21 de maio de 2026

Os Correios e as simplificações liberais, por Luís Nassif

Em 2022 os Correios informam atendimento em 5.553 dos 5.570 municípios e 9.409 distritos com “efetiva distribuição” postal.
Reprodução

1. Economista critica visão ultraliberal sobre os Correios, defendendo digitalização do país em vez de salvá-los. Questiona como regiões remotas teriam acesso a produtos sem os Correios.

2. Correios têm obrigações constitucionais, como universalização do serviço postal e manutenção em todos os municípios. Em 2022, atenderam 5.553 municípios e 9.409 distritos.

3. Receitas dos Correios em 2023: R$ 19,9 bi, com destaque para segmento de encomendas. Privatização levanta questões sobre cumprimento de obrigações e compromissos da empresa.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

É impressionante a dificuldade do pensamento ultraliberal de entender as características de uma empresa pública e de uma empresa privada. Não conseguem trabalhar com o conceito de empresa estratégica, nem entender a lógica de uma empresa estatal.

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É o caso dos comentários da economista Zeina Latif, analista séria mas presa aos bordões neoliberais.

Qual a lógica dela? Em vez de tentar salvar os Correios, o governo deveria acelerar a digitalização do país, para acabar de vez com a necessidade de enviar cartas. Como se a missão dos Correios fosse exclusivamente levar cartas a todo território nacional.

Se a nova vida é digital, de que maneira Zeina pretende que brasileiros de regiões afastadas dos grandes centros tenham acesso aos bens de consumo das grandes plataformas. Mercado Livre, Magalu, portais chineses estariam dispostos a enviar produtos para o país todo? E atender às necessidades do Estado brasileiro, que distribuir atestados, certificados, recolhe provas do Enem;

Vamos entender melhor o jogo.

Obrigações dos Correios

Os Correios são, por Constituição, o Serviço Postal Universal. Tem 5 obrigações-núcleo:

  1. Universalizar o serviço postal (chegar a 100% do país).
  2. Garantir continuidade e acessibilidade (sem interrupção).
  3. Cumprir o monopólio postal (cartas, malotes).
  4. Dar suporte logístico ao Estado (eleições, ENEM, emergências).
  5. Manter transparência e integridade operacional como empresa pública.

Não é pouco. 

Correios não podem interromper o serviço postal (exceto força maior), mesmo em regiões remotas, inseguras ou deficitárias. Ter agência física ou ponto de atendimento em todos os municípios brasileiros. (Atualmente, 5.568 municípios atendidos.)

Em 2022 os Correios informam atendimento em 5.553 dos 5.570 municípios e 9.409 distritos com “efetiva distribuição” postal. 

Legalmente, os Correios prometem universalização. Na prática, o que existe é uma malha de 9,4 mil distritos atendidos com diferentes modalidades de entrega – diária para encomendas, alternada para cartas simples, e, em áreas críticas, nem isso, com retirada em agência ou ponto comunitário.

Para dar conta desses compromissos, ela precisa atuar, também, nos mercados lucrativos. Ele atua em 4 mercados:

  1. Correspondências / Mensagem
    • Cartas, e-Carta, telegrama, impressos, malote corporativo, marketing direto (mala direta, impresso).
  2. Encomendas e Logística
    • SEDEX, PAC e congêneres, logística integrada, soluções para e-commerce.
  3. Internacional
    • Encomendas e cartas internacionais, EMS, LC/AO, Prime etc.
  4. Conveniência / serviços financeiros
    • Vale Postal, alguns serviços de balcão, serviços de terceiros.

No relatório de administração de 2023, as receitas foram separadas:

  • Receita bruta total (2023): R$ 19,9 bi
    • Encomenda: R$ 9,52 bi
    • Mensagem (cartas, telegramas etc.): R$ 4,64 bi
    • Internacional: R$ 4,43 bi
    • Logística: R$ 0,51 bi
    • Marketing direto: R$ 0,33 bi
    • Malote: R$ 0,24 bi
    • Conveniência: R$ 0,19 bi
    • Outros: R$ 0,05 bi
  • Em 2025, comunicado oficial dos Correios mostra que, só no 1º semestre, o segmento de encomendas respondeu por R$ 4,7 bi de R$ 8,9 bi de receita de vendas – de novo, mais da metade de tudo. 
  • O que significaria a privatização dos Correios, segundo a ótica de Zeina? Será que a tecnologia permitiria o teletransporte, hoje existentes só nos filmes de ficção? Quem vai garantir todos esses compromissos?

Os programas de gestão

Não se trata de passar pano para os Correios.

O primeiro passo é entender seu caráter de empresa estratégica. O segundo, é o governo tratá-la como empresa estratégica.

1. Não pode mais ser objeto de barganhas políticas.

2. Tem que fechar compromissos com o Ministério da Gestão, com indicadores claros e palpáveis.

3. Tem que recuperar os planos de aposentadoria e criar um plano de cargos e salários capazes de atrair quadros técnicos, em condições de disputar mercado com as plataformas privadas.

Característica🇧🇷 Correios (ECT)📦 Empresas Privadas (FedEx, DHL, Azul Cargo, etc.)
Princípio CentralServiço Postal Universal (Missão Social)Lucro e Eficiência Operacional
Obrigatoriedade GeográficaUniversalização: Obrigação de atender 100% dos municípios (inclusive áreas remotas e deficitárias).Seletividade: Atende primariamente áreas com viabilidade econômica (rotas de alto volume).
Monopólio LegalSim: Exclusividade constitucional para cartas, cartões postais e correspondência agrupada (Lei 6.538/78).Não: Operam apenas no mercado de encomendas e logística expressa.
Continuidade do ServiçoObrigatória: Não pode interromper o serviço (exceto força maior), mesmo que haja prejuízo na rota.Voluntária: Pode descontinuar rotas ou serviços que se tornarem não lucrativos.
Subsídio CruzadoSim: Serviços lucrativos (Sedex, encomendas) subsidiam o serviço postal básico em regiões de alto custo (obrigações de Sustentabilidade Financeira).Não: Cada serviço/rota deve ser lucrativo por si só.
Função PúblicaSim: Logística oficial para o Estado (ENEM, Eleições, distribuição de vacinas/medicamentos, infraestrutura de emergências).Não: Funções limitadas a contratos comerciais com entes públicos.
Natureza JurídicaEmpresa Pública/Estatal (regras da Lei 13.303/2016).Sociedades Anônimas (Lei das S.A.) ou outras formas empresariais privadas.
RegulaçãoSujeitos à regulação da Anatel/Minicom e órgãos de controle (TCU, CGU).Sujeitos a regulamentações de transportes (ANAC, ANTT) e normas gerais de comércio.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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13 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    22 de novembro de 2025 4:52 pm

    A economista Zeina Latif fala o que o sistema a treinou e paga pra falar. É a lógica de governo novo, brilhantemente delineada pela Dora Nassif, aqui, em artigo recente.
    E o princípio do fim, porque sem Estado ninguém é nada. Nem as empresas do ultraliberalismo. Que tão logo se consuma os últimos insumos, bem ou mal, criados pelos os Estados, elas colapsarão, levando tudo com elas. E aí, mesmo que se convertam de última hora em Estados típicos… será tarde demais.

  2. Alberto Magno

    23 de novembro de 2025 6:21 am

    O governo de e ser compreendido como um dos clientes dos correios e deve pagar por seus serviços prestados.

    1. AMBAR

      23 de novembro de 2025 9:25 am

      Deficiência de formação e desconhecimento da atividade pública tanto da Zeina quanto do autor do comentário. Se o governo tiver que ser cliente de algum ente particular em assuntos estratégicos ele deixa de ser governo.
      Parece-nos que os magos do mercado desconhecem o conceito de soberania. Vale recordar: “Soberania é a qualidade de algo ou alguém que é soberano, isto é, uma autoridade superior (com mais poder e domínio) em comparação aos demais.

      Numa soberania, o poder fica concentrado nas mãos de um único indivíduo, organização ou instituição. A soberania também pode se referir ao poder máximo que é dado a determinada pessoa ou entidade no que diz respeito a uma respectiva área ou assunto.”
      A “soberania particular” contrapõe-se à noção de estado ao ponto de suprimi-lo.
      Não queremos suprimir o Brasil ( pelo menos aqueles que têm noção de cidadania);

  3. Diorgenes Racinghelmetsts

    23 de novembro de 2025 10:43 am

    Como ” dependente” dos correios por décadas sei o que passei. Como cliente de ecomerce.houve tempos de monopólio brutal onde o custo logístico ultrapassava os valores dos produtos. Protestos não surtiam efeito pois a ” estatal estratégica ” só pensava em manter sua gordura as custas da iniciativa privada.ate o MercadoLivre antes dependentes desta empresa de fretes.protestou publicamente com. Campanhas.nao. nada melhorou até que foram a china. E trouxeram o modelo privado de logística que quase tidas usam hj e o resultado foi que os correios foram trocados por serviços mais eficientes. E eles foram deixadis para implodirem por dentro.pois seu custo benefício é péssimo e compromete outros setores do governo tbm carentes por recursos.

    1. Anônimo

      23 de novembro de 2025 2:44 pm

      Excelente comentário, tudo o que é estatal do serve a quem está no governo no momento

  4. Frederico Rufilo de oliveira

    23 de novembro de 2025 10:46 am

    Nassif, Comungo plenamente com o seu posicionamento. Sua explanação é proposito coerente. Basta os problemas criados por privatizações de Energia é Aguas onde o foco é lucro e desservicos aos consumidores – nenhum caso beneficiou os serviços. No Brasil é no mundo.

  5. Claudio

    23 de novembro de 2025 11:50 am

    E por conta de um racional igual ao do Nassif e de alguns leitores que o pais esta onde esta. Fruto desta participacao do Estado na economia nos últimos 30 anos

  6. ROGERIO FERREIRA DA SILVA

    23 de novembro de 2025 6:31 pm

    O Estado tem que servir ao povo de forma coletiva e social,o privado tem como princípio o lucro, excluindo o social.
    Sem o poder do Estado,a população pagaria impostos em dobro.

  7. Francisco Mestre

    24 de novembro de 2025 7:20 am

    Um detalhe importante: no caso dos Correios, parte da “culpa” foi do Haddad e sua Remessa Conforme (taxa das blusinhas).

    “Culpa” entre aspas, porque a queda nas importações (que impactaram na receita dos Correios) se reverteu em crescimento da indústria têxtil nacional. Um crescimento que superou, em muito, a queda de receita dos Correios.

    O problema é o governo não reconhecer esses fatos, e continuar cobrando dos Correios um desempenho de empresa capitalista sem levar em consideração, além dos pontos elencados nesta matéria, as consequências do Remessa Conforme para as receitas da ECT.

    Isso sem falar da precarização bárbara do trabalho praticada impunemente pela concorrência (isso daria uma reportagem à parte…).

  8. Paulo Dantas

    24 de novembro de 2025 8:42 am

    De fato, Ipanema no Rio, Jardins em Sampa e Lago em Brasília é mole.

    Quero ver São José do Mato Adentro.

  9. RADE

    24 de novembro de 2025 11:09 am

    Esses dias comprei um li vro de um sebo em brasília que custou 7 reais mais 29 reais pro envio. O livro nunca chegou e voltou. Eu sempre fico em casa…. raramente saio. Recebo encomendas da Amazon sempre e com frequência. Nunca recebi dos correios, na entrega desse livro, um e-mail ou cartinha avisando da entrega. O que está acontecendo ? E esse resultado operacional de bilhões negativos. ? Eu acho o óbvio, tem políticos na mão grande… além de apadrinhamento e incompetência…. por isso tem que privatizar… permitir outras empresas de atuar no mercado com concorrência. Essa questão de não atendimento de regiões não lucrativas distantes também foi levantada na privatização da telefonia…. mas era a própria telebras que não atendia esses mesmas regiões
    No sitio do meu pai no Paraná, que ficava a 6 kms da cidade, o telefone demorou 6 anos pra chegar !? E aí

  10. Carlos AB de Sousa

    26 de novembro de 2025 11:34 am

    Para os liberais, o Brasil é só os grandes centros, as grandes demandas. Os demais são apenas áreas marginalizadas, sem interesse e que fiquem jogados a própria sorte.

  11. WATERWORLD

    3 de dezembro de 2025 10:01 am

    O estudo foi raso e deixou de acrescentar que a imunidade tributaria dos Correios adquirida pelo monopólio das Cartas é aplicado também nas encomendas, mercado concorrencial. Só que a iniciativa privada consegue ser eficiente mesmo com a incidencia da alta carga tributária (algo em torno de 37%). Será que a conta desta universalização já não esta incluida por receber pela imunidade tributária?

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