As convenções partidárias marcam o momento em que a eleição deixa os bastidores
por Elias Tavares
Há um momento em toda eleição em que a política deixa de ser especulação e passa a ser realidade institucional. Esse momento começa nesta segunda-feira (20), com a abertura do período das convenções partidárias.
Muita gente enxerga as convenções apenas como um rito burocrático, uma exigência da Justiça Eleitoral para homologar candidaturas. Na minha avaliação, porém, elas representam muito mais do que isso. São o marco em que as eleições de 2026 passam a existir oficialmente.
Até aqui, acompanhamos meses de articulações, reuniões reservadas, pesquisas eleitorais, construção de narrativas e movimentos estratégicos. Tudo isso fez parte da pré-campanha. A partir de agora, o jogo muda de natureza.
As convenções, que poderão ser realizadas até o dia 5 de agosto, oficializam os candidatos escolhidos pelos partidos e consolidam as primeiras alianças nacionais e estaduais. É quando a disputa sai dos bastidores para ganhar contornos formais perante o eleitor.
Mas é importante desfazer uma percepção comum: a convenção não encerra as negociações políticas. Muito pelo contrário.
É justamente após esse momento que muitas das conversas mais importantes acontecem. A legislação permite que, respeitadas as deliberações partidárias, determinadas definições sejam concluídas antes do registro das candidaturas, cujo prazo termina em 15 de agosto. Isso explica por que, mesmo com candidatos homologados, ainda veremos intensas negociações sobre a composição das chapas.
E é exatamente aí que entra uma figura que, historicamente, costuma ser subestimada: o candidato a vice.
Durante muito tempo, a escolha do vice era tratada quase como uma formalidade. Hoje, ela representa uma das decisões mais estratégicas de qualquer campanha presidencial. O vice deixou de ser apenas um substituto eventual do titular para se transformar em instrumento de articulação política, ampliação de alianças, fortalecimento regional e sinalização ao mercado, aos partidos e ao próprio eleitor.
Não é coincidência que boa parte das especulações deste início de convenções esteja concentrada justamente nos nomes que poderão compor as chapas presidenciais. Mais do que buscar votos, os candidatos procuram construir governabilidade antes mesmo da eleição acontecer.
Outro aspecto interessante desta eleição é que os principais nomes que disputarão a Presidência já são amplamente conhecidos. Diferentemente de outros pleitos, em que as convenções serviam para revelar candidatos, desta vez elas tendem a revelar alianças. E, na política brasileira, muitas vezes as alianças dizem mais sobre um projeto do que os próprios discursos de campanha.
Após o encerramento das convenções, os partidos terão até 15 de agosto para registrar suas candidaturas na Justiça Eleitoral. No dia seguinte, 16 de agosto, começa oficialmente a campanha eleitoral. A partir daí, a disputa deixa definitivamente os bastidores e passa a ocupar as ruas, as redes sociais e, posteriormente, o horário eleitoral gratuito.
Costumo dizer que toda eleição possui um momento simbólico em que a corrida realmente começa. Para mim, esse momento não é o primeiro programa de televisão nem o primeiro debate. É o início das convenções partidárias.
É nelas que a política deixa de falar sobre possibilidades e começa a apresentar ao eleitor as escolhas que realmente pretende defender nas urnas.
Elias Tavares é cientista político, com pós-graduação em marketing eleitoral e formação em gestão de partidos políticos. Atua na análise do sistema político brasileiro, com ênfase em comunicação eleitoral, estrutura partidária e estratégias de campanha. Tem se dedicado à produção de conteúdo analítico sobre os desafios institucionais do país, o funcionamento do Congresso Nacional e o comportamento do eleitorado. Sua abordagem une rigor técnico, linguagem acessível e compromisso com o debate público qualificado.
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