A Polícia Federal (PF), em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), o Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal, desmantelou nesta quarta-feira (17) um esquema bilionário de corrupção e exploração ilegal de minérios em Minas Gerais. A Operação Rejeito cumpriu 22 mandados de prisão preventiva e 79 de busca e apreensão, envolvendo empresários, servidores públicos e órgãos ambientais.

A investigação aponta para um conglomerado com mais de 40 empresas que operavam com licenças questionáveis e pagamentos de propina, causando danos ambientais graves ao estado.
O esquema tem ligação direta com a Operação Poeira Vermelha, de 2020, revelando sua continuidade e sofisticação ao longo dos últimos cinco anos, já que suas principais empresas como Fleurs Global Mineração, Mineração Gute Sicht e Minerar Participações continuaram operando mesmo diante de decisões judiciais contrarias e multas.
O núcleo financeiro do esquema: Fleurs Global Mineração
A investigação atual mostra que Fleurs Global Mineração funcionava como núcleo financeiro do grupo, movimentando R$ 4,3 bilhões entre 2019 e 2024, usados para sustentar aquisições, pagamentos e a cadeia de empresas que operacionalizavam as lavras.
Na Operação Poeira Vermelha, a PF investigou mineração ilegal e usurpação de bens da União no munícipio mineiro de Nova Lima, entre outros locais, especialmente por extração ilegal de minério de ferro sem autorização ambiental, dissimulada como terraplanagem. A Fleurs era uma das empresas envolvidas e a Justiça Federal, por meio da operação, suspendeu suas atividades de beneficiamento.
Contudo, mesmo com processos e impugnações, ao menos parte do conglomerado obteve autorizações formais para operar, por meio de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) acumulados pela Fleurs. Em agosto de 2024, o Governo de Minas, por meio do Conselho de Política Ambiental (Copam), chegou a conceder uma licença ambiental de seis anos que autorizava a Fleurs a atuar na região da Serra do Curral, próxima à bacia do Rio das Velhas.
A ação gerou reação da sociedade civil e do próprio Ministério Público pela proximidade com áreas protegidas e riscos de impacto ambiental. Contudo, só em janeiro desde ano, a Justiça Federal determinou a suspensão imediata das atividades da Fleurs, juntamente com outra empresa chave – a Mineração Gute Sicht – por “novos fatos apresentados pela PF”.
A gênese do esquema: Mineração Gute Sicht
Desde 2020, os relatórios da PF e decisões judiciais já descreviam o uso de certidões e licenças de natureza diversa como instrumentos para camuflar extrações de minério sem o licenciamento adequado, uma prática detectada sobretudo na atuação inicial da Mineração Gute Sicht, na Serra do Curral, uma área tombada de Nova Lima.
A organização é considerada a empresa original do esquema, usada nas primeiras operações irregulares. Em 2022, a Gute Sicht extraía minério de ferro na região mesmo após impedir fiscalizações e ser interditada pela Prefeitura de Belo Horizonte, acumulando 18 infrações e mais de R$ 1,2 milhão em multas em apenas um mês.
Já em 2023, as atividades Gute Sicht foi abandonada, após o Supremo Tribunal Federal (STF) cassar suas licenças. A ação trouxe novos riscos a Serra do Curral, já que encostas desabaram e rombos foram ampliados, causando ameaça a espécies endêmicas.
A persistência do esquema também levou a destruição de uma caverna pela Patrimônio Mineração em Ouro Preto, empresa que nega relação direta com a Gute Sicht e a Fleurs Global Mineração, mas é suspeita de pagar R$ 500 mil em propina para licenciamento. A cavidade, não prevista nos estudos, teve um impacto irreversível, segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM).
A consolidação do conglomerado: Minerar Participações e holdings
Já a Minerar Participações consolidava o esquema, controlando os principais projetos minerários bilionários. A empresa funcionava como “guarda-chuva” para dezenas de empreendimentos irregulares. Isso porque a estrutura de holdings permitia a migração de ativos e a aparente “limpeza” de operações nos balanços, tornando mais difícil rastrear proprietários finais e fluxos de caixa. Além disso, possibilitava transferir direitos minerários, dividir responsabilidades e “diluir” a visibilidade das operações em documentos oficiais.
Após a Poeira Vermelha, o grupo criou 21 novas empresas entre novembro de 2020 e maio de 2022, fortalecendo sua rede e diversificando operações, incluindo projetos como:
- AIGA Mineração: exploração de rejeitos no valor de R$ 200 milhões, prejudicando a Vale.
- Projetos HG, Prisma e Rancho do Boi: núcleo bilionário com potencial de R$ 17,3 bilhões e lucro líquido estimado de R$ 9,54 bilhões.
Estima-se que as ações criminosas do grupo geraram um lucro de R$ 1,5 bilhão. Contudo, o dano ambiental estimado à União supera R$ 18,2 bilhões, segundo a investigação.
Quem são os alvos e como se relacionam às empresas
Entre os presos preventivamente, nesta quarta, estão:
- Alan Cavalcante do Nascimento: chefe do grupo, sócio majoritário da Fleurs Global e atuante na Gute Sicht.
- Helder Adriano de Freitas: sócio de Alan, responsável por licenciamento e operação das empresas.
- João Alberto Paixão Lages: sócio, participante de projetos bilionários.
- Guilherme Santana Lopes: ex-diretor da Agência Nacional de Mineração (ANM), envolvido em decisões favoráveis a empresas do grupo.
- Caio Mário Trivelatto Seabra Filho: diretor da ANM, suspeito de receber R$ 3 milhões em propina.
Servidores públicos afastados:
- Fernando Baliani da Silva (FEAM – Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas)
- Breno Esteves Lasmar (IEF – Instituto Estadual de Florestas)
- Fernando Benício de Oliveira Paula (Copam – Conselho de Política Ambiental)
Todos teriam sido corrompidos para facilitar licenciamento irregular e tramitação de processos em favor das empresas.
Linha do tempo: da Poeira Vermelha à Rejeito
2020 – Operação Poeira Vermelha
- A Polícia Federal deflagra a ação contra fraudes em licenciamento mineral em Minas Gerais.
- Empresas ligadas à Mineração Gute Sicht já aparecem no inquérito, com suspeitas de extração ilegal na Serra do Curral.
- Investigações apontam o envolvimento de empresários como Alan Cavalcante do Nascimento e Helder Adriano de Freitas, mas as medidas de punição foram limitadas.
- O grupo começa a diversificar suas operações, criando empresas de fachada para diluir responsabilidades.
2021–2023 – Reestruturação e expansão
- O núcleo empresarial migra parte das operações para outras companhias, como a Minerar Participações, que passa a controlar os maiores projetos.
- A Fleurs Global Mineração assume papel central como braço financeiro, movimentando recursos e viabilizando pagamentos de propina.
- Segundo a PF, servidores de órgãos ambientais estaduais passam a receber “mesadas” para liberar licenças.
- Nesse período, o grupo amplia seu alcance: mais de 40 empresas são incorporadas à rede criminosa.
2024 – Autorização polêmica
- Apesar do histórico de denúncias, o governo de Minas Gerais concede à Fleurs Global Mineração uma licença ambiental de seis anos para atuar novamente na Serra do Curral.
- A decisão gera forte reação de ambientalistas e moradores locais, mas a mineradora retoma operações perto da bacia do Rio das Velhas.
- Essa autorização é hoje usada pela PF como exemplo da infiltração do grupo nos órgãos reguladores.
2025 – Operação Rejeito
- A PF, em ação conjunta com CGU, MPF e Receita Federal, deflagra a maior ofensiva já registrada contra o setor de mineração irregular.
- São 22 prisões temporárias e 79 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, com bloqueio de R$ 1,5 bilhão em bens.
- Entre os presos, estão o diretor da ANM, Caio Mario Seabra, e o delegado federal Rodrigo de Melo Teixeira, revelando a profundidade da corrupção.
- O grupo é acusado de fraudes sistemáticas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e exploração ilegal em áreas de preservação.
Com informações do Estado de Minas
grevista
17 de setembro de 2025 5:05 pmAté agora, só bagre. Falta gente nesse processo. Muitos!
https://manuelzao.ufmg.br/porta-giratoria-tamisa-e-a-disputa-pela-serra-do-curral/
https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2022/05/04/diretoria-da-mineradora-que-quer-explorar-serra-do-curral-e-a-mesma-de-empresa-que-construiu-viaduto-que-desabou-em-bh.ghtml
https://manuelzao.ufmg.br/pagamento-de-r-5-milhoes-da-tamisa-a-consultoria-juridica-gera-suspeita-de-esquema-de-propina/
Fábio de Oliveira Ribeiro
17 de setembro de 2025 6:14 pmA direita transforma o Brasil num país de merda. Não que ele tenha sido um país muito melhor no passado. Nem mesmo os governos do PT deixaram de merdalizar o Brasil para que os vagabundos de sempre ganhassem mais alguns dólares. O que Lula e Dilma Rousseff poderiam ter feito de diferente?
Fábio
17 de setembro de 2025 11:04 pm“Será que é só eu que bebo? Será que é só eu que estou bebendo?” Os entendedores entenderão.