Gaza como o paradigma do desenvolvimento
por Sandro Luiz Bazzanella, Cintia Neves Godoi e Jairo Marchesan
“Quem quiser pensar criticamente deve estar disposto a não colocar seus
interesses pessoais diante dos engajamentos necessários” (Vladimir Safatle)
“A alternativa que buscamos não pode ter como objetivo
reorganizar apenas a economia do sistema” (Nancy Fraser)
1. A trajetória etimológica da palavra (conceito) desenvolvimento aponta para uma dimensão propositiva em relação a certos fenômenos naturais observados, significados e nomeados pelos seres humanos ao longo de sua caminhada sobre a face da terra. Ato contínuo, a incorporação destas percepções positivas e propositivas advindas de fenômenos naturais foi remetida à ação, ao fazer humano e, assim constituiu-se como aspecto específico da concepção de mundo razoavelmente (não isento de contradições e imposições), disseminado na atualidade por comunidades, povos e países. Determinante na trajetória da palavra desenvolvimento é a incorporação de significações advindas de diferentes matrizes de pensamento que perpassam o processo civilizatório. Assim, da Grécia Antiga, especificamente do termo “physis” advém a ideia de força vital que permeia o ciclo de vida de todo ente que se apresenta na existência fática. Todos os objetos e seres vivos presentes no mundo participam deste impulso vital de se apresentar à existência em desenvolvimento de suas formas cumprindo seu ciclo existencial e, assim alcançando sua finalidade. A matriz judaico-cristã inseriu o termo desenvolvimento no âmbito de sua teologia oikonômica, como uma das dimensões da governamentalidade da vida biológica da pessoa humana criada à imagem e semelhança do criador. Assim, a oikonomia da salvação requer a crença na promessa do desenvolvimento humano em acordo e observância aos parâmetros do projeto da criação e, por decorrência alcance da felicidade eterna. A modernidade seculariza os pressupostos greco-romanos antigos e judaico-cristãos, afirmando a centralidade da economia na organização da vida de indivíduos e sociedades como condição necessária para a afirmação do progresso e do desenvolvimento. Não por acaso a questão do desenvolvimento encontra-se intimamente vinculada ao âmbito da economia política.
2. A partir do século XVI, historicamente se consolida um modo de produção e reprodução da vida de indivíduos, sociedades humanas e da vida natural nomeado de capitalismo. Em suas primeiras fases, a mercantil e a colonial liberal, o capitalismo implementou a “acumulação primitiva” (Marx) de capital, a partir de processos de expansão territorial sobre terras e exploração e expropriação de povos do continente americano, africano e asiático. Além de tomar territórios habitados milenarmente por povos originários nestes continentes, o capitalismo desencadeou (como parte de sua dinâmica) processos de roubo, extorsão e pilhagem de recursos naturais. Ato contínuo submeteu os povos originários às mais variadas formas de violência com o declarado intuito de aniquilar sua cosmovisão, seu modo de vida, suas tecnologias, suas formas de organização social, como estratégia de impor o trabalho escravo e, por decorrência a exploração e expropriação da riqueza produzida sob essa aviltante forma de trabalho. A acumulação primitiva exercida sobre os povos originários, mas também sobre os trabalhadores do campo expulsos das terras comunais em solo europeu foi determinante para a afirmação do capitalismo industrial. Neste contexto histórico, social, político e econômico, entre os séculos XVIII e XIX, a acumulação de capital, sobretudo nos países do centro do capitalismo se afirmará por um lado a partir da exploração do trabalho assalariado. Os trabalhadores vendem sua força de trabalho (vida) durante um determinado período de horas semanais, ou mensais produzindo mercadorias e prestando serviços para o capitalista detentor do capital, dos meios de produção. Em troca recebem um valor situado abstratamente na forma dinheiro definido pelo capital como supostamente suficiente para a manutenção de sua vida e de seus familiares. A riqueza excedente produzida pelo trabalhador no referido período e não remunerado pelo capitalista ao trabalhador é incorporado ao seu capital ou da empresa. A este processo Marx denominou de exploração do capital sobre o trabalho. Mas, para que o capital possa ter garantido a exploração do trabalho é preciso que se realize um conjunto de trabalhos de cuidado com a vida do trabalhador, de sua saúde, de seus familiares, crianças e idosos, entre outros trabalhos estratégicos fundamentais desta natureza, relegados, sobretudo às mulheres e que não será pago, simplesmente será expropriado. Também a expropriação do trabalho da natureza, de constante fornecimento de matérias primas, de regeneração dos mananciais de água potável, de ar respirável, de florestas viçosas, dos solos, entre outras tantos processos de regeneração do ambiente realizado pela natureza, não será respeitado, muito menos remunerado, será expropriado e acumulado sem custos pelo capital. A expropriação do trabalho humano, da vida não para por aí. Os povos colonizados e concebidos pela visão de mundo ocidental e capitalista como racialmente inferiores serão intensamente violentados e expropriados em suas energias vitais, em seus recursos materiais necessários a proporcionar às garantias do regime de acumulação de capital. Disto resulta que o capitalismo não se apresenta apenas como um regime econômico, mas, sobretudo como um modo de produção de mercadorias, de seres humanos conformados por esta lógica de plena produção e consumo, bem como de um modo de reprodução da vida humana e natural assentado na constante exploração e expropriação das forças vitais em função da necessidade de expansão e da acumulação do capital.
3. A partir do século XIX às primeiras décadas do século XXI em que estamos inseridos apresenta-se um capitalismo monopolista, imperialista, globalizante e neoliberal administrado pelo Estado. As disputas entre estados europeus imperialistas sobre a partilha da África e de parte da Ásia, como estratégia de intensificar a exploração de matérias primas, do trabalho, bem com a expropriação de vida de comunidades e povos colonizados em função das necessidades de expansão e acumulação do capital levaram a Europa a Primeira Guerra (1914-1918) e a Segunda Guerra (1939-1945) (nomeados por eles como Mundial). Assim, a fase imperialista do capitalismo de fins do século XIX, às primeiras décadas do século XX observaram a agressividade da expansão do capital conduzida pelos ditos Estados modernos desenvolvidos, majoritariamente localizados na Europa Ocidental e, com participação direta ou indireta dos Estados Unidos, na partilha de comunidades e povos africanos e asiáticos. O economista e historiador do desenvolvimento Gilbert Rist demonstra em seu livro “El desarrollo: historia de una creencia occidental” (2022) de que forma no âmbito da Sociedade das Nações (instituição precursora da ONU pós Segunda Guerra) apresentaram-se argumentos de orientação racial que justificaram a intervenção e a constituição de colônias de exploração e expropriação de comunidades e povos considerados inferiores, desprovidos de características civilizatórias consistentes. Assim, tratava-se para os Estados colonizadores europeus de levar aos povos colonizados as conquistas científicas e técnicas alcançadas pelo ocidente “desenvolvido”, bem como levar as formas políticas, sociais, econômicas e culturais fundamentais para o desenvolvimento humano, de povos e países. Assim, a finalidade moral que justificava os processos de exploração do trabalho, dos recursos naturais, bem como a expropriação da vida humana e natural impostos aos colonizados implicava na benévola ação do colonizador desenvolvido de retirá-los da barbárie em que se encontravam – que mais adiante serão considerados como subdesenvolvidos e elevá-los a condição de povos desenvolvidos e civilizados.
4. Porém, com as duas guerras europeias o capitalismo ficou nu. Despiu-se de suas vestes, de seus disfarces e pretensões civilizatórias e se apresentou em toda sua brutalidade e voracidade em diversas frentes. Como um animal assustado, encurralado, novamente, expôs ao mundo à sua face mais perversa, violenta, senão monstruosa, assentada na crença no progresso e no desenvolvimento. A barbárie humana e natural perpetrada por estes conflitos não é resultado da regressão das sociedades humanas, de seus sistemas políticos. Pelo contrário, é manifestação das apostas no progresso financiado pela lógica de acumulação de capital assentada na exploração e na expropriação dos seres humanos e da natureza. A barbárie da Primeira e da Segunda Guerra ocorridas em solo europeu é decorrente do paradoxo da crença do progresso, do desenvolvimento, pautado numa das máximas: sem destruição não há possibilidade de progresso. É constitutivo do logos do progresso reiteradamente promover destruição, aniquilação e morte como justificativa de sua existência. Os avanços da ciência e da técnica moderna foram determinantes para a fabricação de armas de destruição utilizadas largamente em massa nos campos de batalha, culminando nas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos em 6 e 9 de agosto de 1945 sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki incinerando diretamente milhares de vidas de civis. Os conhecimentos científicos nas áreas da administração, das ciências contábeis, de cálculo, de estatística, da engenharia de produção, entre outros permitiram que o alto funcionário nazista Adolf Heichman coordenasse a logística e o transporte de mais de 6 milhões de judeus para as fábricas da morte (os campos de concentração) entre os anos de 1942 a 1945 em meio ao esforço de guerra conduzido pelos nazistas. Os avanços nos conhecimentos científicos das ciências naturais, da biologia, da química, da física, bem como das ciências da saúde permitiram que o nazismo se apropriasse dos violentos e desumanos experimentos raciais promovidos pela acumulação de capital conduzida pelo capitalismo sobre os povos colonizados e os usasse em solo europeu, nos campos de concentração para experimentos com os corpos humanos e, sobretudo para o extermínio das raças indesejadas, ou consideradas inferiores e, portanto sem o direito de existirem num mundo higienizado e racialmente projetado pela ciência e pela técnica nazista. Ressalte-se ainda, que foi sob a lógica do progresso científico, técnico e econômico que sistemas bancários, fundos financeiros, corporações industriais, entre outros grupos colaboraram intensamente com os esforços de guerra fascista e nazista. Cabe destacar que as ciências humanas, Geografia, Antropologia, Filosofia também participaram da construção do pensamento de superioridade dos povos do Norte para dinamizar projetos de dominação que culminaram nas guerras e na continuidade da violência nos períodos que se sucederam. Assim, sob a lógica do Estado gerencial e garantidor da lógica do regime de acumulação de capital em seus pressupostos científicos, técnicos e raciais que se justificaram e promoveram profundas e traumáticas experiências de destruição e morte que revitalizaram a dinâmica do capital no pós Segunda Guerra europeia, ou melhor, no pós Segunda Guerra do Capital, demarcando hegemonicamente as formas de organização política, econômica e social das décadas seguintes aos dias de hoje.
5. A trajetória do capitalismo e de seu regime de acumulação de capital está intimamente vinculada à produção de constantes e/ou sistemáticos genocídios. Sob este pressuposto, é possível considerar que o extermínio dos povos originários, racializados, decretados inferiores em relação a dita civilização europeia ocidental e seus asseclas – em relação comparativa ao estágio de progresso e desenvolvimento dos povos colonizadores – estava e está decretado no fundamento ontológico do capital, em seu ethos, em seu modo de ser demarcado pela constante promoção da violência e da destruição para posterior acumulação. Portanto, o genocídio dos palestinos da Faixa de Gaza, promovido pelo Estado sionista e neocolonial de Israel é a continuidade da lógica – de exploração do trabalho humano e de expropriação do trabalho e da vida humana e natural – constitutiva do capitalismo desde seus primeiros movimentos de acumulação primitiva. Porém, na atual fase do capitalismo financeirizado, global e de agenda neoliberal as formas de exploração do trabalho e de expropriação da reprodução social continuam a se apresentar intensas e agressivas. Ou seja, diante das inúmeras crises em curso, que são crises do modelo explorador capitalista, sejam elas denominadas sejam elas: a crise ecológica, a crise econômica, a crise política, a crise de refugiados econômicos e ambientais, a crise dos modos de subjetivação e, que incidem sobre as condições de possibilidade da reprodução do capital, servem para estabelecer regimes de governabilidade de indivíduos e populações em estado permanente de crise. Tal condição permite que o Estado (e aos governos assumirem as demandas administrativas, políticas e jurídicas) capturado e a serviço do regime de acumulação financeirizado neoliberal governe em permanente estado de exceção. O estado de exceção se caracteriza pela suspensão do ordenamento jurídico, dos direitos humanos e sociais, bem como das garantias legais de manutenção da vida de contingentes inteiros de seres humanos indesejáveis as exigências do regime de acumulação de capital. Os indesejáveis são indivíduos e populações supostamente fracassadas, não integráveis às demandas de plena produção e consumo sob as quais se estabelecem as bases econômicas e sociais em curso. Os indesejáveis são indivíduos e populações incapazes, ou que resistem a integrarem-se à lógica do endividamento, da produção e do consumo inerente a lógica hegemônica da economia neoliberal financeirizada. Os indesejáveis são denominados raças inferiores, povos que buscam sua soberania e seu modo de se organizar na sociedade, ou povos que se mantém vinculados às suas ancestralidades, aos antigos costumes comunitários, tradições, formas de relação humana, de relação com a vida natural, bem como de concepção de mundo advindos de antepassados e, que se contrapõe visceralmente aos imperativos do dito desenvolvimento “generosamente” oferecido pelo capitalismo financeirizado neoliberal.
6. A forma de governo que se impõe sobre estes povos indesejáveis e, neste caso trata-se especificamente dos palestinos da Faixa de Gaza é a promoção da guerra de extermínio, de genocídio à revelida dos tratados internacionais, do direito internacional, da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU de 1948, ou até mesmo de apelos humanitários de matrizes religiosas. Trata-se de genocídio dos palestinos da Faixa de Gaza perpetrado pelo Estado sionista de Israel com apoio dos Estados Unidos, com a conivência de chefes de governo, de lideranças políticas, corporativas, religiosas de circunscrição mundial, que fingem não ver, ou que não pretendem se comprometer com a aniquilação de crianças, mulheres, homens e idosos, enfim, dos palestinos habitantes da Faixa de Gaza. O Estado de Israel promove cotidianamente e, com requintes de crueldade, o extermínio deliberado, sistemático e planejado de um grupo étnico, de uma cultura, de uma visão de mundo há tempos aviltada, violentada em seus direitos com a instauração arbitrária, autoritária e neocolonial do Estado de Israelense em terras que milenarmente foram e são ocupadas pelo povo palestino. Sob tais prerrogativas, a Faixa de Gaza é o paradigma do desenvolvimento das sociedades contemporâneas. É o paradigma de governo, de gestão, de governança neoliberal financeirizada sobre indivíduos, comunidades, populações, movimentos sociais, ou mesmo, sobre todo um povo que ousar resistir à lógica do regime de acumulação de capital afiançada e garantida pelo terrorismo de Estado. Ou seja, o regime de governo que se impõe sobre a vida a partir do exercício do poder soberano, a partir da égide do capitalismo financeirizado global de matriz neoliberal é o direito de matar e/o deixar sobreviver os povos racializados, classificados como refugos humanos, como vidas nuas, descartáveis por representarem entraves às demandas do desenvolvimento da acumulação de capital. Não é por acaso que no mês de fevereiro de 2025, Donald Trump presidente dos Estados Unidos propôs transformar Gaza, após Israel concluir a limpeza étnica dos palestinos residentes em uma área de resorts de luxo uma , “Riviera do Oriente Médio. Ou dito de outro modo, trata-se para a lógica terrorista do capital e seus asseclas de levar o “desenvolvimento” para a Faixa de Gaza. Basta remover os milhares de corpos de palestinos assassinados brutalmente, os escombros de suas casas em que muitos desses corpos encontram-se sepultados e iniciar os trabalhos de terraplanagem e instalar os resorts. Aqui se torna oportuno relembrar a célebre tese IX de Walter Benjamin, que compõe o texto de sua autoria intitulado: “sobre o conceito de história”, que transcrevemos na íntegra. “Existe um quadro Klee intitulado “Angelus Novus”. Nele está representado um anjo, que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem de parecer assim. Ele tem seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar dos mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sobre uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que nós chamamos de progresso é essa tempestade. (Benjamin)”.
7. A transitividade propositiva das promessas do progresso ao longo dos séculos, bem como da ideologia do desenvolvimento na atualidade se assentam sobre a sistemática violência do capital que historicamente se abateu sobre povos e culturas racializadas, consideradas inferiorizadas na periferia do sistema capitalista, mas também sobre os corpos dos trabalhadores em geral, sobre a vida humana e natural promovendo, exploração, destruição e morte. A expansão do capital consome de forma implacável a vida, se alimenta diuturnamente de corpos humanos e bens naturais. A máquina do desenvolvimento é bipolar, inclui e exclui a vida, afirma e retira direitos humanos, direitos sociais, senão o próprio direito à vida. Reconhece a concentração da riqueza socialmente produzida, bem como a miséria de amplos contingentes de população mundial, mas os abandona à morte por fome, desnutrição, ou mesmo promove sua execução por meio de conflitos e uso de aprimorado arsenal militar desenvolvido para a morte. Reconhece os limites da natureza na manutenção da vida na terra, mas intensifica a exploração de recursos naturais, bem como promove a sociedade da plena produção e do pleno consumo de bens descartáveis. É sob estes pressupostos que Gaza é o paradigma do desenvolvimento das sociedades contemporâneas. Por estas e outras razões, diante da trajetória histórica, política e econômica deste atroz “modelo” de desenvolvimento ocidental, será que ainda é possível continuar a apresentá-lo ou mantê-lo como suposto meio ou maneira para dizer que vai qualificar a vida da sociedade atual e futura? A tarefa urgente e inadiável que o tempo presente requer é a paralisação da máquina capitalista do desenvolvimento. Quem sabe assim a vida poderá ter uma chance.
Sandro Luiz Bazzanella – Professor e Pesquisador em Filosofia
Cintia Neves Godoi – Professora e Pesquisadora em Geografia
Jairo Marchesan – Professor Pesquisador em Geografia
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