A construção dos inimigos na “campanha anti-argentina”: a ficção que convém ao governo Milei
por Maíra Vasconcelos
Especial para Jornal GGN
As narrativas políticas de Estado estão mais entrelaçadas com a ficção do que se supõe. O escritor argentino Ricardo Piglia era um defensor dessa ideia, ao ter vivido algumas ditaduras na Argentina, percebeu as ficções entremeadas aos discursos políticos, que encobriram as repressões e torturas perpetradas pelo Estado. Se transferirmos essa ideia para os dias atuais de uma democracia autoritária e violenta, a ficção produzida pelo Estado argentino, com Javier Milei na presidência, poderia ser vista na grosseira distorção feita sobre a “campanha anti-argentina”, com a intenção de manter ativa a chamada batalha cultural. Uma agenda que engloba as ideias do livre mercado, do conservadorismo e radicalismo ideológicos de extrema-direita, a releitura de questões históricas e pautas anti-questões de gênero e imigração.
Segundo o governo Milei, os governos do Brasil, México, e os democratas dos Estados Unidos, em resumo, a esquerda internacional, está por trás da “campanha de ódio” contra o país, gestada após várias polêmicas envolvendo a seleção argentina no Mundial 2026. Com esse discurso conspiracionista, de que há um um plano orquestrado que financia uma campanha contra o país, e frente ao qual o governo argentino tem que se defender, Milei assinou um Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) que altera a Lei de Migração. Mesmo ciente de que geraria questionamentos constitucionais. Há apenas um mês, tentou uma reforma relativa à mesma norma de migração e foi barrado por inconstitucionalidade.
A partir da publicação do DNU no Diário Oficial, no último 31 de julho, está permitida a expulsão de estrangeiros e o cancelamento da residência, além do impedimento de ingresso ao país, daqueles estrangeiros que “incitem mensagens de ódio” contra a República Argentina. Em resumo, Milei distorceu a leitura de um fenômeno massivo internacional contra o país, após o Mundial, realmente carregado de ódio e até xenofobia, levou o acontecido para o campo da batalha cultural e o transformou em política pública com efeitos jurídicos concretos.
Para o politólogo argentino Alejandro Frenkel, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Buenos Aires (UBA), o governo Milei construiu essa ideia de que há inimigos internacionais contra a Argentina, porque percebeu que poderia se beneficiar politicamente com essa narrativa. Por exemplo, usando o episódio para atuar um nacionalismo exacerbado.
“Para de alguma maneira construir vilões e inimigos que sejam contrários à ideia da argentinidade. Também acho que o governo ficou em uma situação um pouco incômoda com o tema das Malvinas e os jogadores da Argentina. Então, saiu a atuar exageradamente um nacionalismo para compensar essa situação na qual foi tido como morno”, explicou Frenkel. O governo foi acusado de não ter sido suficientemente enfático ao defender o uso de bandeiras com incitação política nos estádios, durante o Mundial.
Governo cria narrativa para uso interno
Em busca de apoio interno, o governo Milei também tem usado como benefício político a recente crise diplomática entre Brasil e Argentina, após o presidente insultar Lula da Silva, qualificando-o como “ladrão” e “presidiário”, em um evento de campanha do candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL).
A leitura feita pelo governo é de que não há razões suficientes, ou as consequências não são tão graves, para que Milei chegue a frear suas atitudes, ou se ponderar, afirmou Frenkel. Mesmo que a situação diplomática entre os dois países seja a mais conflituosa, pelo menos desde as últimas três décadas, e que haja ineditismo no ato de convocar o embaixador da Argentina no Brasil para transmitir um comunicado.
“Tem mais a ver com construir uma narrativa de uso doméstico que está muito vinculada com isso da “campanha” contra a Argentina. Então, situar o Lula como parte dos atores internacionais dessa campanha é útil para Milei aglutinar apoio interno, para construir essa ideia de que nos estão atacando”, disse Frenkel.
O cientista político afirmou que para o governo argentino isso não é algo que tenha importância, manter boas relações com o governo brasileiro e nem sofrer esses tipos de sanções diplomáticas. O que Milei pretende é capitalizar apoio interno, em um momento em que está em baixa nas pesquisas de opinião. Também, segundo Frenkel, Milei acredita que pode interferir nas eleições do Brasil, em outubro, mas não somente.
“Ele acredita que pode influenciar diferentes processos políticos do mundo. Diria que é uma das grandes aspirações de Milei, transformar-se em uma espécie de influencer internacional”, comentou Frenkel.
Na Argentina atual, as situações de conflito internacional têm sido contornadas e reelaboradas fora da realidade dos fatos, postas em uma narrativa criada de acordo com a conveniência do governo, que pretende instalar uma agenda ultranacionalista e cultural discriminatória, por exemplo, em questões de gênero e anti-imigrantes, em sintonia com o trumpismo, a partir de um discurso violento e autoritário. Mas, não apenas no discurso, como ficou provado com o avanço jurídico do último decreto anti-imigração.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
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