No dia em que Clarice Lispector quase matou de susto uma galinha
por Sebastião Nunes
Certa manhã ensolarada, em que flanava deliciosamente pela praia do Leme, catando no ar personagens e acontecimentos para suas histórias, a doce Clarice notou, sentada num banco, uma galinha fumando charuto.
(Não se espante, amável leitor, num país tão caótico quanto o nosso, em que até um ignorante desvairado chega à presidência da república, tudo é possível.)
Pois lá estava ela, a galinha, soltando pelo bico grossas fumaças de seu cheiroso cilindro amarronzado.
– Bom dia, dona Clarice – disse a galinha. – Como vai a senhora?
A doce romancista-contista-cronista não se espantou. Tantas quimeras e mazelas e donzelas e panelas lhe turbilhonavam pelo cérebro que uma a mais nada acrescentava.
– Bom dia, senhora galinha – ripostou a escritora. – Vou levando, como Deus, as canetas e os interstícios de tempo me permitem.
– Galinha com G maiúsculo, for favor. E não sou uma galinha, mas A Galinha, matriz de todas as galinhas existentes e por existir, e não a galinha fajuta de seu famoso conto.
UM SENHOR PARÊNTESE
Aconteceu que, em determinado número, a revista “Senhor”, a melhor e mais sofisticada revista cultural já editada nesta terra, republicou um conto da doce Clarice só porque, no mês anterior, o conto saiu com o título de “A galinha” em vez de “Uma galinha”, como rezava o original. Respeito é bom e a escritora e os editores gostavam. Infelizmente, porém, ao cabo de 42 números, em março de 1964, funesto marco do mais que funesto golpe militar, a deliciosa publicação deixou de existir. Frente de intelectuais brilhantes, refúgio de pensadores literários (e não só) libertários, vinha recebendo a cada mês menos anúncios, pela canalhice contumaz da elite industrial-comercial-financeira desta terrinha maltrapilha em que, por azar ou maldição, viemos a nascer.
VOLTANDO À FABULOSA FÁBULA
– Ah, sim – espantou-se a romancista. – Pensei que estivesse morta e comida.
– Ha ha ha! – riu-se a fumante. – As galinhas morrem, mas não A Galinha.
– Sim – concordou a contista. – Assim como os homens morrem, mas não O Homem.
– No seu conto, não se tratava de mim, mas de “uma” galinha, ou seja, apenas um banal exemplar de nossa penosa estirpe.
– De fato. Estou pensando no silogismo famoso “Caio é homem; todo homem é mortal; logo, Caio é mortal”.
A Galinha ponderou parcos segundos, o suficiente para demonstrar que pensava, até que, satisfeita, assentiu:
– Perfeitamente, dona Clarice, concordo relativamente.
– Como relativamente?
– Quando fomos criados, O Homem e A Galinha, o objetivo supremo de nosso criador, seja lá Ele quem for, a natureza ou um velho barbudo, era o de imortalidade, como também para as formigas, as lombrigas, os ornitorrincos etc.
– Sei – a doce Clarice estava bestificada. Quem diria que, numa manhã qualquer, na discreta praia do Leme, fosse encontrar uma galinha fumante e pensante, sugerindo um Platão bípede e coberto de penugem?
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MAIS MINHOCAS NA CLARICIANA CACHOLA
Verdade ou não, lá estavam elas, frente a frente: a doce e muito nossa conhecida escritora e A Galinha, serena, pensante e fumante. Mas quem sou eu para dizer se esse relato está brotando de meu cérebro ou me está sendo sugerido pelo avantesma (quase) imortal da tumultuosa pensadora? Continuemos, porém.
– Ainda que mal pergunte – continuou A Galinha, cansada de filosofar. – O que a fez sair de casa e vir perambular, nesta bonita manhã?
– Ah, nem te conto. É que logo ali na esquina, naquele boteco que daqui se divisa, fritam as mais deliciosas coxinhas de galinha de toda a cidade. E acordei com a boca cheia d’água, ansiosa por morder uma ou duas.
Mal disse tal inconveniência, a doce Clarice arreganhou os dentes e, como se em um de seus contos mais delirantes, avançou com as mãos estendidas, disposta a esganar e devorar A Galinha que, largando o charuto, bateu asas e voou.
“Por via das dúvidas”, pensou ela, voando até onde lhe permitiam as enxúndias e a incerta faculdade volante, “mais vale A Galinha viva do que duas ou três galinhas transformadas em salgadinhos”.
Boquiaberta, a doce Clarice nada entendeu. Teria ofendido A Galinha ou, das duas, era mais doida a penosa criatura? Deixou para lá. Tinha mais em que pensar. Por exemplo: comeria duas ou três coxinhas? E lá se foi ela atarantada com tal dúvida, ela que, na vida prática, era o que se pode chamar Um Desastre Arquetípico.
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“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.” (Clarice Lispector)
Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.
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AMBAR
16 de maio de 2022 3:22 pmPara quem vive com lógica a vida não fez sentido.