5 de junho de 2026

caminhar com fernando pessoa, 1, por romério rômulo

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caminhar com fernando pessoa, 1

por romério rômulo

 

qual o duro sentido da terra?

encaminhar-me à morte é pouco

e outro sentido deve ter.

nascer-me, nutrir-me, atar-me à mais cruel heresia

também é pouco

e não há porque ficar só nisso.

 

qual o verdadeiro campo que habito

se o habito pra desabitá-lo?

 

devo crer e fazer.

depois

irei habitar o homem e transtorná-lo.

 

romério rômulo

Romério Rômulo

Romério Rômulo (poeta prosador) nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar – Rio de Janeiro RJ.

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2 Comentários
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  1. paulo silvério

    17 de agosto de 2016 3:38 pm

    E se  tem saudade do que não

    E se  tem saudade do que não existe no inesgotável fato que se confunde com a soma da relva desperta
    ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro,
    que vês nas divindades reduzidas a isso
    que nos repetem e confirmam na ilusão de um novo começo

    Realidade não pensada
    repelindo o absurdo quotidiano das moscas!
    até o fim que lhe cabe das coisas que existem nas opiniões sobre a Natureza da felicidade que não pede explicação alguma,
    das coisas que não existem no tempo que as mede.

    Nisto que é o que hoje é, no tal por enquanto de tudo isto que há por hoje.
    mas que nunca fez crescer uma erva ou nascer uma flor
    pois amanhã não há, e o que há é isto: Um céu de azul, umas nuvens brancas no horizonte.
    E não chegarás jamais a última resposta

    Nem que seja só por isso mesmo! a última Ressuscitação do Tudo mais do mesmo e da mesma maneira!
    O fardo horrível do tempo que nos abate e nos faz pender para além da terra sem cessar.
    Nesse universo que não é uma idéia tua.
    Desde que tua idéia do Universo foi por ti apropriada.

    Então perguntai a qualquer coisa nos teus dias de perfeita lucidez
    E quando ” for evidente” a verdade sobre os incontáveis mundos adequados à tua existência natural e agradável
    ao bastante para não ser cego
    Escutai sem ouvir – Para que te serviria ouvir?

    Ouvindo nada ficarias sabendo
    das coisas para além do lado de cá dessa diferença que não te obriga ter teorias sobre as coisas

    O mistério das coisas está escancarado diante a tua cara embasbacada
    Neste momento entre o surgir de uma vaga saudade
    Que aparece e desaparece.
    onde não há linguagem alguma

    Sinto-me nascido para a eterna novidade do Mundo…
    Então, Saúdo-os e desejo-lhes sol, E chuva, quando a chuva é precisa
    E que suas casas tenham sempre
    uma janela aberta diante uma árvore predileta

     

  2. Odonir Oliveira

    17 de agosto de 2016 5:03 pm

    Análise e síntese

    Como já lhe escrevi algumas vezes, tenho grande admiração por sua lírica, especialmente por seu processo de análise e síntese, seja em poemas maiores como esse, seja nos haicais quase diários, em outros cantos.

    Se me permite uma observação primária, acho seus versos quase pictóricos:  influência de Klee, Kandinski, Schiele, Guignard, Scliar … também diários?  

    Alguns recortes apenas:

     

    “se todos morremos na estrada
    o que fazer dos caminhos?

    vou desarmá-los, amada.”
    RR

     

    …………….

     

    “quanto de mim acabou hoje?
    quanto de mim mostrou-se eu?
    quanto de mim vive,
    quanto morreu?”
    RR

     

    …………

    “os poetas rasgam olhos
    limpam línguas, cospem putidão.
    os poetas sinistrados 
    de paixão.”
    RR

     

    …………..

     

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