Xadrez do Poder Militar em países não desenvolvidos, por Luis Nassif

Em busca de legitimação social, os militares procuram apresentar-se como expressão da vontade coletiva, mas elaboram suas próprias interpretações da sociedade; impulsionam inovações, mas temem mudanças sociais e preservam marcas antigas.

Este Xadrez foi montado em cima de um texto clássico do historiador baiano Manoel Domingos Neto, “Sobre o patriotismo castrense”.

Peça 1 – o Poder Militar e impeachment de Dilma

As Forças Armadas brasileiras são instituições estabelecidas e nenhum ingênuo chega ao posto de general. Ao estimular o impeachment, o militar atuou sabendo dos prejuízos que causaria à defesa nacional, que pressupõe corporações respeitadas, coesão social, sólidos e profundos laços de amizades com os vizinhos e relações estreitas com o outro lado do Atlântico. Se, apesar disso, apoiou Bolsonaro, cabe pensar detidamente em suas motivações.

Peça 2 – os resultados da modernização militar

Domingos começa seu raciocínio buscando as raízes da modernização militar, que surge em duas guerras do século 19, a Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871).

  1. A tropa passou a ser composta por cidadãos remunerados. O recrutamento obrigatório sinalizou para a sociedade o novo protagonismo do militar como braço do aparelho do Estado moderno.
  2. A composição do corpo de oficiais deixou de lado a seleção por castas ou origem de classes e valorizou a formação profissional em escolas especializadas.
  3. Os Exércitos passam a dispor de grandes unidades operacionais, consagrando a interoperabilidade, exigindo o comando de oficiais superiores.
  4. Os comandantes puderam contar com serviços de estado maior, um colegiado de assessoramento formado por especialistas capazes de estabelecer de forma autônoma as bases doutrinárias da corporação. Por “doutrina” se compreende a definição da finalidade das Forças Armadas, sua finalidade, organização, formas de treinamento, regras hierárquicas e disciplinares. A unidade de doutrina é peça-chave para a eficácia militar.
  5. O poderio militar está estreitamente à capacitação científica, tecnológica e industrial, ou seja, a renovação permanente de armas, equipamentos, meios de locomoção, instrumentos de observação, serviços médicos e possibilidades logísticas.
  6. O militar moderno distanciou-se da sociedade, em virtude da autonomia corporativa requerida pela complexidade da organização corporativa, mas desenvolveu expedientes para interferir direta ou indiretamente em todos os domínios da vida social, da economia ao ordenamento sociopolítico, incluindo o estabelecimento de princípios e valores que, no seu modo de ver, assegurariam a coesão social.
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Por exemplo, a estreita relação da competitividade industrial com a pesquisa de ponta desenvolvida por interesse da defesa; a segurança de rotas comerciais e dos sistemas de comunicação, fundamentais para a sociedade contemporânea e para a economia, dependem de dispositivos militares; o controle social em situações extremas, de caos generalizado e de calamidades naturais, tem no militar o derradeiro instrumento de Estado.

Peça 3 – as formas de intervenção militar

Em busca de legitimação social, os militares procuram apresentar-se como expressão da vontade coletiva, mas elaboram suas próprias interpretações da sociedade; impulsionam inovações, mas temem mudanças sociais e preservam marcas antigas. O militar moderno revela apego a valores ancestrais, inventa e cultua “tradições”, mas está ciente de que a obsolescência é sua ruína.

A incorporação de novidades combina-se com o conservadorismo político e comportamental. A preservação da estabilidade e da ordem, sendo irrelevantes os níveis de iniquidade e vilanias que encerre, está no cerne da cultura integrante da corporação armada regular. Aparentemente esdrúxula, tal combinação faz parte da formação das identidades corporativas.

Peça 4  – o militar em país sem domínio da tecnologia militar

  1. A modernização dos exércitos em países sem capacidade científica, tecnológica e industrial avançada representa uma forma de dominação astuciosa e eficaz das grandes potências.
  2. O militar moderno em “país arcaico” tende a ser mais narcísico que o dos países desenvolvidos: é propenso a desejar uma sociedade digna de si e torna-se fator permanente de instabilidade política.
  3. A modernidade militar em ex-colônias alimenta dilemas identitários nas corporações, notadamente quando a ruptura com a metrópole ocorre sem o envolvimento de vastos contingentes sociais em confrontos sangrentos.
  4. O militar moderno que depende de fornecimento e instrução de estrangeiros desenvolve índole neocolonialista dissimulada pelo “patriotismo castrense”, que demanda a elaboração de leitura histórica própria.
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Corporações militares modernas em países não desenvolvidos se relacionam diretamente com os fornecedores e entram facilmente em desalinho com propensões majoritárias das sociedades que lhes sustentam; podem não manter sintonias com o poder civil na eventualidade do estabelecimento de política externa envolvendo aspectos aparentemente distantes do interesse puramente militar, como a pauta de exportações, a cooperação científica e mesmo acordos de natureza cultural;

Além disso, tensões frequentes no meio militar são motivadas por iniciativas de “âmbito interno” capazes de afetar a vida corporativa, como a contenção de gastos públicos e reformas sociais que incidam sobre o sistema de recrutamento militar, a promoção hierárquica e a inserção social dos oficiais.

Peça 5 – o patriotismo

O militar brasileiro, a exemplo de diversos de seus similares estrangeiros, exigiu do constituinte que inserisse a defesa da pátria como sua missão precípua, mas não definiu o que era pátria nem o constituinte lhe perguntou. A Constituição outorgou ao militar um poder imensurável: a pátria é o único ente poderoso o bastante para pedir a qualquer um que morra ou mate em sua defesa.

A segmentação entre o “social” e o “nacional” amesquinha demandas dos “de baixo” que os “de cima” não querem atender. Lutar pelo “interesse nacional” separadamente do “interesse social” é uma manobra para imprimir respeitabilidade aos desígnios dos que detêm ou querem deter a hegemonia no Estado, entre os quais se destaca o estamento militar. Este procedimento lastreia o “nacionalismo corporativo”, que estou designando como patriotismo castrense.

A tendência do patriota castrense é tomar como grande inimigo os nacionais empenhados na luta por mudanças sociais. Os militares dos países europeus e latino-americanos que adotaram regimes autoritários no século XX elegeram os comunistas e reformistas sociais como inimigos a exterminar.

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As manifestações patrióticas crescem no ritmo da negação de princípios e valores consagrados pela modernidade, como a tolerância, o reconhecimento de direitos humanos, a preservação do meio ambiente e o direito à autodeterminação das sociedades reconhecidas como nacionais.

Observando em perspectiva histórica, tudo indica que vivemos o transe do assentamento de uma nova hegemonia na ordem global. A pretensão da unipolaridade por parte dos Estados Unidos teve vida curta. Seu enterro está previsto, mas ainda sem data marcada. Certamente, não ocorrerá sem brutalidades.

Estas são as circunstâncias em que ocorre o crescimento de tendências políticas extremistas que arrebatam as massas com o mais poderoso argumento conhecido na modernidade: a bandeira da pátria. Impressiona a velocidade dos acontecimentos. Poucos anos se passaram para que o Brasil perdesse a condição de respeitável país emergente para a triste situação em que se encontra, de nação subalterna e desatinada.

O patriotismo castrense contribuiu decisivamente neste processo cujo final é imprevisível. O retorno ao regime de força parece não combinar com a realidade, mas é uma possibilidade que não deve ser descartada.

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22 comentários

  1. Nos EUA, há uma espécie de pacto não escrito que militar americano não atirará em alguém do seu povo. Mas, para descarregar essa energia acumulada, o exército americano precisa sempre estar mandando soldados matar em qualquer canto do mundo – cabendo ao poder civil a justificativa para tal . Tenho certeza de que se por um milagre o mundo eliminasse todos os conflitos bélicos, no dia seguinte as forças armadas americanas fariam guerra entre si dentro dos EUA.

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    • Me desculpe mas não é bem assim. Se analisarmos a guerra que mais produziu mortos nos USA foi exatamente a guerra da secessão, logo pensar que as tradições norte-americanas são de um povo que não atira no seu próprio povo é muita ingenuidade.

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      • Sim, foi uma falha no que escrevi não ter posto esse fato crucial da história americana. Com ele , eu poderia reformular o que escrevi assim = Os EUA que existe hoje nasceu na Guerra da Secessão, uma das guerras modernas mais brutais ( matou 3 por cento da população da época, 970 mil pessoas, o que equivaleria hoje a 3 milhões de pessoas) Passou-se quase 150 anos e esse pacto não foi quebrado – o que também não quer dizer que amanhã não o seja.

    • Joel: tô contigo (que me perdoe o Rogério) e não abro. Essa da “secessão” pode pular. Os sabujos do Quintal onde moramos, a contrario sensu, é que invertem os papéis. Por não terem capacidade de enfrentar os de fora metem porrada nos locais. Dizem, faz parte da formação no Formigueiro. E dale cacete no Povão. Uns gostam (tipo Amélia) outros se acostumam. E assim eles, há mais de um século, deitam e rolam na bagaça.

  2. Forças Armadas só podem ter duas funções e nada mais = em casos excepcionais fazer guerra contra outro país e no dia a dia ajudar no desenvolvimento tecnológico do país. Qualquer coisa fora disso dá m… A ilusão que demagogos enfiam na goela do povo é criar a imagem que militar em qualquer área é garantia de excelência técnica e principalmente de não se corromper com o poder, como os civis. Engano mortal. Veja o erro do México = há mais de 10 anos jogou as FA dele para combater o narcotráfico e o que conseguiram foi torná-lo o mais poderoso do mundo, pois esse, através da corrupção, trouxe não só gente mas também armas das forças armadas para reforçar o crime. No Brasil, mal entraram e os militares já estão se melando nas vantagens que o contato com o poder traz, que diga a filha do Villas-Boas.

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  3. Bolsonaro está deixando várias minas terrestres que, mesmo depois que esse boçal sair do poder , vão custar muito ao país. Duas principais = no setor externo, o país visto como uma caricatura, chacota em todos os círculos internacionais, destruindo o itamaraty, a única instituição que, apesar de todas as mudanças ideológicas ou rupturas democráticas, sempre foi de Estado. A outra = misturar militares com a política. Num país em que pra prender uma figura grotesca como Bob Jefferson, que assumiu que pegou 4 milhões e não ia devolver ( e não devolveu, que eu saiba ), é um parto da montanha, imagina tentar colocar no xilindró um militar de alta patente pego em corrupção . Missão impossível.

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  4. Se esses militares que estão no Governo central são amostra atual das Forças Armadas brasileira, triste país temos…

  5. O referido Xadrez explicou a situação dos militares não só no governo brasileiro, mas o sinal de alerta no último parágrafo sobre possíveis excessos de poder dos militares nos próximos anos, não indica rupturas entre eles mesmos, haja vista o aumento exponencial ingresso de suas bases na política regional e nacional no intuito de duas intenções: ascensão social e achatamento hierárquico, este seria ter um comando de oficiais temporários vem remunerados com contrato único de 7 anos de serviços prestados.

    CASSAÇÃO DA CHAPA BOLSONARO/MORÃO

    A meu ver é apenas mais uma forma de minguar a popularidade do ex-capitão para que o Congresso/STF e os próprios militares não governamentais se ajustem para o pleito de 2022. A história vai lá na frente vai mostrar Bolsonaro, como Collor voltando pra suas bases, aquele a fim de obter vitórias no quesito administrativo-militar.

  6. A ideia central do autor é que a dependência do fornecimento de equipamentos traz consigo um neocolonialismo mental ao meio militar. Mas há que se considerar exceções a esta regra também. A Venezuela por exemplo não segue a esta regra. Mesmo no Brasil há uma certa diferença entre as forças, de maneira que a Marinha procura uma independência maior que o Exército por exemplo, este último sendo a força mais alinhada a um projeto neocolonial entre todas. Compreender essas diferenças ainda que sutis é importante para mudar o quadro.

    • Interessantíssima essa observação sobre a diferença de comportamento entre a Marinha e o Exército. Durante os governos petistas tivemos um desenvolvimento enorme da construção naval brasileira, reduzindo drasticamente nossa dependência tecnológica nesse campo, e talvez esse seja um dos fatores que possa explicar tamanha diferença. Outro fator seria o campo de trabalho: o marinheiro vive no mar desde sempre, longe das pessoas, cumprindo seu dever, é uma realidade bem diferente daquela dos oficiais do exército, que falam tanto na importância de defender a Amazônia, mas ainda mantém a maior parte dos quartéis nas regiões mais desenvolvidas do país, onde desfilam nos salões da alta-sociedade para arrotar uma erudição forçada.

      Quanto à Venezuela, não a vejo como exceção à regra: o país rompeu sua dependência com relação aos EUA para se tornar dependente da Rússia e da China em termos de tecnologia militar. Compraram armamento moderno dos russos, mas falharam em desenvolver a indústria pesada e o desenvolvimento de tecnologias de uso militar, dois fatores cruciais para a independência militar.

  7. O Brasil não é uma pátria. Nunca foi. Não somos uma nação soberana.
    Somos um território autônomo controlado por dezenas de grupos de poder, cada um atuando em defesa dos seus privilégios e fazendo acordos entre si tendo o Estado como garantidor e parceiro de muitos dos seus negócios.
    Não existe um objetivo central, para onde as ações se convergem. É cada um por si e quem tem mais condições e relacionamentos aufere os ganhos que deseja.
    O Brasil é um território autônomo onde funcionários públicos (concursados, nomeados ou eleitos) atuam na desestabilização do Estado em benefício de grupos externos e de si próprios. Provocam a redução da atividade econômica e freiam o desenvolvimento interno mesmo sabendo que isso prejudicará a arrecadação, que é a fonte de pagamento dos salários do setor público. Porém não se importam com isso porque seu salário está garantido. O prejuízo será direcionado para a ponta mais pobre e desfavorecida.
    O mesmo comportamento se observa em muitos dos grupos privados internos nacionais que podem atuar contra o crescimento do país desde que tenham garantidos seus rendimentos. O Estado garante a parte perdida dos rendimentos através da transferência de recursos para o sistema financeiro via dívida pública.
    Dentro deste contexto arrisco a pensar que não há necessidade de Forças Armadas. Se os próprios funcionários públicos, em parceria com parte do setor privado, todos nacionais, brasileiros, conspiram em favor de grupos estrangeiros, para que FA?
    Na história da humanidade grupos atacavam outros grupos para conseguir os recursos naturais e riquezas da área atacada. Vencia o mais forte.
    Ainda é assim na visão dos países soberanos e desenvolvidos, que procuram manter suas FA bem preparadas para coibir tentativas de tomada de território e riqueza a força, uma vez que seu povo jamais vai entregar as riquezas da nação de dentro para fora.
    Desde o início do Séc. XX, e a tal República, nunca foi necessária uma invasão estrangeira para obter o que se deseja. Muitos desses grupos nacionais sempre estiveram prontos para ajudar e trabalhar para a entrega.
    Parece que as FA Brasileiras, infelizmente, sabem disso a muitos anos. Gostaria que fosse diferente e penso que as FA, também. Mas não é.
    Vai ver que é por isso que, atualmente, aceitam cargos na administração pública civil com salários maiores. Pode ser que até eles cansaram de lutar pelo país dentro deste cenário, que é muito antigo.
    E tem gente que ainda acha que vai ter golpe de estado militar…

    • Os doutos sabujas acham normal um secretário DE GOVERNO sair para trabalhar na iniciativa privada, o equivalente ao que o marreco fez, e ainda dar entrevistas ditando a politica economica que o governo, que está abandonando, deve adotar, politica que favorece a iniciativa privada que está aderindo….uma esculhambação total…e os doutos acham normal……nesse banco central só deveria ter profissional de carreira e ao saírem enfrentassem uma quarentena de minimo dois anos para trabalhar em qualquer pulgueiro pestilento do rentismo podre……

  8. No dia em que a moeda chinesa assumir uma eventual hegemonia, “nossos” defensores da pátria aceitarão malas made in China recheadas.

  9. “Poucos anos se passaram para que o Brasil perdesse a condição de respeitável país emergente”.

    Só agora ficamos sabendo pelo articulista que o Brasil há poucos anos era um “respeitável país emergente”!!

    Fica a pergunta: Quem foram os principais contribuintes para esta realização maiúscula e recente?

    Em momento oportuno, aguardo pelas ideias sempre inspiradas do autor sobre este tema.

    De “respeitável país emergente”, passamos em poucos anos ao que sempre fomos, um dos campeões mundiais de iniquidade social, governado pela onipresente “Elite do Atraso”, agora em sua versão extremada.

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  10. Nassif: bátchê, nessa só faltou você dizer que “o Rei tá nú” (não tem nada a ver com as “festinhas” do PríncipeDeputado). Cacilds! Mas esse drama não é só em Pindorama. Salvo exceção, dentre os latinoamericanos as forças terrestres não têm passado de um “Incrível Exército de Brancaleone”.

    PS: outro desse e acho que você tá se candidatando a uma invernada na IlhaGrande. Graciliano que o diga.

    • Mas tá no próprio título que é sobre o poder militar em países não desenvolvidos, o artigo não está dirigido exclusivamente ao Brasil.

  11. Um aspecto que o texto ficou devendo, que aumenta sobremaneira o imbróglio, é a estruturante racista. Como quase todas as instituições brasileiras, a modernização não eliminou, pelo contrário, barrou a formação de oficiais negros. Acolheu o que Gilberto Freyre chamou de “equilíbrio de antagonismos”, no caso, o Oficial (Estado-Maior branco) e o recruta (Bucha de Canhão negra).

  12. Algumas considerações a respeito:

    1) A íntegra do artigo “Sobre o patriotismo castrense”, 23 páginas, do eminente historiador Manuel Domingo Neto, Doutor em História pela Universidade de Paris. Professor da Universidade Federal Fluminense. Foi vice-presidente do CNPq.
    http://revistaperseu.fpabramo.org.br/index.php/revista-perseu/article/view/314/256

    2) TV GGN, 13.06.2020 – entrevista de 13.06.2020, com Manuel Domingos Neto, imperdível, são apenas 31’. Trecho (DEVASTADOR) do minuto 11:53 ao 15:51:

    Nassif – E hoje, o que é que seria o pensamento dominante nas FFAA, ante esses dilemas com Bolsonaro e militares indo servir o governo?

    MDN – Vc dá um salto grande. A realidade de hoje me parece surpreendente, eu próprio que leio sobre isso há muito tempo, assim como meus colegas, também nos surpreendemos, não esperávamos tal coisa. Essa aterrisagem no mundo plano dos militares é absolutamente surpreendente e não creio que seja sustentável.
    O que permitiu isso, ensejou tal coisa? Eu acho que aquela geração de militares que tinham noções de Estado, que tinham noções de sociedade, TINHAM PORTE INTELECTUAL, foi substituída por uma geração formada durante a Guerra Fria e que chega agora ao MANDO. Essa geração é INTELECTUALMENTE MUITO MAIS POBRE, muito mais insensível aos dramas sociais, muito mais apegada, digamos que seria a geração meritocrática num ambiente de monopólio ideológico reacionário, tanto o Exército, formado a partir de 1964, ele alija o pensamento divergente, e isso empobrece os espíritos.
    Esses generais aí, a maior parte, são formados através de APOSTILAS, que servem para você tirar nota boa, ser bem classificado. General Pujol, p. e., já lestes alguma coisa do grande comandante Pujol? Comandante Pujol não escreve ao longo de sua vida, eu inclusive tento encontrar o que ele escreveu na ESAO e ECEME, até agora não consegui, mas o gal. Pujol e os outros,o que escrevem? Quais são os ensaios? Não há. Você procura um Lira Tavares, um Golbery, um Nélson Werneck, os mais reacionários, Juarez, vc procura mas não há.

    Não há exatamente intelectuais no Exército a partir de 1964, porque reina a pobreza, aquela meritocracia de caserna que é absolutamente dopada. Eu diria que hoje um oficial é formado com a mesma largueza mental do que um procurador ou um juiz.

    As inquietações relativamente ao país, me parece que sofrem aí uma bitola, uma bitola muito severa, ele é condicionado pela Guerra Fria, essa turma que está mandando hoje, é toda formada na Guerra Fria. É, portanto, fácil adquirir a noção de que há um inimigo chamado, já que o comunismo ficou defasado, arranja outro nome para a mesma coisa, põe aí Gramscismo ou Marxismo Cultural, ou outra palhaçada qualquer.

    Nassif – Quer dizer que aquelas grandes discussões, aquela geração dos clubes militares, vc tinha Juarez de um lado, Estilac Leal de outro, Ota Barbosa do outro, acabou, acabou essa diversidade que permitia essas discussões de temas nacionais?

    MDN – Evaporou completamente. (…)

    3) Nassif – “Peça 1 – o Poder Militar e impeachment de Dilma. (…) Se, apesar disso, apoiou Bolsonaro, cabe pensar detidamente em suas motivações.”

    Prováveis motivações – Folha, 10.07.2019, por Danielle Brant: “General Heleno diz que é uma vergonha militar da sua patente receber salário líquido de R$ 19 mil. Atual ministro-chefe do GSI recebia cerca de R$ 55 mil como diretor do Comitê Olímpico do Brasil entre 2011 e 2017”

    Creio que foi o mesmo general, um “sindicalista nato”, que confessou, indignado, que no restaurante, “era obrigado a escolher o prato pelo lado direito do menu, onde ficam os preços, devido à situação de “penúria” dos militares de alta patente. Nada como um polpudo contracheque extra para superar essa “augusta humilhação”.
    Se isso não explica tudo, é uma boa pista. Já são mais de 3 mil deles no governo. E subindo.

    4) Folha, 15.06.2020: A coluna de Hélio Schwartsman vai na mesma linha:
    Militares e a democracia

    Declarações e notas da elite castrense divulgadas nos últimos dias mostram que alguns de nossos generais ainda não entenderam o que é democracia e menos ainda o papel das Forças Armadas em uma.

    Primeiro foi o general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, que, em entrevista à revista Veja, afirmou que não há risco de as Forças Armadas desferirem um golpe, mas alertou que o “outro lado” não pode “esticar a corda”. Queixou-se especificamente de comparações de Bolsonaro a Hitler.

    Receio que Ramos esteja desatualizado quanto ao nível de liberdades democráticas em vigor no país. Até onde vai a teoria, a oposição sempre pode esticar a corda (o fato de poder não quer dizer que deva), e todo cidadão sempre pode comparar qualquer um a Hitler (também não quer dizer que deva). Aliás, Bolsonaro não fez outra coisa que não esticar a corda desde que assumiu o poder.

    Logo em seguida, o presidente Jair Bolsonaro e os generais Hamilton Mourão (vice-presidente) e Fernando Azevedo (ministro da Defesa) soltaram uma nota em que dizem que as Forças Armadas não aceitam tentativas de tomada de poder decorrentes de “julgamentos políticos”. Da última vez que abri a Constituição, vi que todos os cidadãos brasileiros estão obrigados a acatar decisões da Justiça, quer as considerem políticas, apolíticas, justas ou injustas. Pode-se discuti-las, lamentá-las, mas não desobedecer a elas.

    Eu esperaria que, a essa altura, os militares tivessem aprendido mais sobre as virtudes da democracia. Seu valor, é oportuno lembrar, não está nas figuras que elege —Collor, Dilma e Bolsonaro não me deixam mentir—, mas nos meios não violentos que ela oferece para que nos livremos de maus governantes. Eles são o voto, processos penais e eleitorais e o impeachment, todos perfeitamente legais.

    Em tempo, a Costa Rica decidiu livrar-se das Forças Armadas e vive muito bem sem elas.

    5) Por fim, imprimi o artigo do historiador Manuel Domingos Neto e a coluna do Nassif, que serão partes integrantes e sobretudo complementares do livro Forças Armadas e Política no Brasil, Ed. Todavia, 2005, edição revista e ampliada, de 2019, cuja leitura vinha sendo adiada, e agora torna-se imperiosa. Prometo começar amanhã, como bom procrastinador, se as centenas de lives diárias deixarem.

    Esse livro tem sido muito citado e comentado como indispensável para se entender o novo momento do país, entre outros. Se aquela durou 21, esta vai durar ao menos 30 anos, porque instituída pelo sufrágio universal, a pedido de 57,7 milhões de eleitores.

    A dignidade negociada por um contracheque extra.

  13. Caro Nassif, uma pequena correção: o professor, pesquisador e historiador Manuel Domingos Neto, um dos maiores estudiosos brasileiros em assuntos militares, é cearense nascido, em 1949, na cidade de Fortaleza.

    • E atualmente residindo na cidade de Parnaíba- PI . E como bem você observou a grafia correta é Manuel, não Manoel.

  14. Nassif, por favor,
    O nome do professor é Manuel Domingos Neto, não erre mais, rsrsrs. E ele é cearense, atualmente residindo em Parnaíba- PI.
    Obrigada e abraços.

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