10 de junho de 2026

As mentiras e a sinceridade de Trump, por Petronio Portella Filho

Cazuza dizia que mentiras sinceras lhe interessam — tal é o caso dos extremista. Eles precisam de mentiras para viver no mundo paralelo.
Foto de Gage Skidmore - Wikimedia Commons

Trump revelou cinicamente que a operação militar na Venezuela visava controlar o petróleo do país.
A intervenção americana não derrubou Maduro nem causou guerra civil, e enfrenta desaprovação interna.
Especialistas veem Trump como chefe mafioso, não defensor da democracia, expondo a hipocrisia dos EUA.

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As mentiras e a sinceridade de Trump

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por Petronio Portella Filho

Fiquei  preocupado com a operação militar na Venezuela e, mais ainda, com as ameaças veladas de Trump a países desobedientes (e democráticos) como Colômbia, México e Dinamarca/Groenlândia.

O único detalhe positivo do evento foi a sinceridade do Proto-imperador em suas declarações após o sequestro de Maduro. Trump, de tão empolgado, esqueceu que estava fingindo combater o narcotráfico e defender a democracia. Ele tirou a máscara de benfeitor e se exibiu como é. Egocêntrico, inescrupuloso e despreparado.

Trump comemorou prematuramente o roubo do petróleo da Venezuela a despeito de não ter conseguido ainda a mudança de regime. E declarou que vai comandar o país, como se tivesse feito a aquisição hostil de uma empresa.

A sinceridade de Trump, talvez fruto do entusiasmo, é importante. Cazuza dizia que mentiras sinceras lhe interessam — tal é o caso dos extremista. Eles precisam de mentiras para viver no mundo paralelo.

As chances do Proto-imperador tomar o petróleo seriam maiores se ele tivesse mentido no discurso da “vitória militar”. Trump foi cínico e tirou o pouco verniz civilizatório da agressão militar.

Um discurso do tipo “sou um defensor da liberdade dos venezuelanos e inimigo dos traficantes” teria soado muito melhor do que “sou um ladrão de petróleo e quem manda na Venezuela sou eu”.

A intervenção americana não foi concluída. A Venezuela não foi ocupada, nem um governo fantoche tomou o poder. Os ianques tampouco conseguiram enfiar o país em guerra civil, o resultado típico de suas intervenções militares.

A mudança de regime vai demandar tempo e dinheiro. Ela precisa ser “vendida” nos EUA e na Venezuela. A venda da intervenção militar ficou mais difícil após o sincericídio de Trump.

Senão, vejamos. Várias pesquisas de opinião mostraram que os americanos desaprovam a guerra contra a Venezuela. Trump, após a vitória militar (que confessou ter como objetivo o petróleo), ameaçou realizar várias outras intervenções militares. Sendo 2026 um ano de eleições legislativas, os senadores e deputados irão apoiá-lo?

Os militares venezuelanos devem ter ficado indignados com o cinismo de Trump. Maria Corina e demais extremistas defensores de Trump foram desmoralizados. Os jornais estão criticando mais do que aplaudindo a operação militar americana.

Segundo Jeffrey Sachs, a imprensa não discute as intervenções americanas, ela faz “relações públicas” delas. Os jornais demonizam os líderes dos países invadidos e colocam os americanos no papel de justiceiros. Mas a sinceridade de Trump tornou quase impossível alegar intenções nobres para a operação militar.

O Nobel de Economia Paul Krugman escreveu que a operação militar americana não seguiu o figurino da doutrina Monroe: “Trump não estava buscando uma mudança de regime, pelo menos não de forma fundamental. Ele é mais como um chefe da máfia tentando expandir seu território…”

A grande contribuição do governo Trump-2 está sendo tirar a máscara de justiceiro do tio Sam. Para o bem ou para o mal, Donald Trump acabou de vez com a grande hipocrisia americana.

Petronio Portella Filho é economista formado na UnB, com mestrado na Universidade de Minnesota e doutorado na Unicamp. Consultor concursado do Senado Federal, é autor dos livros A Moratória Soberana, Os Sapatos do Espantalho e Mentiras que Contam Sobre a Economia Brasileira.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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