Pós-fascismo e limpeza partidária no Brasil
por Alexandre Filordi
O historiador italiano Enzo Traverso denominou pós-fascismo a convergência de uma corrente particular de ideologias e de ações pautadas por giros autoritários que, diferentemente do fascismo como feixe – fascio – organizado politicamente, atua de forma impolítica, isto é, nos vazios gerados pelos vácuos da participação democrática na própria vida política. Impolítica não quer dizer ausência da maneira política de se agir. Sua estratégia é alucinar, conturbar e chocar as tratativas políticas pautadas por normas, regras, princípios constitucionais e democráticos. A impolítica agencia conluios à base de criação fantasiosa de inimigos. Ademais, na impolítica, o Estado se transforma em um “grêmio” ou em um “clube” VIP de grileiros do poder.
O pós-fascismo é uma espécie de tênia autoritária que subiu para o cérebro da democracia. Aproveitando-se das crises de valores e das inseguranças sociais oriundas da concertação neoliberal, o pós-fascismo se inocula na governança e na distribuição concreta e simbólica do poder para desacreditar a autonomia dos poderes de Estado, as deliberações coletivas, o diálogo político, a razão científica, as redes de proteção social, as minorias etc.
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A impolítica pós-fascista é seu próprio modo político. Por isso, no caso do Brasil, seus representantes não se acanham em usar o que seria impensado em qualquer ritual democrático: palavreados chulos; defesa da violência banalizada; insensibilidade e arrogância com os sujeitos fragilizados pela exclusão econômica e social; discursos e ações xenófobas, racistas, sexistas, lgbtfóbicos; juízos de valores baseados em religiões fundamentalistas; rememoração das liturgias autoritárias, com seus golpes e barbaridades, faccionando a história; e, não menos importante, são guardiões dos interesses hegemônicos do capital, buscando aí se locupletarem.
Nesse caldo todo, é preciso atentar: os pós-fascistas têm inclinações para a limpeza partidária. Nenhuma espécie de debate político racional, crítico ou matizado deve, então, ser concebida. Arraigados às máquinas de poder que tentam controlar, a velha limpeza étnica do nazifascismo cede lugar, no arcabouço impolítico, às estratégias de limpeza partidária. Exemplo: quando Bolsonaro, então candidato à presidência, em plena campanha, no ano 2018, disse: “vamos fuzilar a petralhada”, referindo-se ao Partido dos Trabalhadores – PT, um sinal concreto das inclinações da limpeza partidária é avistado. Ser ovacionado por tal fala concerne à profundidade cotidiana e aceitação do ideário da limpeza partidária.
De Moa do Katendê à Marielle Franco; de Marcelo Arruda e Benedito Cardoso dos Santos, ambos assassinados por bolsonaristas, até a deputada estadual mineira Andréia de Jesus – ameaçada recentemente de morte, com termos tais como: “Seus dias estão contados e seu fim é questão de tempo. Muito pouco tempo. Marielle te espera. Ustra vive. Selva!” – não se trata de casos fortuitos, exceções minguadas ou efeito colateral de radicalidade política; pior ainda, como se se tratasse de polarização. Não existe polarização, pois não há outra/s parte/s atuando da mesma forma que os pós-fascistas.
O pós-fascismo brasileiro tem no bolsonarismo o seu representante majoritário. Ele extrapolou a identificação com um indivíduo e se dissipou em formas de viver e de desejar extremamente aviltantes e violentas. E, desde o instante que os poderes públicos passaram a ver com normalidade as discursividades de ameaças de morte, ignorando tal gravidade, sem imediatamente impedi-las, a fragilidade de demonstração da presença das regras e das leis de Estado, como disse, favoreceu a tênia do pós-fascismo.
Na limpeza partidária, violência, intolerância, ameaça, linchamento moral e mortes compõem a vilania de seu modo de atuação. Isso vem se avolumando na rotina brasileira, sem alterar o curso abominável da representatividade pós-fascista. E o mais grave: de ameaça a ameaça, de morte a morte, a tênia se agiganta e a desorientação democrática se vê bestializada, não sabendo mais como fazer para impedir a parasitose pós-fascista.
O sonho de um golpe consumado é a solução final ansiada para a consagração da limpeza partidária. Note-se bem: não é acabar com todos os partidos, como nos regimes totalitários clássicos, mas aniquilar com todos aqueles que não ressoam o hino da adesão pós-fascista. Não são apenas partidos que giram em torno da órbita da limpeza partidária, sempre no módulo impolítico, são também cidadãos comuns. E na banalização da limpeza partidária, os divergentes do pós-fascismo também precisam ser extirpados: jornalistas, intelectuais, professores/as, pesquisadores/as, líderes comunitários, militantes, povos originários etc. Não é crime contra a humanidade que antevemos, porém, a morte da própria democracia. Desde aí, é muito mais fácil qualquer crime contra a humanidade.
Combater a limpeza partidária é urgente. Para tanto, precisamos começar a melhor calibrar a nomeação do que ocorre no Brasil. Do contrário, seguiremos a repetir vocábulos cansados, sem compreender bem o que se passa. Não estamos perante atos de violência, intolerância ou mal-entendidos. Somos atravessados pela invenção delirante de inimigos que precisam ser combatidos e extirpados para dar passagem à banda pós-fascista. No imaginário coletivo deste rebanho, o outro-partidário não pode existir; só devem existir pessoas que deveriam ser como “nós”, e cujo crime é não o serem.
Nestas eleições, não estão em jogo apenas votos em candidatos/as XYZ, mas um verdadeiro ato de cessação dos avanços pós-fascistas no Brasil, bem como a afirmação da política democrática e de Estado de direito. O voto também pode ser um vermífugo contra a tênia pós-fascista, com sua limpeza partidária.
Alexandre Filordi – Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIFESP e do Departamento de Educação da UFLA. Coordenador do GT de Filosofia da Educação– ANPEd – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO.
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Jane
19 de setembro de 2022 9:13 pmComo é interessante pensar no papel dos intelectuais, dos autores que como você fizeram o combate contra as trevas por aqui…seguindo suas angústias e sua consciência. Parabéns pela excelência do texto. A força de cada palavra, escrita nesses últimos anos, ajudou a todos nós a manter a saúde mental. Certamente muitas palavras que não imaginamos utilizar .