Série Piauí Cultura Regional (28)
Dona Da Luz: Tesouro Musical do Sertão do Piauí que Quer Brilhar
Cantadeira é referência entre mulheres do interior de Picos
por Eduardo Pontin
Dona Da Luz (Maria Luz Alves de Brito, 12/12/1964 – ) é fonte de inspiração para jovens mulheres do interior de Picos e região. Isso porque, na roda de Lezeira, atua como cantadeira decidida, comprovando na prática que, nesta brincadeira, a mulher está em igualdade com o homem, algo raro em nossas manifestações culturais. De forma destemida, Da Luz surge na roda de Lezeira com desembaraço e se impõe com sua presença e seu talento. Por isso, muitas adolescentes hoje se espelham nela na hora de brincar. Tudo o que Dona Da Luz mais quer é prosseguir com o repasse de seus saberes para outras meninas, mas, para isso, antes de tudo, ainda luta para ter uma vida digna.
Quando em janeiro de 2023 estive na Comunidade Boa Vista para gravar com estúdio profissional itinerante a dança da Lezeira acontecendo, Dona Da Luz me chamou muito a atenção. Os brincantes estavam meio encabulados com aquela equipe vinda de Teresina e de São Paulo, com uma parafernália de equipamentos operados por Zé Dantas e com Roberto Sabóia colocando os microfones de lapela em seus corpos. Pra que tudo aquilo?

O produtor Zé Dantas operando estúdio itinerante | Foto: Francisca Sousa
De onde vinha mesmo essa gente tão interessada na Lezeira? Uma brincadeira que sempre precisou apenas de terreiro, cantadores e dançantes para acontecer, agora tinha que ter tudo isso?
A comunidade ia chegando cada vez mais em peso, o camelô vendia cerveja adoidado, a resenha corria solta, e nada de a dança começar.

O camelô armou sua barraca de variedades na comunidade pra abastecer os brincantes | Foto: Francisca Sousa
Os cantadores mais experientes ficavam de canto, apoucados com aquele cenário incomum para todos ali. Eis que, de uma hora para outra, surgiu a figura de uma mulher batendo palmas e ordenando a todos que se juntassem. Em pouco tempo uma enorme roda se formou e então uma voz que parecia vir do centro da Terra subiu junto com a poeira do terreiro.
Era Dona Da Luz, que sem titubear, puxou a centenária cantiga do “Cajueiro Abalô”, que atravessou cantadores de Coco documentados por Mário de Andrade na década de 1920 no Rio Grande do Norte; brincantes de Ciranda em Limoeiro, Pernambuco, registrados pelo Padre Jaime Diniz nos anos 1960; gravação de Genival Lacerda em 1963; cantadores de Lezeira do início século 20 até chegar na voz de Dona Da Luz.

Dona Da Luz abalô enfrentando Lezeira | Foto: Francisca Sousa
Uma escolha ousada para aquela noite. Isso porque, trata-se de uma cantiga intercalada por quadras de versos. E Dona Da Luz, sem engasgar uma só vez, foi sapecando o seu repertório de estrofes construído ao longo de toda uma vida. Com canto firme, decidido, não errou uma só vez.
Lavradora aposentada, a cantadeira demonstrava em seu canto a mesma convicção e a mesma firmeza com que encarou os obstáculos na criação de sua família plantando e colhendo o feijão da roça, debaixo de sol escaldante. Mas sem medo, conhecendo os seus objetivos e encarando a tudo e a todos para conquistá-los.
Naquela roda de Lezeira, após encerrar o seu repertório pessoal de quadras, graciosamente disse a outro cantador: “Tó, pode tomá, cansei”. E a brincadeira prosseguiu sem parar, na mais bela roda de Lezeira que já presenciei em toda minha vida. Porém, se não fosse a iniciativa de Da Luz, dificilmente as coisas tinham acontecido da maneira mágica como aconteceram.

Lezeira da Comunidade Boa Vista | Foto: Francisca Sousa
Da série discográfica “Lezeira do Sertão do Piauí”, lançada em 2024 nas plataformas digitais e junto com o livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”, esse momento que descrevo acima acabou se tornando a única faixa em que uma mulher sola de ponta a ponta uma cantiga. Ouçam com atenção esse tesouro escondido da fonografia brasileira:
Pouco depois, encontrei Dona Da Luz no Quilombo Mutamba, onde tinha ido brincar uma Lezeira na Semana Santa a convite do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Dona Da Luz estava tão reluzente que sua força interior iluminou a todos. Tanto que, das centenas de fotos tiradas em mais de 2 anos de pesquisa com a jornalista Francisca Sousa sobre a Lezeira, justamente uma foto de Dona Da Luz foi a escolhida para dar vida a capa da já citada obra “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”, reconhecida pelo Concurso Sílvio Romero organizado pelo IPHAN e indicada ao Prêmio Jabuti em 2025.
Nos lançamentos, a capa era sempre muito bem elogiada, e o conjunto gestual de Dona Da Luz muito contribuía para isso. Seu rosto não aparece, mas seu corpo está inteiramente presente no passo da dança: o encaixe perfeito do seu braço no cavalheiro; sua saia rodando simetricamente e seus pés, descalços, tocando o terreiro, deram o toque que traduz com exatidão a dança da Lezeira do sertão do Piauí.

Zé Melin e Dona Da Luz na capa do livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira” | Foto: Francisca Sousa
Eu e Francisca tivemos a felicidade de levar Dona Da Luz e o grupo Lezeira da Comunidade Boa Vista para realizar o lançamento no SESC Parnaíba, quando fizemos uma fala sobre o livro seguida de apresentação deles. Como que numa tradição, Dona Da Luz foi quem fez a abertura da Lezeira naquela noite, entoando o “Cajueiro” mais uma vez.
O grupo realizou oficina e fez duas apresentações aos parnaibanos, encantando a população local, que passou a seguir a programação para acompanhá-lo. No dia derradeiro, como a marcar a sua presença no litoral piauiense, a Lezeira da Comunidade Boa Vista decidiu dançar uma roda de Lezeira na beira da praia, se despedindo daquela paisagem paradisíaca. Foi a primeira e única vez que todos do grupo viram o mar.

Dona Da Luz roda Lezeira com os pés na areia da praia | Foto: Francisca Sousa
Dona Da Luz leva uma vida pacata no interior de Picos, no Povoado Angical. Participa ativamente da vida cultural de sua região, onde é mestra reconhecida de rezas de incelenças, bem como de São Gonçalo. Mas é na Lezeira que Da Luz reluz e inspira mulheres de todas as idades, que vêm nela uma referência na roda, seja dançando, cantando ou orientando.

Mulheres se sentem à vontade pra aprender com Mestra Da Luz | Foto: Francisca Sousa
E é nesse ritmo que Da Luz vai levando, ensinando na prática a juventude para que, no futuro, a Lezeira prossiga sendo praticada e não caía no esquecimento. Dona de sua própria luz, o que ela quer mesmo é apenas ser reconhecida como Mestra de cultura, para que possa levar enfim uma vida mais digna em sua aposentadoria. Dona Da Luz é um tesouro musical escondido Brasil adentro à espera de um incentivo para brilhar.

Dona Da Luz pisa firme no terreiro | Foto: Francisca Sousa
Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário