23 de setembro de 2026

O jornalismo econômico, por Marcelo Miterhof

Da Folha

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Jornalismo econômico

Falta esforço para entender a racionalidade econômica não convencional, não liberal; a tarefa não é fácil

Participei da enquete feita pela ombudsman Suzana Singer para sua coluna de 26/1/2014. A questão foi: a cobertura econômica está excessivamente pessimista?

A conjuntura não é ruim, embora tampouco seja empolgante. Porém a observação da grande imprensa sugere um pessimismo exagerado. Por exemplo, na sexta passada, um ganho real dos rendimentos médios de 1,8% em 2013 foi manchete negativa na Folha.

O pessimismo (ou o caráter crítico) é uma marca do jornal. Mas o didatismo e a pluralidade, também. Assim, faço a reflexão a seguir, que vale para o jornalismo econômico em geral.

Meu sentimento é que falta esforço para entender a racionalidade econômica não convencional. A tarefa não é fácil.

O liberalismo econômico tem duas vantagens em termos de persuasão. Por ser um paradigma de equilíbrio, que, na teoria, tem dinâmicas autoajustadas (o equilíbrio geral), é mais simples de entender. Além disso, ele evoca um principio “moral” poderoso: a parcimônia, principalmente quando aplicada a terceiros.

O governo deve gastar menos, buscando a eficiência, para manter a inflação baixa e, assim, dar espaço e confiança aos empresários para investir. Para aumentar a competitividade sistêmica, o gasto público deve priorizar a infraestrutura e a educação. De resto, o livre mercado resolve ou “faz sua mágica”.

Um governo agir com uma lógica distinta significa contrariar a “natureza” da economia e invariavelmente tem um resultado final ruim.

A maioria dos economistas crê nisso. Mas o conhecimento econômico tem graves dificuldades de verificação empírica e é viesado por ideologias. Frequentemente, ocorre defesa de interesses específicos como se fosse uma causa pública.

Por isso, a cobertura precisa diversificar suas análises e suas fontes. O período é particularmente relevante, pois o país vive uma batalha ideológica e distributiva em razão da tentativa do governo de enfrentar o histórico problema dos juros altos.

A disputa se iniciou há dois anos e meio, quando o BC baixou os juros, contrariando o manual do mercado. A reação foi histérica (tudo seria voluntarismo) e uníssona nos meios de comunicação. Poucos jornalistas ao menos desconfiaram.

Diante do recrudescimento da crise global, alguns reconheceram o erro. Porém não é fácil mudar de entendimento. Ademais, a tenacidade do rentismo é alta e nem mesmo o governo sinaliza ter disposição para manter o caminho que tomou.

A queda dos juros e a crise mundial explicitaram conflitos que tinham hibernado em razão da apreciação cambial da última década. Agora, há uma disputa de paradigmas: a redistribuição para crescer e seus desequilíbrios (de indicadores econômicos, infraestrutura, sociais etc.) versus a busca por um equilíbrio que promete o crescimento… mas só no futuro.

Nesse contexto, é fácil e legítimo fazer uma cobertura verificando o cumprimento de metas oficiais de inflação e superavit primário. Porém melhor é entender as razões de analistas de distintas cores. Afinal, o ajuste contracionista não é o único caminho possível. As perguntas a seguir sugerem uma investigação.

Superavit primário é relevante em que circunstâncias? A dificuldade de cumprir sua meta significa que a situação fiscal está ruim? O Estado brasileiro é mesmo tão ineficiente? Algum governo pós-democratização fez ajuste fiscal pelo corte de despesas? Se não, por quê? Os gastos públicos são rígidos?

Inflação anual de 6% é alta? Basta compará-la ao atual teto do regime de metas ou à inflação dos países ricos? Um país que passa por mudanças sociais e civilizatórias não tem uma inflação mais alta? Por exemplo, que ocorre se o frete sobe porque a jornada dos caminhoneiros foi mais bem regulada?

Algo parecido vale para o câmbio: um país em desenvolvimento tem balanço de pagamentos mais volátil? Isso implica padrão inflacionário mais elevado? Choques de custo devem ser compensados por juros mais altos e/ou aperto fiscal? Houve reindexação porque a inflação estourou o teto da meta de 2001 a 2003?

As respostas apontam diferenças entre as abordagens econômicas. Há nisso implicações teóricas (neutralidade da moeda, causalidade entre investimento e poupança etc.) e ideológicas, difíceis de entender e separar, repletas de conflitos.

O esforço de traduzi-las seria uma bela contribuição da imprensa para o amadurecimento do país, como tantas vezes ela foi e é capaz de proporcionar.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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15 Comentários
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  1. Lionel Rupaud

    6 de fevereiro de 2014 2:39 pm

    Bom texto no geral, mas dizer que

    “o didatismo e a pluralidade, também (é marca da FSP)”…

    ” principio “moral” poderoso (do liberalismo econômico): a parcimônia, principalmente quando aplicada a terceiros” hum será que ele vai ver “O lobo de Wall Street” no cinema?

    Achei que no fundo faltou ao autor… coragem para explicar sua opinião, se é que tem no fundo.

    1. Pedro Penido dos Anjos

      6 de fevereiro de 2014 5:40 pm

      Releia o artigo e reflita.
      Em

      Releia o artigo e reflita.

      Em suma: leie.

  2. Miguel A. E. Corgosinho

    6 de fevereiro de 2014 3:29 pm

    “Mas o conhecimento econômico

    “Mas o conhecimento econômico tem graves dificuldades de verificação empírica e é viesado por ideologias. Frequentemente, ocorre defesa de interesses específicos como se fosse uma causa pública.

    Porque os atributos de criação do dinheiro não pode ocorrer como se fosse uma causa pública?

    “Por isso, a cobertura precisa diversificar suas análises e suas fontes. O período é particularmente relevante, pois o país vive uma batalha ideológica e distributiva em razão da tentativa do governo de enfrentar o histórico problema dos juros altos.”

    Ok. Como o dono da fonte do dinheiro deve ser percebido com o princípio do mundo: 1- por meio das coisas que forem criadas semelhantes ao seu valor público (neutralidade da moeda); 2 -por raciocínios liberais (causalidade entre investimento e poupança), fazendo o governo enfrentar o problema dos atributos invisiveis do valor das coisas criadas na natureza, pelo histórico problema de juros do superávit primário?

    “As respostas apontam diferenças entre as abordagens econômicas. Há nisso implicações teóricas (neutralidade da moeda, causalidade entre investimento e poupança etc.) e ideológicas, difíceis de entender e separar, repletas de conflitos.

    O esforço de traduzi-las seria uma bela contribuição da imprensa para o amadurecimento do país, como tantas vezes ela foi e é capaz de proporcionar.”

    Contribua então a própria imprensa, quem pode honrar o atributo do valor das coisas expresso na moeda? O Estado (criandor da fonte de neutralidade da moeda) ou os bancos, a criatura mudando o modo natural do valor para o preço do investimento?

    “…ideológicas, difíceis de entender e separar, repletas de conflitos.”

    In + vestir = desvestir

    Ex + portação = coisas deixadas do contato natural

    In + competência = incompetência econômica.

  3. Guilherme Nobre

    6 de fevereiro de 2014 4:09 pm

    André Araújo

    Gostaria de ver comentários dele para artigos como esse, mas o cara sumiu.

    1. Pedro Penido dos Anjos

      6 de fevereiro de 2014 5:35 pm

      Experimente chamar o Motta

      Experimente chamar o Motta Araujo….

  4. Marco Antonio Bergamaschi

    6 de fevereiro de 2014 5:54 pm

    Excelente texto. Com

    Excelente texto. Com perguntas simples, o autor aponta algumas opções e alternativas para um país em desenvolvimento como o nosso. Ao responder estas questões, estaremos externando nossa opinião sobre o país que queremos.

     

    Ao meu ver, o equilíbrio economico é um meio, é desejável, mas não é a finalidade em si. Esta é o bem estar da população, a diminuição das desigualdades sociais, enfim, a construção de um país mais justo.

    1. Calvin

      6 de fevereiro de 2014 6:13 pm

      Meu caro, depende….a

      Meu caro, depende….a desigualdade medida pelo Coeficiente GINI, revela algumas coisas:

      – A Etiópia é um dos países mais igualitários do mundo. É inclusive mais igualitária que a média dos países da União Européia. Outro que também está entre os mais igualitários é o Paquistão.
      Mas onde é que existe mais pobreza? No Paquistão e na Etiópia ou na União Européia?

      – O Timor Leste é mais igualitário que Espanha, Canadá e França

      – O Bangladesh, outro país que concentra massas de miseráveis é mais igualitário que Irlanda e Nova Zelândia.

      – A Índia é mais igualitária que o Japão.

      – O Malawi é mais igualitário que o Reino Unido.

      Portanto, nem sempre igualdade é positivo, e desigualdade, negativo…

      1. Prosperitário da Viola

        6 de fevereiro de 2014 11:13 pm

        Tá legal … eu aceito o argumento.

        Mas não me altere o samba tanto assim! …Oops, me empolguei com o Paulinho.

        O fato é que entre duzentas nações deste planeta, estamos entre as cinco ou 10 maiores em população, área, recusrsos naturais, economias… 

        Não preciamos ser os primeiros, mas estar entre os primeiros. Se fosse Fórmula 1, estaríamos no pódio.

        Se já estamos lá nesses “índices”, qual a maior das prioridades (genericamente)?

        “Qualidade de gente”.

        Educação, distribuição, conhecimento, capacitação, boa saúde, bom nível de conforto, higiene, segurança, abastecimento, ciência, informação, tecnologia, informação…

        E o pessoal, que usa o país, só no “superávit, nos juros, no câmbio, na balança, no balanço, no PIB, no Kct a 4″…

        Mas não na … Gente

        Que faz O país.

      2. Marco Antonio Bergamaschi

        7 de fevereiro de 2014 1:07 am

        Acho que na sua leitura você

        Acho que na sua leitura você pulou (ou omitiu) a parte que escrevi que a finalidade da política economica é garantir  “o bem estar das pessoas”.  Na minha opinião a distribuição de renda é sim um dos fatores que proporciona esta garantia.

  5. Alexandre Weber - Santos -SP

    6 de fevereiro de 2014 9:51 pm

    Soluções

    Apontar problemas que estamos carecas de saber até o Nassif, cadê as propostas de soluções?

    Será que sou o único aqui no blog que trago idéias novas e que são olimpiccamente desprezadas sem apreciação?

    A verdade é que quem têm condição de opinar, não o faz por medo.

    Mas que a situação é periclitante, isto é, taí a The Economist que não me deixa sozinho nesta.

    1. Orlando Novas Boas

      6 de fevereiro de 2014 11:01 pm

      Rapaáz, que arrotogân, digo,

      Rapaáz, que arrotogân, digo, arrogância presunto, digo, presunçosa!

      Traga idéias “novas” … e boas, e quem sabe encontre mais eco?

      Ou quem sabe arranje uma coluna na Economist

      1. Alexandre Weber - Santos -SP

        7 de fevereiro de 2014 3:36 am

        Já trouxe dezenas de novas idéias ao blog

        Você é novo no blog? Não discutem idéias novas aqui, o Nassif é o primeiro a bloquear.

      2. Pedro Penido dos Anjos

        7 de fevereiro de 2014 7:00 am

        Se não der, no FT, ou no WSJ!

        Se não der, no FT, ou no WSJ!

    2. Pedro Penido dos Anjos

      7 de fevereiro de 2014 6:52 am

      Ao que parece, nem The

      Ao que parece, nem The Itau….

  6. Miguel A. E. Corgosinho

    7 de fevereiro de 2014 12:38 am

    A economia é apenas uma parte da coisa implicita

    A economia é apenas uma parte implicita da coisa que passa imitar a realidade sem nada perder do seu modelo; quando falta a outra parte que passa despercebida, reporta-se sempre contrária ao que toma seu lugar. Assim, a imitação representa a exigencia de um meio em si que ela produziu e não quer que apliquem qualquer regra determinada.

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