
caminhar com fernando pessoa, 1
por romério rômulo
qual o duro sentido da terra?
encaminhar-me à morte é pouco
e outro sentido deve ter.
nascer-me, nutrir-me, atar-me à mais cruel heresia
também é pouco
e não há porque ficar só nisso.
qual o verdadeiro campo que habito
se o habito pra desabitá-lo?
devo crer e fazer.
depois
irei habitar o homem e transtorná-lo.
romério rômulo
paulo silvério
17 de agosto de 2016 3:38 pmE se tem saudade do que não
E se tem saudade do que não existe no inesgotável fato que se confunde com a soma da relva desperta
ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro,
que vês nas divindades reduzidas a isso
que nos repetem e confirmam na ilusão de um novo começo
Realidade não pensada
repelindo o absurdo quotidiano das moscas!
até o fim que lhe cabe das coisas que existem nas opiniões sobre a Natureza da felicidade que não pede explicação alguma,
das coisas que não existem no tempo que as mede.
Nisto que é o que hoje é, no tal por enquanto de tudo isto que há por hoje.
mas que nunca fez crescer uma erva ou nascer uma flor
pois amanhã não há, e o que há é isto: Um céu de azul, umas nuvens brancas no horizonte.
E não chegarás jamais a última resposta
Nem que seja só por isso mesmo! a última Ressuscitação do Tudo mais do mesmo e da mesma maneira!
O fardo horrível do tempo que nos abate e nos faz pender para além da terra sem cessar.
Nesse universo que não é uma idéia tua.
Desde que tua idéia do Universo foi por ti apropriada.
Então perguntai a qualquer coisa nos teus dias de perfeita lucidez
E quando ” for evidente” a verdade sobre os incontáveis mundos adequados à tua existência natural e agradável
ao bastante para não ser cego
Escutai sem ouvir – Para que te serviria ouvir?
Ouvindo nada ficarias sabendo
das coisas para além do lado de cá dessa diferença que não te obriga ter teorias sobre as coisas
O mistério das coisas está escancarado diante a tua cara embasbacada
Neste momento entre o surgir de uma vaga saudade
Que aparece e desaparece.
onde não há linguagem alguma
Sinto-me nascido para a eterna novidade do Mundo…
Então, Saúdo-os e desejo-lhes sol, E chuva, quando a chuva é precisa
E que suas casas tenham sempre
uma janela aberta diante uma árvore predileta
Odonir Oliveira
17 de agosto de 2016 5:03 pmAnálise e síntese
Como já lhe escrevi algumas vezes, tenho grande admiração por sua lírica, especialmente por seu processo de análise e síntese, seja em poemas maiores como esse, seja nos haicais quase diários, em outros cantos.
Se me permite uma observação primária, acho seus versos quase pictóricos: influência de Klee, Kandinski, Schiele, Guignard, Scliar … também diários?
Alguns recortes apenas:
“se todos morremos na estrada
o que fazer dos caminhos?
vou desarmá-los, amada.”
RR
…………….
“quanto de mim acabou hoje?
quanto de mim mostrou-se eu?
quanto de mim vive,
quanto morreu?”
RR
…………
“os poetas rasgam olhos
limpam línguas, cospem putidão.
os poetas sinistrados
de paixão.”
RR
…………..