16 de junho de 2026

A bomba do fim do mundo explode no colo do Brasil, por Gustavo Tapioca

Pautas-bomba acalentadas por Davi Alcolumbre já são criticadas até pela mídia corporativa, sinal que o senador passou do razoável.
Davi Alcolumbre e Flávio Bolsonaro em foto de Geraldo Magela/Agência Senado

Senado aprovou pautas-bomba lideradas por Davi Alcolumbre, com impacto fiscal estimado em mais de R$ 200 bilhões.
Medidas pressionam governo Lula, que enfrenta dilema entre sancionar ou vetar propostas que afetam governabilidade.
Denúncia contra Alcolumbre surge em meio à ofensiva, elevando tensão política e risco de crise entre Poderes.

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A bomba do fim do mundo explode no colo do Brasil 

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As pautas-bomba impulsionadas por Davi Alcolumbre podem gerar mais de R$ 200 bilhões em novos gastos, tentam encurralar o governo Lula, interferem no processo eleitoral e despertam alertas que unem a GloboNews, editoriais da grande imprensa e parte significativa da mídia liberal. 

por Gustavo Tapioca 

A pauta do fim do mundo 

Quando uma comentarista da GloboNews chama uma proposta de “pauta do fim do mundo”, um editorial de O Globo fala em irresponsabilidade fiscal e um ministro do Supremo alerta para despesas sem fonte de custeio, vale a pena prestar atenção. 

Foi exatamente isso que aconteceu após a aprovação, no Senado, de um conjunto de medidas lideradas por Davi Alcolumbre e que, segundo estimativas amplamente divulgadas, podem produzir impacto superior a R$ 200 bilhões nas contas públicas. 

A controvérsia já ultrapassou os limites da disputa entre governo e oposição e transformou-se numa discussão sobre poder, responsabilidade fiscal e governabilidade. 

A conta não é de Alcolumbre 

O principal projeto aprovado pelo Senado permite utilizar receitas do pré-sal para financiar descontos e renegociações de dívidas do setor rural. Seu impacto pode alcançar R$ 140 bilhões ao longo da próxima década. 

Outras propostas ampliam pisos salariais e criam despesas permanentes sem fontes claras de financiamento. Somadas, podem representar mais de R$ 200 bilhões em novos compromissos para os cofres públicos. 

O problema é simples. 

Quem aprova essas medidas não paga a conta. 

Quem paga é o país. 

Lula encurralado 

A força política da manobra está justamente aí. 

Alcolumbre coloca Lula diante de uma escolha difícil. 

Se sanciona as medidas, assume o risco de ampliar o desequilíbrio fiscal. 

Se veta, compra uma guerra política com setores influentes do agronegócio, corporações organizadas e a maioria parlamentar que aprovou os projetos. 

O Senado aprova. 

O governo assume o desgaste. 

É por isso que a chamada pauta do fim do mundo não ameaça apenas as contas públicas. 

Ela afeta diretamente a governabilidade. 

O homem que virou dono da bola 

Uma análise publicada pela revista Veja descreveu Alcolumbre como um verdadeiro “dono da bola” do sistema político brasileiro. 

A metáfora ajuda a entender o momento. 

No futebol de rua, o dono da bola não precisa ser o melhor jogador. Basta ter o poder de interromper a partida, impor condições ou decidir quem continua jogando. 

Em Brasília, a lógica parece semelhante. 

Alcolumbre controla a pauta do Senado, influencia a agenda do Congresso e tornou-se peça central das negociações mais importantes da República. 

A pauta-bomba, nesse contexto, deixa de ser apenas uma decisão econômica. 

Transforma-se numa demonstração de poder. 

A outra bomba 

Enquanto conduzia a ofensiva das pautas-bomba no Senado, Davi Alcolumbre passou a enfrentar uma crise própria. 

Reportagem da revista Veja revelou que Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria afirmado em proposta de delação que repassou milhões de dólares ao presidente do Senado por meio de uma conta no exterior. 

Alcolumbre negou integralmente a acusação, anunciou medidas judiciais e exigiu a apresentação de provas. 

Até o momento, não existem provas públicas conhecidas que confirmem a denúncia. 

Mas o episódio produziu um efeito político imediato. 

Pela primeira vez em muito tempo, o homem apontado por analistas como o “dono da bola” passou a atuar também na defensiva. 

Coincidência ou não, a denúncia surgiu exatamente quando Alcolumbre acumulava vitórias no Congresso e impunha derrotas sucessivas ao governo. 

A pergunta que começou a circular em Brasília não é jurídica. 

É política. 

O presidente do Senado está demonstrando força ou reagindo à percepção de que seu poder começou a ser desafiado? 

O país como refém 

A crítica mais contundente veio do jurista Roberto Tardelli. 

Ao comentar a ofensiva legislativa liderada por Alcolumbre, Tardelli afirmou que o presidente do Senado estaria tentando colocar “o país inteiro como refém”. 

A frase é dura. 

Mas ajuda a explicar por que a controvérsia ultrapassou os limites do debate fiscal. 

A questão já não é apenas quanto custarão as propostas aprovadas pelo Senado. 

A questão é saber se instrumentos legítimos do processo legislativo estão sendo utilizados para enfrentar problemas nacionais ou para ampliar o poder de pressão de grupos políticos em disputa com o governo. 

A reação do governo 

Diante do avanço das pautas-bomba, integrantes da equipe econômica passaram a defender uma reação institucional baseada nas próprias regras de responsabilidade fiscal. 

Segundo declarações reproduzidas pela Agência Brasil, o governo considera recorrer ao Supremo Tribunal Federal caso o Congresso aprove despesas sem indicar fontes compatíveis de financiamento. 

Na mesma direção, Gilmar Mendes lembrou que o Legislativo não pode criar gastos sem apontar como serão financiados. 

Caso a disputa chegue ao STF, a chamada pauta do fim do mundo ganhará uma nova dimensão. 

Deixará de ser apenas uma crise fiscal. 

Passará a ser também uma crise entre Poderes. 

A sombra de 2026 

Seria ingenuidade imaginar que a disputa em torno das pautas-bomba ocorre num vazio político. 

O Brasil já vive o ambiente da campanha presidencial de 2026. As pesquisas mais recentes continuam apontando Lula na liderança, enquanto Flávio Bolsonaro tenta consolidar sua posição como principal herdeiro eleitoral do bolsonarismo após a condenação e prisão de Jair Bolsonaro. 

Nesse cenário, cada derrota imposta ao governo ganha dimensão eleitoral. Cada crise fiscal, cada conflito institucional e cada dificuldade de governabilidade passa a ser interpretada também à luz da sucessão presidencial. 

Isso significa que a pauta do fim do mundo foi concebida para interferir na eleição? 

Não há elementos para afirmar isso. 

Mas também é difícil ignorar que medidas capazes de atingir a economia, as contas públicas e a capacidade de governar acabam produzindo consequências políticas. 

Talvez seja cedo para saber quem vencerá a disputa de 2026. 

Mas já é possível identificar quem pagará a conta se a lógica da destruição prevalecer sobre a lógica da responsabilidade. 

Não será Lula. 

Não será Alcolumbre. 

Não será Flávio Bolsonaro. 

Será o Brasil. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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