fica relegada a um canto qualquer.
    Os fatos estão mortos, viva a lenda!
    A lenda é o que queremos que ela seja, os fatos não. Morte aos fatos! Vivam as lendas!
    Terra redonda? Onde?

  4. A análise é claríssima, tanto da mídia, como do judiciário! Irresponsáveis, eles foram, visando somente dinheiro e poder! Seguimos tentando sair dessa com o Lula na frente!

  5. Prezado Mouro, esse movimento das elites e oligarquias não e novo, é assim desde a derrubada do imperador pela bancada ruralista da época, por isso nunca entraremos reagente no progresso enquanto essa gente dominar o estado!

    Abração

  6. É o paradoxo da mídia: seu poder é forte na democracia, se usar o poder a democracia enfraquece. Quanto mais usa seu poder mais fraco fica. Isso se aplica ao judiciário, e seus ativismos, incluindo aí os procuradores. A conclusão lógica é que os fatos é que tem poder, todo o resto emana dele. Como no Brasil os fatos viraram narrativas e as narrativas viraram fatos, o imoral virou moral e vice versa, o desfecho óbvio é a demolição do país. Como a revolução francesa nos ensinou, e também outras revoluções: é difícil prever o que vem depois dela.

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