Peça 1 – quem é a agência Fitch
A Fitch é uma das três grandes agências de classificação de risco do mundo (junto com a Moody’s e a Standard & Poor’s). Ela funciona, basicamente, como uma avaliadora de crédito global: analisa governos, bancos, empresas e títulos, e publica notas (ratings) que indicam a probabilidade de calote ou problemas financeiros.
Suas notas afetam quanto custa captar dinheiro no mercado. Um exemplo simples:
- Se a Fitch melhora o rating de um país → juros caem, crédito fica mais barato.
- Se ela rebaixa → juros sobem, risco aumenta, investidores fogem.
No caso de empresas e bancos, um upgrade pode atrair fundos de pensão, seguradoras, ricos conservadores. Um downgrade pode secar a captação e até precipitar crises.
De quem é a Fitch?
Ela pertence ao grupo Fitch Group, controlado majoritariamente pela empresa americana Hearst Corporation (a mesma da revista Esquire, Cosmopolitan e canais como History Channel).
Onde ela atua
- Sede: Nova York e Londres
- Escritórios em mais de 30 países
- Atua desde 1914 (mais de 110 anos de mercado)
As escalas de rating mais conhecidas
| Escala | Significa |
| AAA | risco mínimo, excelente pagador |
| AA / A | risco baixo |
| BBB | grau de investimento (limite inferior) |
| BB / B | risco elevado (especulativo) |
| CCC / CC | muito alto risco de calote |
| D | default (calote) |
Detalhe importante
A Fitch trabalha com duas escalas distintas:
- Global (compara países entre si: Brasil, EUA, Índia etc.)
- Nacional (compara apenas emissores dentro do mesmo país)
Esse ponto é crucial e ajuda a explicar muitos casos, como o do Banco Master:
- Na escala nacional brasileira, ele ganhou A- (bra). Aqui está a senha para o golpe.
- Na escala global, era apenas B+ (alto risco).
Por que a Fitch é criticada?
Críticas ficaram famosas nas crises:
- Subprime (2008) – títulos “lixo” tinham AAA.
- Quebra do Silicon Valley Bank (2023) – downgrades só depois.
- Banco Master (2025) – upgrade forte, depois alertas tardios.
Peça 2 – os critérios da Fitch
A. Capital e solvência
Mede: capacidade de absorver perdas.
B. Liquidez e funding (fonte de captação)
Pergunta-chave: de onde vem o dinheiro do banco?
A Fitch olha para:
- % do funding vindo de depósitos estáveis vs. CDBs a varejo;
- custo da captação;
- volatilidade dos passivos;
- dependência de grandes investidores institucionais.
Bancos médios brasileiros podem parecer sólidos, mesmo captando muito com CDBs de alto rendimento, porque a Fitch considera que o FGC mitiga parcialmente o risco de correntistas fugirem.
C. Modelo de negócios (risco do produto)
Avalia:
- Diversificação (carteira não estar focada em um único tipo de crédito).
- Concentração de clientes.
- Exposição a consignado, crédito pessoal, cartão, PJ, governo etc.
- Sustentabilidade do crescimento.
Em bancos que crescem rápido com consignado, crédito pessoal e CDBs agressivos, o risco pode demorar para aparecer no rating, porque o crescimento mascara o real nível de inadimplência líquida, segundo a Fitch.
D. Governança e controle acionário
Inclui:
- transparência contábil,
- histórico de sanções,
- relação com reguladores,
- “tone at the top” (conduta da direção),
- quem controla o banco.
Bancos familiares ou controlados por poucos donos não são automaticamente mal avaliados. Se os controladores injetam capital, isso melhora rating — mesmo com riscos operacionais escondidos. Ora, capital injetado por controlador foi o primeiro ponto a despertar desconfianças no Banco Central.
E. Ambiente regulatório
No Brasil, pesa muito porque:
- O Banco Central supervisiona agressivamente.
- Existe FGC para depósito e CDB.
Isso gera uma convicção metodológica:
“Mesmo bancos médios têm proteção sistêmica e supervisão robusta.”
Essa crença eleva o rating nacional.
Peça 3 – como a Fitch favoreceu o Master
Para o rating nacional
| Critério da Fitch | Como o Master se saiu | Impacto no rating |
| Capital forte | Crescimento + reforço de capital | ⭐ Subiu rating |
| Supervisão do BC + FGC | Percepção de baixo risco de corrida bancária | ⭐ Melhorou rating nacional |
| Crescimento de carteira | Resultado robusto de curto prazo | ⭐ Resultado “positivo” |
| Dependência de consignado e CDB agressivo | Alto risco real | ⚠️ Risco não capturado cedo |
| Governança opaca | Difícil de mensurar | ⚠️ Risco só visto tardiamente |
| Risco global | Avaliação “junk” | 🔻 Global permaneceu baixo |
Para o rating global
A aprovação foi apenas para uso interno do país.
Para uso externo, o rating global, a nota foi “B+”. Para os investidores internacionais a Fitch apresentou o Master como de alto risco.
| Escala | Nível de nota | Significado resumido | Faixa “investimento seguro” | Exemplo do Master |
| Global (emissor/internacional) | AAA → D | Avaliação de risco de crédito em escala global; compara o emissor com todos os pares internacionais. | Notas de BBB ou superior geralmente são consideradas “grau de investimento” para muitos investidores globais. | Master tinha B+ (logo abaixo da faixa de investimento) → portanto “alto risco” global. |
| Nacional (Brasil, “-(bra)”) | AAA(bra) → D(bra) | Avaliação relativa dentro do país; compara o emissor com outros no mesmo mercado doméstico. | Notas de BBB(bra) ou A(bra) são vistas como relativamente “seguras” para investidores domésticos que usam essa escala. | Master chegou a A-(bra) na escala nacional, o que o classificou como “bom emissor brasileiro”. |
Em síntese
“Banco pequeno/médio, com modelo de crédito vulnerável, captação cara e sensível a choques, sem suporte externo, com governança limitada e dependente de condições macroeconômicas favoráveis.”
Isso é B+ global, mesmo quando era A-(bra) nacional.
Para o investidor global, o Master sempre foi “junk”.
Para o investidor brasileiro com FGC, ele parecia “grau de investimento”.
Essa dissonância permitiu que o banco captasse dinheiro público “seguro”, mesmo sendo arriscado em padrões internacionais.
Onde a Fitch ganhava
Do ponto de vista de negócio:
- Um banco pequeno e irrelevante não dá muito dinheiro para a agência.
- Um banco médio agressivo em captação e estruturação (caso Master)
- contrata rating de emissor;
- contrata rating para operações de funding e securitização;
- compra direito de uso do rating em material de venda (“rated A-(bra) by Fitch”).
Em termos gerais de mercado (não específico do Master), relatórios públicos indicam que fees anuais de rating corporativo para bancos médios podem ir de algumas centenas de milhares de reais a alguns milhões por ano, dependendo:
- do porte do banco,
- da quantidade de ratings (global + nacional),
- da complexidade (conglomerado, controladas etc.).
Não dá para cravar o valor exato que a Fitch recebeu do Master sem acesso a contrato ou vazamento, mas o tipo de receita é claro:
Fitch faturava tanto para dar o rating quanto para manter o rating que viabilizou a captação do Master.
Onde entra o conflito de interesse
O conflito clássico é:
Quem precisa de um rating alto para captar mais é justamente quem paga a agência.
No Master, a lógica é bem “explicável em manchete”:
- Banco Master quer crescer e captar pesado
- Para entrar no radar de RPPS, estatais, fundos conservadores, precisa:
- rating nacional forte (≥ A-(bra))
- narrativa de solidez.
- Para entrar no radar de RPPS, estatais, fundos conservadores, precisa:
- Contrata e remunera a Fitch
- para ser avaliado, reavaliado e manter o selo.
- cada novo ciclo de rating e cada novo produto/estrutura é fee.
- Fitch eleva o rating nacional para A-(bra)
- isso abre a porteira para dinheiro público que precisava de rating mínimo;
- quanto mais o banco cresce, mais:
- estrutura operações;
- demanda rating para novos papéis;
- releva a importância comercial da relação com a agência.
- Quando o castelo começa a cair, a sequência é típica:
- primeiro “rating afirmado com outlook estável ou em observação”;
- depois watch negativo e downgrade acelerado;
- por fim, D (default) e “ratings retirados”.
Peça 4 – o papel do Banco Central
O BCB aprovou, em 13 de outubro de 2025, um aumento de capital de aproximadamente R$ 421 milhões para o Banco Master, elevando seu capital social para cerca de R$ 1,586 bilhões.
A mesma data traz aprovação de aporte de R$ 419 milhões na controlada do Master, a Will Financeira S.A. (Will Bank).
Não há na cobertura pública encontrada o “criterioso checklist” da superintendência do BCB contendo as condições específicas impostas, os documentos exigidos ou as cláusulas de monitoramento (por exemplo: “o controlador deverá apresentar plano de saneamento”, “não poderá emitir CDBs acima de X%”, “será feita auditoria trimestral”, etc.).
Sem acesso ao despacho completo, fica mais difícil saber quais condições o BCB exigiu para autorizar o aporte — se por exemplo impôs restrições à emissão de CDBs, à captação futura, à concentração de risco, etc.
Isso abre um “buraco investigativo”: como o banco conseguiu aprovação de capital e, cerca de um mês depois, foi decretada sua liquidação extrajudicial, há uma pergunta forte a levantar: o que o BCB viu vs. o que efetivamente existia?
Leia também:
ERNESTO
22 de novembro de 2025 2:21 pmGostei! Como a gente faz pra abrir um negócio desses?
jucemir rodrigues da silva
22 de novembro de 2025 2:23 pm“O BCB aprovou, em 13 de outubro de 2025, um aumento de capital de aproximadamente R$ 421 milhões para o Banco Master, elevando seu capital social para cerca de R$ 1,586 bilhões.”
Além de Campos Neto, Gabi Galípolo, o Menino de Ouro de Luiz Inácio, também careceria de dar explicações.
EVANDRO
22 de novembro de 2025 3:14 pmPrezado Nassif, fiz comentário em uma postagem e volto à carga: como leigo fico sem entender como BC deixou passar. O que aconteceu não começou em outubro.
Anônimo
24 de novembro de 2025 11:55 amSou um ex gerente da Caixa Econômica Federal e quando o Banco Panamericano quebrou, eu aproximadamente 1 ano antes já estava certo do que de fato aconteceu e agora o Banco Master deixou várias pistas que estava quebrado, pois não como honrar captações com taxas tão altas e ao mesmo tempo ser competitivo no mercado com empréstimos com juros mais baixo que a concorrência. Outra arma usada e utilização de vasta publicidade para esconder o rombo do banco, esta estratégia foi utilizada pelo falido Banco Santos que duas semanas antes de decretada a falência foi manchete de capa da revista Isto é Dinheiro e várias páginas de divulgação dos méritos e eu crescimento do banco. O Banco Central demorou muito para agir e fica pergunta: Será que o Banco Central é realmente independente?
Romualdo Alves Caetano
24 de novembro de 2025 11:56 amSou um ex gerente da Caixa Econômica Federal e quando o Banco Panamericano quebrou, eu aproximadamente 1 ano antes já estava certo do que de fato aconteceu e agora o Banco Master deixou várias pistas que estava quebrado, pois não como honrar captações com taxas tão altas e ao mesmo tempo ser competitivo no mercado com empréstimos com juros mais baixo que a concorrência. Outra arma usada e utilização de vasta publicidade para esconder o rombo do banco, esta estratégia foi utilizada pelo falido Banco Santos que duas semanas antes de decretada a falência foi manchete de capa da revista Isto é Dinheiro e várias páginas de divulgação dos méritos e eu crescimento do banco. O Banco Central demorou muito para agir e fica pergunta: Será que o Banco Central é realmente independente?