10 de junho de 2026

Estabilidade Financeira diante da Conjuntura Internacional, por Fernando N. da Costa

O SFN mantém níveis suficientes de capital e liquidez, diante um cenário de incertezas. Resulta de uma baixa exposição a riscos externos.
Louise Ganz

O Sistema Financeiro Nacional mantém capital e liquidez seguros, mesmo com incertezas externas e desaceleração econômica.
Relatório do Banco Central aponta gestão prudente e baixa exposição externa como fatores da resiliência do sistema bancário.
Adicional Contracíclico de Capital permanece em 0%, indicando preparo para riscos de crédito e estabilidade financeira atual.

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Estabilidade Financeira diante da Conjuntura Internacional

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por Fernando Nogueira da Costa

O Sistema Financeiro Nacional (SFN) mantém níveis seguros de capital e liquidez frente a cenários de estresse, apesar de um ambiente externo incerto e da desaceleração econômica doméstica. Este é o diagnóstico do último Relatório de Estabilidade Financeira (REF), postado em novembro de 2025, uma publicação semestral do Banco Central do Brasil (BCB) na qual detalha o desempenho e a resiliência do sistema bancário.

Entre os temas centrais, o relatório aborda a qualidade do crédito, o aumento de ativos problemáticos em setores específicos e a manutenção da taxa de capital contracíclica em 0%. Além disso, a análise explora tendências emergentes, como a adoção de inteligência artificial, os riscos de segurança cibernética e os impactos de fenômenos climáticos na economia. Defende a eficácia das medidas prudenciais adotadas pelo comitê regulador.

O SFN mantém níveis suficientes de capital e liquidez, diante um cenário de incertezas. Resulta de uma combinação de gestão prudente, rentabilidade resiliente e baixa exposição a riscos externos.

O Sistema Bancário Brasileiro (SBB) mantém índices de capitalização adequados para sustentar o funcionamento da intermediação financeira. O principal instrumento para a expansão da base de capital tem sido a retenção de lucros pelas instituições. Além disso, o sistema dispõe de margem de capital suficiente para cumprir requisitos prudenciais e continuar expandindo a oferta de crédito, mesmo com a implementação de normas regulatórias mais restritivas.

As instituições financeiras mantêm ativos líquidos suficientes para absorver potenciais perdas e honrar compromissos, inclusive em cenários de estresse. A gestão de liquidez é considerada adequada e conservadora, com os principais bancos apresentando indicadores muito acima do mínimo exigido.

O SFN apresenta uma estrutura de capital e captações de prazos mais longos (estrutura de funding) sem amplos descasamentos de vencimento entre ativos e passivos. Demonstra resiliência estrutural ao otimizar retornos, garantindo liquidez suficiente para cumprir compromissos futuros, mitigando riscos de taxa de juros, inflação e mercado.

O ALM (Asset Liability Management) ou Gestão de Ativos e Passivos é uma prática de gerenciamento de riscos capaz de alinhar os ativos (investimentos) e passivos (obrigações) de uma instituição. O objetivo é gerenciar o risco de descasamento entre os rendimentos (prefixados ou pós-fixados) e os prazos dos ativos e as obrigações diante os indexadores do passivo, comum em fundos de pensão e bancos. 

Descasamentos de duration ocorrem quando os prazos médios de recebimento (ativos) e pagamento (passivos) de uma carteira não coincidem, gerando risco de taxa de juros. Se a duration [“duração”] do ativo for diferente da do passivo, variações nas taxas de juros impactam desigualmente os valores e geram perdas.

Por exemplo, se os juros fixados pelo Banco Central do Brasil sobem e aumentam o custo de captação de passivos pós-fixados (tipo CDB com 100% CDI), os títulos com duration longa (e juros prefixados) caem mais de preço diante os de duration curta.

A tesouraria de bancos, na gestão da carteira de títulos própria, age como os demais investidores em títulos de dívida pública e ajustam a duration para antecipar movimentos de juros. Reduzem a duration se esperam alta, aumentam se esperam queda. Os bancos são os maiores credores do Tesouro Nacional e detém quase 1/3 do total da dívida interna.

A vulnerabilidade do SFN a flutuações financeiras globais é baixa, devido à reduzida exposição cambial e à pequena dependência de captação de recursos no exterior (funding externo). O pagamento da maior parte da dívida pública externa e o acúmulo de reservas com superávit comercial estrutural, nos governos do Partido dos Trabalhadores, solucionou o problema histórico de crises cambiais do país.

Diante da desaceleração econômica, com a elevada taxa de juro impedindo a alavancagem financeira por as despesas financeiras superarem os retornos operacionais das empresas produtivas, as instituições financeiras reduziram “o apetite ao risco” – leia-se: ficaram mais rigorosos na avaliação do risco de crédito. O BCB demonstra satisfação com uma melhora na qualidade das novas concessões de crédito em diversas modalidades.

Os testes de estresse, realizados pelo Banco Central, confirmam o SBB possuir capitalização e liquidez adequadas para enfrentar choques. Mesmo no cenário simulado mais severo, de “crise de confiança”, a necessidade de capital adicional para o sistema é considerada baixa e atesta sua capacidade de absorção de perdas.

A decisão do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) de manter o Adicional Contracíclico de Capital Principal (ACCPBrasil) em 0% baseia-se em considerar o SFN preparado para enfrentar a materialização do risco de crédito. Provisões, capital e liquidez estão em níveis adequados.

Risco de crédito é a possibilidade de perda financeira de um credor (banco, empresa ou investidor) quando um tomador não cumpre com suas obrigações contratuais, como o não pagamento (“calote”) de um empréstimo ou título. Ele está presente em vendas a prazo, financiamentos e investimentos, sendo mitigado por análises de crédito, garantias e diversificação.

Risco de mercado é a possibilidade de perdas financeiras em investimentos, devido à oscilação nos preços de ativos, taxas de juros, câmbio ou commodities. Ele afeta carteiras de ações, títulos de dívida pública e direta (debêntures) e moedas, sendo influenciado por fatores macroeconômicos e volatilidade. A diversificação é uma estratégia comum para mitigar esse risco.

Quando o crescimento do crédito se desacelera, tanto no sistema bancário quanto no mercado de capitais, aproxima-se da sua tendência de longo prazo. O hiato de crédito amplo reverte a trajetória de alta observada anteriormente.

O hiato de crédito amplo/PIB é definido como a diferença entre a razão crédito amplo/PIB para o setor privado não financeiro e sua tendência de longo prazo O hiato do produto é, costumeiramente, analisado em conjunto. Refere-se à diferença entre o nível atual de atividade econômica/crédito e seu nível potencial ou tendência de longo prazo.

No contexto brasileiro, o hiato do produto permanece positivo, isto é, acima do potencial. Já o crédito mostra desaceleração ou aversão ao risco restritiva.

Embora existam projeções de elevação do hiato de crédito, no médio prazo, o Banco Central e o Comitê de Basileia não recomendam o uso mecânico desta métrica. O desenvolvimento recente do mercado de capitais no Brasil pode potencializar o hiato, tornando sua função de sinalização um problema técnico.

O BCB  costuma não contrariar a “expectativa do mercado”. Pesquisas realizadas com as próprias instituições financeiras (PEF) indicavam: cerca de 90% delas esperavam e recomendavam a manutenção da taxa do ACCP em 0%.

O Comef decidiu então seu nível atual ser apropriado, considerando as condições financeiras, os preços dos ativos e as expectativas para o mercado de crédito. Faz permanente acompanhamento dos riscos fiscais e do cenário internacional.

O Adicional Contracíclico de Capital Principal (ACCP) é um componente da regulação prudencial baseada em Basileia III, desenhado para aumentar a resiliência bancária durante expansões de crédito. Recomenda acumular capital em períodos de crescimento excessivo de crédito, para os bancos serem capazes de absorver perdas em momentos de desaceleração, evitando a “prociclicidade”, isto é, frear o crédito quando a economia mais precisa.

A regulação prudencial é um conjunto de normas aplicadas pelo BCB e conselhos reguladores para garantir a solidez e a estabilidade de instituições financeiras. Ela exige capitais mínimos e gestão de riscos para proteger depositantes e o sistema financeiro, com regras proporcionais ao porte e ao risco da entidade.

Na atual conjuntura, embora haja um aumento de ativos problemáticos em setores específicos, como o crédito rural e micro/pequenas empresas, a percepção é de as provisões constituídas estarem compatíveis com as perdas esperadas. O sistema possui “colchões” de capital e liquidez suficientes para absorver esses impactos sem a necessidade de elevar o adicional contracíclico no momento.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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