1 de agosto de 2026

O preço político de deixar Luizianne de fora, por Sara Goes

Impasse em torno do apoio à candidatura de deputada ao Senado definirá mais do que composição da chapa liderada por Elmano no Ceará
Luizianne Lins, deputada federal (Rede -CE). Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Elmano de Freitas destacou o protagonismo feminino, mas Luizianne Lins ficou fora da chapa majoritária no Ceará.
Luizianne, ex-prefeita e deputada, simboliza disputa interna do PT e mobiliza militância além das estruturas partidárias.
A exclusão de Luizianne pode aprofundar a distância entre direção da coalizão e militância petista no Ceará.

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O preço político de deixar Luizianne de fora

Por Sara Goes

“Nós acreditamos nas mulheres nos espaços de decisão política, como vice, como Secretaria da Mulher, como Secretaria da Proteção Social. Não é para enfeitar cargo, não. É para tomar decisão.”

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A frase de Elmano de Freitas, pronunciada na convenção que oficializou sua candidatura à reeleição, sintetizou uma contradição que dominou o evento. Antes dela, o governador atropelou a ordem dos discursos para chamar Gabriella Aguiar ao palco. Em uma fala dirigida ao presidente Lula, a candidata a vice destacou Camilo Santana e Elmano como lideranças comprometidas com a participação das mulheres na política. Em seguida, Jade Romero foi chamada para reforçar a mesma mensagem.

A preocupação de Elmano de Freitas em desfazer a imagem de uma chapa formada majoritariamente por homens foi tão evidente ao chamar Jade Romero para reforçar o discurso sobre o protagonismo feminino, foi o próprio Elmano quem falou por ela.

Há algo de revelador nessa sequência. Antes mesmo de tornar pública qualquer decisão sobre Luizianne, a campanha já parecia empenhada em administrar seus efeitos. Como em um ato falho político, o esforço para negar o desgaste acabou tornando visível que ele já orientava o comportamento dos organizadores.

Tudo isso aconteceu diante de um Centro de Eventos ocupado por militantes que defendiam a candidatura de Luizianne Lins ao Senado. Naquele ambiente, a discussão já não era se havia mulheres ocupando cargos na chapa governista. A pergunta era outra: quais mulheres conseguem chegar aos principais espaços de poder e quais continuam sendo lembradas apenas quando não alteram os acordos internos.

A contradição ficou ainda mais evidente quando a vice-governadora Jade Romero foi questionada pelo jornalista Luciano Casqueiro sobre a composição da chapa e a possível candidatura de Luizianne ao Senado.

Sem recorrer ao discurso da indefinição, Jade respondeu:

“A Luizianne é um grande nome. Ela homologou sua candidatura ao Senado e a gente tem no estado do Ceará o nome de uma mulher forte, trabalhadora. Eu tenho certeza que, se chegar ao Senado, fará um grande trabalho. Eu tenho a minha torcida para que a gente possa ter mais mulheres na vida pública, seja na Assembleia Legislativa, seja na Câmara dos Deputados, seja no Senado. Estou torcendo muito também para que a Luizianne possa estar nessa caminhada junto conosco.”

A declaração possui um significado que ultrapassa a cordialidade entre duas figuras políticas. Partiu de uma das principais lideranças femininas da própria chapa governista. Jade poderia simplesmente ter evitado o assunto ou repetido que a decisão caberia à direção partidária. Fez o contrário. Reconheceu publicamente a força política de Luizianne e manifestou apoio à sua presença no Senado.

Sua fala também desmonta uma falsa oposição construída durante o debate. O conflito não está entre mulheres. Gabriella Aguiar não é adversária de Luizianne. Jade Romero tampouco.

Transformar Gabriella em demonstração pública de compromisso com as mulheres também reduz sua própria trajetória. Nenhuma mulher deve servir como álibi para decisões tomadas por homens, muito menos ser apresentada como argumento para neutralizar o questionamento de outra mulher. A escolha de uma candidata a vice não responde à exclusão de Luizianne da disputa pelo Senado. Ela apenas evidencia a diferença entre abrir espaço para mulheres em cargos importantes e aceitar que elas disputem posições capazes de alterar a distribuição real de poder.

O impasse em torno do apoio da base governista à candidatura de Luizianne ultrapassou os limites de uma negociação eleitoral. A decisão definirá mais do que a composição da chapa liderada por Elmano de Freitas. Ela colocará à prova a relação entre a direção política da coalizão e uma parcela importante da militância petista.

Existe uma expectativa pouco otimista de que Luizianne receba o apoio da base governista. Essa expectativa, porém, não nasce da defesa de um projeto pessoal. Luizianne representa a continuidade da esquerda cearense que, ao longo dos últimos vinte anos, perdeu espaço para uma lógica de coalizão iniciada durante a convivência com o grupo político de Ciro Gomes e que hoje evoluiu para outra forma de hegemonia interna: o camilismo.

Por isso, sua candidatura deixou de representar apenas uma vaga ao Senado. Ela passou a simbolizar uma disputa sobre a identidade da esquerda que ajudou a construir o PT no Ceará, mesmo depois de sua filiação à Rede Sustentabilidade.

Essa percepção ajuda a explicar por que Luizianne continua mobilizando pessoas muito além das estruturas partidárias. Sua força política não nasceu das negociações internas. Ela foi construída nas ruas. Em 2004, sua campanha para a Prefeitura de Fortaleza era representada por um Fusca vermelho e por bicicletas que cruzavam a cidade. O estilo simples virou motivo de descrédito entre adversários, que enxergavam naquela campanha uma candidatura sem estrutura para enfrentar as máquinas partidárias. Luizianne venceu. Em 2008, foi reeleita no primeiro turno. A campanha considerada pequena derrotou as grandes estruturas porque havia estabelecido uma relação direta com a população. Foi essa conexão que transformou Luizianne em uma das principais lideranças populares do campo progressista cearense.

O processo que levou a tentativa de isolamento de Luizianne começou ainda em seu segundo mandato como prefeita de Fortaleza, quando rompeu politicamente com o grupo do então governador Cid Gomes ao defender a autonomia da Prefeitura diante do Governo do Estado. A disputa consolidou-se em 2012, quando a aliança entre PT e PSB foi rompida após Luizianne lançar Elmano de Freitas, sim, ele, à Prefeitura de Fortaleza e Cid apoiar um apadrinhado cirista.

Nos anos seguintes, a correlação de forças interna mudou. A disputa pelos delegados dos encontros partidários reduziu progressivamente a influência de Luizianne nas instâncias de decisão e na definição das candidaturas. O que estava em curso não era apenas o enfraquecimento de uma liderança, mas o deslocamento do próprio petismo de esquerda para as margens do partido. Luizianne tornou-se o principal alvo desse processo porque continuava sendo sua principal expressão política. O paradoxo é que o PT permaneceu com a mesma sigla, o mesmo número e a mesma estrela, mas sua bússola passou a apontar para outro lugar.

É por isso que as palavras do presidente Lula, em abril deste ano, tiveram um peso político tão grande. Ao afirmar que Luizianne “teve tudo o que quis no PT” e que, na política, é preciso fazer sacrifícios para construir alianças, o presidente acabou reforçando uma leitura que desconsidera uma sequência de episódios vividos pela deputada nos últimos anos. Em 2023, sua assessoria denunciou que ela foi impedida de subir ao palco durante uma agenda presidencial em Fortaleza. Em 2024, retirou sua pré-candidatura à Prefeitura em nome da unidade partidária em torno de um recém filiado e, meses depois, precisou evitar participar de nova agenda presidencial para não se submeter ao tratamento recebido na visita anterior. Em 2026, mesmo representando a Câmara dos Deputados, a bancada feminina, o Poder Legislativo e presidindo a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher no lançamento do Pacto Brasil contra o Feminicídio, novamente não foi chamada ao palco nem teve direito à fala.

No dia seguinte à entrevista do Presidente Lula, Luizianne anunciou sua saída do PT após mais de quatro décadas de filiação, preservando seu apoio à reeleição do presidente e do governador Elmano de Freitas.

É nesse contexto que o sacrifício das mulheres na política deixa de ser um episódio isolado e passa a funcionar como uma mensagem: para os homens, um exemplo de atuação; para as mulheres, um aviso sobre os limites impostos a quem disputa os espaços centrais de poder. A questão não é quem também perde espaço na política, mas quem é chamado a transformar a própria renúncia em demonstração de compromisso com o coletivo.

A política cearense conhece essa história desde Maria Luiza Fontenele. Primeira mulher eleita prefeita de uma capital brasileira, rompeu uma barreira histórica, mas enfrentou isolamento político depois de chegar ao poder. Décadas mais tarde, Izolda Cela tornou-se a primeira mulher a governar o Ceará e também foi descartada pelo mesmo grupo político que consolidou uma corrente dominante e oculta dentro do Partido dos Trabalhadores. Uma corrente que não aparece nos estatutos nem nas executivas, mas se manifesta na definição das alianças, das candidaturas e de quem pode ou não ocupar os principais espaços de poder.

Maria Luiza Fontenele, Izolda Cela, Jade Romero e Luizianne Lins pertencem a momentos diferentes da política cearense.  Ainda assim, seus nomes aparecem reunidos em uma mesma discussão. Não porque tenham trajetórias idênticas, mas porque revelam uma permanência: mulheres são valorizadas quando ocupam posições importantes, mas encontram muito mais resistência quando disputam os espaços centrais de poder.

Durante a convenção, Elmano afirmou acreditar nas mulheres “nos espaços de decisão política”, lembrando que elas não ocupam secretarias e vice-governadorias “para enfeitar”. Enquanto o discurso celebrava o protagonismo feminino, Luizianne permanece até agora fora da chapa majoritária e sequer era mencionada nas referências às mulheres que compõem o projeto governista.

Sua candidatura vai existir com ou sem o aval do grupo político liderado por Camilo Santana. O apoio da base governista, entretanto, faz diferença. Uma chapa que incorpora Luizianne amplia sua capacidade de mobilização e sinaliza unidade. Uma chapa que a deixa à margem transmite a imagem de que a principal liderança feminina da esquerda petista no Ceará perdeu espaço dentro da própria coalizão.

Camilo Santana assumiu, ao longo dos últimos anos, a condição de principal articulador do governismo cearense. Com essa posição veio também a responsabilidade pelas escolhas estratégicas da aliança. Se Luizianne chegar ao Senado com o apoio da base, o governo preservará uma de suas principais lideranças e fortalecerá sua capacidade de diálogo com a militância. Se chegar apesar das resistências, ficará demonstrado que sua força política não depende do aval do camilismo.

Se sua candidatura for enfraquecida e essa decisão produzir desgaste para a chapa governista, a responsabilidade política não recairá sobre Luizianne. Recairá sobre quem decidiu transformá-la em um problema.

O preço político de deixar Luizianne de fora pode ser maior do que a perda de uma vaga ao Senado. Pode aprofundar a distância entre a direção da coalizão e a militância que construiu a história do PT no Ceará. Elmano pode até vencer a eleição no primeiro turno.

Ainda assim, o PT corre o risco de sair politicamente menor se enfraquecer uma liderança que continua mobilizando pessoas para além das fronteiras partidárias. Nesse cenário, a maior derrota não será de Luizianne. Será de quem, tendo condições de ampliar a unidade do campo governista, optou por colocá-la à prova.

Sara Goes é jornalista e âncora da TV 247 e TV Atitude Popular. Nordestina antes de brasileira, mãe e militante, escreve ensaios que misturam experiência íntima e crítica social, sempre com atenção às formas de captura emocional e guerra informacional. Atua também em projetos de comunicação popular, soberania digital e formação política. Editora do site <código aberto>.

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