Feitiço do Tempo No e Pós- Isolamento, por Jorge Alberto Benitz

De modo semelhante ao personagem do filme, com a pandemia, nos afastamos do rumo normal do dia a dia que tínhamos adotados

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Feitiço do Tempo No e Pós- Isolamento

Por Jorge Alberto Benitz*

A vida da gente corre muito parecida com aquela do protagonista do filme Feitiço do Tempo onde o protagonista, o homem do clima/tempo de um canal de televisão, interpretado pelo ótimo Bill Murray, vai a uma pequena cidade para fazer uma reportagem sobre uma marmota cujo comportamento acreditam ter o poder de indicar a previsão do tempo, e realiza esse compromisso profissional no automático, visivelmente contrariado.

Ele é prepotente, rabugento, mal-humorado, grosseiro, sem compaixão e empatia em seus relacionamentos. Mas aí, ocorre o inesperado: ele acorda todos os dias no mesmo dia em que chegou à cidade e passa pelos mesmos fatos já vividos que o contrariaram tanto.

Inicialmente, ele responde ao feitiço tornando suas características ainda mais fortes. Passa de grosso a violento, rouba, mente, tenta acabar com a própria vida, mas nada lhe devolve a possibilidade de superar aquele dia. Até que ele escolhe ser melhor do que já fora naquele dia que não termina nunca.

Não estamos acordando no mesmo dia como o protagonista do filme. No entanto, de modo semelhante ao personagem do filme, com a pandemia, nos afastamos do rumo normal do dia a dia que tínhamos adotados, consciente ou inconscientemente, e assim tomamos uma  distância brechtiana, para sermos expectadores de nós mesmo, e tivemos o tempo disponível para refletir sobre a vida, sobre nossos dilemas pessoais e o modo automático como nos inserimos na sociedade acompanhando um modus vivendi sem muito pensar se este atende nossos anseios mais profundos como pessoa, como ser humano.

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Muitas vezes somos como o personagem principal do filme, sem se dar conta, rabugentos, mal-humorados, grosseiros, sem compaixão e empatia nos relacionamentos. Seria a hora de rever estes nossos defeitos para extirpar de nossas vidas esta aspereza e superficialidade, sem esperar que ocorra outra catástrofe coletiva ou pessoal para somente aí ter um insight capaz de nos mudar para melhor como pessoa e cidadão. Pelo menos, até logo ali adiante ser vencido pela força do hábito, este demônio que nos habita e nos consome.

O mundo está dando sinais contraditórios. Uns querem que o mundo continue como dantes. São os tomados, consciente ou inconscientemente, pela pulsão de morte, conceito freudiano que remete para aqueles que advogam a violência, o ódio, a luta darwinista pela vida onde vence o mais forte e o resto que se dane. Outros, que faziam parte desta legião de contentes com o andar do mundo, face ao choque causado com a pandemia, perceberam que havia algo de errado no que até então acreditavam.

Perceberam que os valores que cultivavam não servem para nada nestas horas de crise coletiva. Valores individualistas e egoístas que além de não contribuírem em nada nestas horas só agravaram as condições de infraestrutura do Estado para combater o coronavirus ao sucatearem, para preparar o terreno da privatização, a estrutura de saúde com caráter público. No caso do Brasil o que nos salvou foi o atraso no programa político deste governo que pretende privatizar tudo, inclusive o SUS.

Retomando a questão das conversões. São jornais conservadores, como o Financial Times, mudando o tom que até então professavam com fervor. O mesmo acontecendo com ideólogos como Larry Summer, um dos mentores do documento que se constituía a bíblia do status quo, “O Consenso de Washington”, cujos ensinamentos eram e ainda são copiados e venerados por todos os cantos do planeta.  Ensinamentos que pregavam uma devoção quase religiosa ao mercado, cujos valores se sobrepunham sobre quaisquer outros valores morais, éticos, filosóficos e religiosos.
 
A razão desta tomada de consciência de quem até ontem defendia uma ordem social, econômica e política que beneficia poucos privilegiados e deixa a maioria no relento, dá esperanças para quem deseja um mundo melhor no pós-coronavírus.

São mudanças de consciência que devem acompanhar as mudanças pessoais de cada um de nós porque se não ocorrer esta complementaridade tudo volta ao velho rame rame de sempre que representa a hegemonia do pensamento que prega a luta darwinista de todos contra todos, do individualismo e do egoísmo. A escolha não está fora de nós. Está dentro de cada um.

Além do mais, se perdermos a batalha no atacado, isto é, se perdermos na arena da macro- política, continuaremos resistindo como sempre fizemos e nesta caminhada teremos feito algo para melhorar o nosso entorno, constituído pelos amigos, colegas de trabalho e familiares e isso não é pouca coisa. Escolher ser melhor, meta inscrita desde os primórdios da filosofia na sua busca do bem e do justo, sempre é o melhor a ser feito.

* Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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