Por que transtornos mentais são aderentes à extrema-direita?, Por Wilson Ferreira

Por que o ódio, intolerância, racismo, preconceito, estereotipagem do outro etc. são os signos através dos quais os transtornos mentais se manifestam?

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Do nada, uma senhora começou fazer ofensas racistas contra uma família negra que entrou em um vagão do metrô em Belo Horizonte. Foi repercutido pela grande mídia e redes sociais como mais um caso de uma escalada de racismo, intolerância e ódio no País. Visivelmente os ataques partiram de uma pessoa que sofria de transtornos mentais. Esse não é um caso isolado: por que, na sua esmagadora maioria dos casos, os transtornos mentais se expressam através de significantes de extrema-direita? Por que o ódio, intolerância, racismo, preconceito, estereotipagem do outro etc. são signos aderentes aos transtornos psíquicos? Alguém já viu um psicótico tendo surtos “esquerdistas” de intolerância contra a classe dominante? Há uma farta bibliografia sobre pesquisas que conectam transtornos mentais com extremismo de direita. As mais recentes são sobre a hipótese da “cognição socialmente motivada” – quando casos como esse criam visibilidade midiática cria-se um paradoxal “efeito copycat”: o efeito de imitação como feedback, matéria prima psíquica da cismogênese da guerra híbrida.

Em 2008, bem antes da ascensão internacional do extremismo de direita que pariu Brexit, Trump, Bolsonaro, Orbán et caterva, na esteira das “primaveras” patrocinadas pela geopolítica dos EUA, William Todd Schultz, professor de psicologia da Pacific University, fez um relato sobre um episódio que ocorreu no feriado de 4 de Julho. 

William estava no deck de uma casa de praia com amigos e familiares assistindo aos fogos do feriado nacional. Uma pessoa, que obviamente tinha bebido demais, disse para ele: “o segredo da minha vida é que eu sempre preciso de alguém para odiar”.

Ouvir esse ato falho, favorecido pela guarda baixa etílica, o fez lembrar de um artigo resultante de uma pesquisa sobre extremismo político e cognição social motivada “Political Conservatism as Motivated Social Cognition”, de Jost, Glaser, Kruglanski e Sulloway.

Vamos aos dados. Uma meta-análise selecionada de 88 amostras em 12 países, e com um universo de 22.818 entrevistas, revelou que “muitas variáveis ​​psicológicas previam o conservadorismo político”. Quais variáveis ​​exatamente? Em ordem de poder preditivo: Ansiedade da morte , instabilidade do sistema, dogmatismo/intolerância à ambiguidade, mente fechada, baixa tolerância à incerteza, alta necessidade de ordem, estrutura e fechamento, baixa complexidade integrativa, medo de ameaça e perda e baixa autoestima . Os pesquisadores concluem que “a ideologia central do conservadorismo enfatiza a resistência à mudança e a justificativa da desigualdade” – clique aqui.

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E por que esse humilde blogueiro lembrou desse episódio? Devido a uma notícia divulgada pela grande mídia com toda as tintas sensacionalistas da “woke exploitation”. Nessa semana, no metrô de Belo Horizonte, uma família foi vítima de injúria racial de uma mulher de 53 anos. O caso ocorreu nesse último domingo (5): quando uma família negra entrou no vagão do metrô, a mulher passou a ofender por longos minutos, afirmando que era racista, que “eles não deveriam estar naquele vagão” e que “o sangue que corre em minhas veias não é o mesmo de vocês”.

Mesmo rechaçada por outros passageiros, ela continuou com as ofensas raciais. Após todos descerem na próxima estação, ela continuou. No vídeo, percebe-se ao longo dos mais de 10 minutos que a ofensora sofre visivelmente de transtornos mentais, lembrando de outro caso ocorrido em BH: em 2019, uma família pediu desculpas à vítima de injúria racial, um motorista de aplicativo. 

Ela recusou os serviços do motorista dizendo que precisava “de um táxi de um motorista que não fosse negro”. Ela foi presa e a família afirmou que a ofensora há anos sofria de transtornos mentais. “Só quem tem alguém próximo com essa doença pode entender a dor que passamos agora”, afirmou a família em nota para a imprensa –clique aqui

Transtornos mentais são de extrema-direita?

Um outro exemplo: em 2019, um procurador federal tentou matar uma juíza na sede do Tribunal Federal da Terceira Região (TRF-3), em São Paulo. Depois de participar do II Congresso de Combate à Corrupção na Administração pública, realizado no mesmo prédio, o procurador “entrou em surto” e rumou para a sala da juíza para esfaqueá-la gritando que precisava “acabar com a corrupção no País” – clique aqui.

Em postagem anterior esse Cinegnose analisou o documentário I Think We’re Alone Now” sobre dois fãs com sintomas de síndrome de Asperger que acreditam ter uma relação íntima com uma celebridade. E, como não poderia deixar de ser, claramente suas orientações políticas têm traços de extremismo de direita: “moro num lugar repleto de gente esquisita e bizarra que atrai o fascismo dos outros e o meu próprio”, confessa.

De todos esses exemplos, entre tantos que poderia colocar nesse texto, uma questão pode ser colocada: por que, na sua esmagadora maioria dos casos, os transtornos mentais se expressam através de significantes de extrema-direita? Por que o ódio, intolerância, racismo, preconceito, estereotipagem do outro etc. são os signos através dos quais os transtornos mentais se manifestam?

Argumentando ad absurdum, alguém já viu um surto psicótico se expressar, digamos assim, à esquerda? Ódio ao capitalismo, um impulso incontrolável de atacar gente engravatada ou motoristas a bordo de carros de luxo. Ou, então, um surto incontrolável de invadir mansões ou investir violentamente contra tudo aquilo que represente a desigualdade, a exploração ou a injustiça social.

Paranoia ou ódio ao “sistema” sempre irão recorrer a persecução de bodes expiatórios: “políticos”, “corruptos”, isto é, agendas exclusivas do extremismo de direita, como o surto do procurador federal querendo esfaquear uma juíza supostamente corrupta. 

Já existe uma farta bibliografia de estudos sobre uma suposta conexão entre diagnósticos psiquiátricos e extremismo, principalmente de direita. É amplamente assumido que a vida social dos indivíduos funciona como um fator de impulso na radicalização. Apesar de reconhecer que fatores sociais desempenham um papel na radicalização, a maioria dos estudos sobre extremismo em psiquiatria ainda se concentra principalmente em fatores de risco individuais, como vulnerabilidades psicológicas, e não entra em muitos detalhes sobre como essas vulnerabilidades interagem com fatores sociais. 

Ao contrário, as explicações desenvolvidas na pesquisa social dão um relato mais sutil dos desenvolvimentos sociais que levam ao apoio da direita. Embora as explicações sejam divergentes, a maioria concorda em um ponto crucial: as orientações de direita precisam ser explicadas como uma reação a uma realidade social percebida em crise.

Cognição socialmente motivada

Até aqui os estudos sobre a ascensão do extremismo de direita vêm dos estudos da personalidade autoritária (T. Adorno, The Authoritarian Personality, Verso, 2019), a tese da ameaça do status social pelas mudanças culturais e econômicas (P. Manow, Die politische Ökonomie des Populismus. Berlim: Suhrkamp, 2018), explicações sobre as transformações do mercado de trabalho decorrentes da globalização ou sentimentos de ameaça por mudanças rápidas de valores e normas (Inglehard e Norris, Cultural Backlash, Trump, Brexit and Authoritarian Populism, Cambridge University Press, 2019).

Os estudos sobre o conservadorismo político como cognição motivada tentam unificar os enfoques psiquiátricos ou psicológicos individuais com as pesquisas sociais que tratam das tendências coletivas. 

O que significa o conceito de cognição motivada? Quando as pessoas pensam e raciocinam, às vezes elas têm interesse no resultado de seu pensamento e raciocínio. Por exemplo, as pessoas se engajam em pensamentos desejosos sobre se seu time favorito vencerá ou não, ou se um parente sobreviverá a um procedimento cirúrgico arriscado. Nessas situações, as pessoas têm a mente menos aberta do que em outras situações em que não têm um resultado preferido em mente. Eles são relativamente mais propensos a confiar em pequenas amostras de informações consistentes com as expectativas desejadas (mesmo quando sabem que pequenas amostras podem não ser confiáveis) e são mais críticos em relação às mensagens que ameaçam as crenças desejadas. 

Mas ainda estamos num plano puramente individual. A coisa muda de figura com o conceito de cognição social motivada. Todos os estudos (sejam psiquiátricos ou sociais) apontam evidências comportamentais de que tanto o pensamento conservador como extremista estão positivamente associados com a necessidade da redução da incerteza, ambiguidades, ameaças e desgostos – e negativamente associado ao liberalismo ou à esquerda.

Nos transtornos mentais esses riscos são ainda mais amplificados pela psicose e paranoia e todo imaginário persecutório decorrente. Principalmente quando temos um contínuo midiático atmosférico – um plano constituído por ondas temáticas e acontecimentos que produz continuamente ‘espíritos do tempo’ dotadores de sentido. Um conjunto de repercussões cujo contínuo midiático acaba dominando a esfera pública como esfera dominante e determinante. O contínuo amorfo midiático é atmosférico, sem forma, uma força cega. Porém, suas operações são realizadas por instituições concretas e visíveis, que são os meios de comunicação de massas.

A urgência nesse contínuo midiático criado pelas repercussões (como no caso dos ataques racistas continuamente repercutidos dentro do sensacionalismo politicamente oportunista do “woke exploitation” da grande mídia – sobre isso clique aqui) acaba criando um efeito inverso do que se pretendia obter: se as denúncias de ataques racistas e injúrias raciais visam o didatismo da conscientização, o resultado é o inverso – um efeito copycat, o efeito de imitação.

A caixa de repercussão midiática acaba criando imitação e motivação para pessoas psiquicamente vulneráveis paradoxalmente imitarem um ato social e moralmente condenável como formação reativa à percepção de uma realidade ameaçadora, ambígua e incerta. 

Assim como, nos EUA, as coberturas sobre ataques seriais de atiradores e todas as campanhas contra desarmamento e legislações mais rígidas acabam motivando outros atiradores seriais por imitação – sobre esse conceito clique aqui.

O sensacionalismo woke das atuais coberturas jornalísticas de casos de racismo, ódio é intolerância é paradoxal: acaba dando ainda mais visibilidade a todos os graus do espectro dos transtornos mentais, gerando o contínuo atmosférico midiático de cismogênese, polarização que, retroativamente, cria a motivação cognitiva que impulsiona reações psicóticas violentas.

E, claro, o significante imaginário (a motivação) que o transtorno mental vai buscar serão os signos de extrema-direita – onde forma e conteúdo, significante e psicose acabam ganhando sinergia.

Como acabar com esse ciclo vicioso perverso? Talvez a maneira de desarmar essa bomba cognitiva seja esvaziar um suposto significado político mais amplo desses eventos e reduzi-los à dimensão que sempre foi no passado: a violência de um Brasil profundo que, através da guerra híbrida, ganhou visibilidade estratégica para o objetivo principal: cismogênese e envenenamento psíquico nacional.  

Tarefa muito difícil em tempos em que as redes sociais tomam cada vez mais espaço no contínuo midiático atmosférico.

*O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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1 Comentário

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José de Almeida Bispo

- 2022-06-12 15:13:23

Ser de direita praticante (o tipo mais em evidência, atualmente) é ser originalmente burro ou portador de burrice, de grave a moderada. O burro tem medo do complexo; da diversidade; do que não entende ou lhe é difícil de entender. O burro tem necessidade de tudo certinho, para que se sinta seguro, e reage violentamente a qualquer alteração do status quo. Regras, pra burro são mais que mecanismos de arrumação com vistas à produtividade: são vitais. Quem quiser descobrir um fascista ou o grau de fascismo é só provocar. Basta ir pela mais sutil forma de provocação, o humor. O burro é a perfeita encarnação de Leon Kovalski, personagem de Brion James em Blade Runner. O burro, óbvio é completamente diferente do tolo, inocente, sem maldade e que mesmo não entendendo, sobrevive em qualquer meio. O burro é a cadela fascista de que nos fala Brecht.

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