Coluna 08/08/2006

Os conformistas

Ortega y Gasset dividia os governantes entre os estadistas, os escrupulosos e os pusilânimes.

O estadista seria capaz de atropelar o pai para poder cumprir sua missão de transformar o Estado. O escrupuloso, em geral associado à figura do intelectual no poder, utiliza o excesso de escrúpulos como álibi para a não-ação. E o pusilânime é o sujeito dotado das pequenas virtudes e defeitos do homem comum, mas sem nenhuma das qualidades e defeitos que fazem o estadista.

Cada qual enquadre como quiser Fernando Henrique Cardoso e Lula nessa tríade sintetizada por Ortega y Gasset. Mas, o fato real, é que a afirmação de que não há alternativas ao atual modelo econômico é autodefesa de conformistas.

Em sua entrevista à revista “Época” desta semana, FHC aborda pontos relevantes do modelo político brasileiro. No campo econômico, porém, insiste que o modelo é inevitável, qualquer que seja o governante, e que o único problema real é a falta de recursos de investimento do governo federal.

Trata-se de uma evidente simplificação. Se foi o modelo que provocou o aumento exponencial da dívida e esgotou a capacidade de investimento do Estado, como pode ser virtuoso? E, não sendo virtuoso, como tratá-lo por inevitável? Em FHC, a passividade é argumento para absolver o passado; em Lula, álibi para não encarar o futuro.

FHC tem uma obra sociológica relevante, onde, ainda nos anos 60, deixava clara a descrença na capacidade do empresariado em montar um projeto nacional. A saída seria se conformar em ser capital associado. Mas sempre tratou o “ser” capital associado como uma fatalidade que não podia ser modificada pela história, não como passos de uma estratégia de mais largo prazo.

Os Estados Unidos do século 19 se tornaram potência se abrindo ao capital inglês. A China do século 21 se tornou potência atraindo investimentos externos, não o capital gafanhoto, mas máquinas, tecnologia, compromissos de exportação.

A gigantesca liquidez internacional das últimas décadas, mais os novos ciclos tecnológicos, abriram espaços extraordinários para saltos quânticos em países com visão estratégica. Mas qual foi a visão estratégica do governo FHC, qual tem sido a do governo Lula?

A estratégia de permitir o livre fluxo de capitais criou uma profunda concentração de renda. E nem se venha acenar com os dados do FIBGE ou com o coeficiente Gini para afirmar que a distribuição de renda melhorou. Não consta que o FIBGE tenha familiaridade com fundos “offshore”.

Esse modelo -que FHC e Lula julgam inevitável—provocou a apreciação do Real, duas ondas terríveis de desindustrialização, e tornou o Real o plano de estabilização mais longo da história -doze anos para começar a dar frutos. Agora se entra nessa fase “inevitável”. Internamente, juros e câmbio limitando o crescimento do mercado interno. Externamente, a queda do risco Brasil deixam disponíveis recursos vultosos para as grandes empresas brasileiras. Onde irão aplicar? É evidente que no exterior.

Um modelo que, primeiro concentra o poder nas grandes empresas, depois expulsa os investimentos para o exterior, por falta de mercado interno, pode ser virtuoso? Só para os conformistas.

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