“Não é possível que o sistema político e a Justiça Eleitoral aceitem um candidato cuja principal finalidade é provocar os outros, fazer tudo para desestabilizá-los psicologicamente. Tocar no ponto mais fraco. Por exemplo, dizer que a Tabata Amaral é responsável pelo suicídio do pai é uma coisa que numa pessoa decente chega a doer”, indigna-se João Cezar Castro Rocha, professor, escritor e convidado do programa TVGGN 20H da última segunda-feira (16).
Rocha participou do programa para comentar a cadeirada que o coach Pablo Marçal (PRTB) recebeu de José Luiz Datena (PSDB) no último domingo (15), durante debate promovido pela TV Cultura.
As falas de Marçal, assim como em outros debates, foram recheadas de provocações aos demais candidatos – fato que deveria acender o alerta do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo e exigir medidas efetivas contra o coach, a fim de prevenir um cenário ainda pior nas eleições presidenciais de 2026.
“Com Paulo Marçal, pela primeira vez, de maneira sistemática, na mais importante capital da América Latina, numa cidade cujo PIB [Produto Interno Bruto] é superior ao de países pobres de alguns continentes, pela primeira vez está ocorrendo no Brasil a tentativa de colonização da política pela economia da atenção do mercado digital. No plano transnacional, é este o sentido da movimentação do Elon Musk. É o sequestro da política, é a captura do espaço público pela economia da atenção típica das plataformas sociais. No Brasil, nós vivemos agora, pela primeira vez, uma tentativa forte, absolutamente selvagem, bárbara, de colonização da política pela economia da atenção”, explica o escritor.
Neste contexto, que se não for compreendido e respondido à altura, a profecia de João Rocha é a de que teremos a multiplicação de Pablos no próximo pleito, para todos os cargos.
“O paradoxo que nos leva ao coração do Pablo Marçal, é que nós temos hoje a mais sofisticada tecnologia de comunicação jamais inventada, uma tecnologia de comunicação que inventou a impossível ubiquidade. Eu estou no Rio de Janeiro, não sei se você está em São Paulo, Lourdes. Alguém pode estar nos comentários escutando, em Brasília, em Singapura, em Pequim. A tecnologia digital inventa uma impossível simultaneidade no espaço temporal, que nunca havia sido possível na história da humanidade. É o que é de mais moderno, essa é a grande novidade da tecnologia digital, é a invenção de um impossível espaço-tempo simultâneo, com consequências tremendas, sob todos os pontos de vista”, continua o professor.
A grande questão relacionada ao coach, porém, é a de que ele sabe usar o motor das plataformas: o ódio. “Ele lança a mão com enorme inteligência, reconheçamos e batemos palmas para a inteligência do Pablo Marçal na economia digital, no mercado digital. Mas essa inteligência lança a mão do que há de mais arcaico e primitivo nos nossos sentimentos. O Pablo Marçal é a pura metonímia do ódio como móvel das plataformas sociais. Isso cria um problema sério, sério, que não é um problema de caráter moral.”
Marçal traz à política os recursos e estratégias utilizados no marketing digital ao lançar estratégias (sejam elas éticas ou não) para capturar a atenção do público e convertê-las em venda.
“Você precisa lacrar para ter like, para obter lucro. É assim que funciona.
E na economia da atenção das redes sociais, para que a sua voz seja audível, você tem que aumentar o decibel, você tem que gritar. Para que o seu gesto seja visível, em meio à miríade de ofertas, você tem que fazer um gesto impensado, inesperado, absurdo, louco. É o que chama atenção. De novo, é assim funciona a economia do mundo inteiro”, acrescenta.
Para Rocha, a participação do coach no processo eleitoral tem como finalidade desmoralizá-lo, uma vez que Marçal já anunciou que não se importa com eventuais multas por descumprir as regras do pleito “porque pode pagá-las”. “O que caracteriza outro crime do Código Eleitoral, um crime gravíssimo, que é o artigo 347 do Código Eleitoral, que é o crime de desobediência”, explica o escritor.
Isso porque todos são inocentes até que se prove ao contrário. Porém, ao ser reincidente, Marçal se revela uma pessoa que age movida pela má fé.
“Se a pessoa não agiu por má fé, ela não volta a cometer aquele erro, porque agora já lhe foi advertido que é um erro. Portanto, o crime de desobediência do Código Eleitoral, o artigo 347, é a espinha dorsal do Código Eleitoral. Porque se você desrespeita, se você comete este crime continuamente, fica caracterizado a sua má fé. Você sabe que é um crime e você continua cometendo, porque as sanções não são suficientemente enfáticas para demovê-lo”, alerta.
O entrevistado adianta, então, que se a candidatura do Pablo Marçal não for impugnada pelos crimes de abuso de poder econômico, uso indevido dos meios de comunicação, crime de desobediência e se ele não for tornado inelegível, sobretudo pelo crime de desobediência, pela reiterada e evidente explícita má-fé com que se conduz, o coach acabará desmoralizando o processo eleitoral e pode comprometer, inclusive, a democracia brasileira em 2026.
Confira a entrevista na íntegra em:
Nos termos da Lei nº 4.737 – Código Eleitoral, o Jornal GGN resguarda espaço para proporcionalidade e direito de resposta a candidatos e/ou partidos políticos que se sentirem ofendidos ou que queiram se manifestar. Entre em contato com [email protected] e responderemos ao seu pedido.
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WRamos
17 de setembro de 2024 4:48 pmAs emissoras convidam para o debate aqueles que aparecem com intenção de votos relevante mas pesquisas.
Deveriam ser impedidas de convidar candidatos sem tempo na propaganda eleitoral, pois seus partidos são irrelevantes. Um erro grave dos participantes do processo eleitoral é o foco apenas nas pessoas sem levar em conta o partido em que se registram. Toda a lógica jurídica do nosso sistema é centrada nos partidos. Os meus de comunicação deveriam ser pautar pelas mesma lógica, porém fazem questão de ignorar os partidos.
Rui Ribeiro
18 de setembro de 2024 10:24 amAcho que a Justiça Eleitoral aceitaria até a candidatura de um rato, desde que isso fosse benéfico para a manutenção do domínio dos poderosos sanguessugas sobre os trabalhadores.