9 de outubro de 2026

Além da Transição Verde: Respostas do Sul Global à Crise Ambiental, por Renato Peneluppi

Como o Sul Global pode transformar a transição verde em uma oportunidade de desenvolvimento, autonomia tecnológica e melhoria de vida
Imagem gerada por Gemini IA

O livro reúne pesquisadores da China e América Latina para debater cooperação verde e desenvolvimento sustentável no Sul Global.
Aborda a transição verde como oportunidade de autonomia tecnológica, inovação e redução das desigualdades, além de proteção ambiental.
Destaca a cooperação China-América Latina em energia limpa, governança climática e finanças verdes para enfrentar a crise ambiental.

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Além da Transição Verde: Cooperação China–América Latina e as Respostas do Sul Global à Crise Ambiental

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por Renato Peneluppi

Cooperação China-América Latina para o Desenvolvimento Verde: Oportunidades e Desafios, organizado por Guo Cunhai, pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais, e Márcio Pochmann, economista brasileiro e presidente do IBGE, reúne pesquisadores chineses e latino-americanos para discutir uma questão que ultrapassa a dimensão ambiental: como os países do Sul Global podem transformar a transição verde em uma oportunidade de desenvolvimento, autonomia tecnológica e melhoria das condições de vida. A própria composição da obra, que reúne contribuições da China, Brasil, Colômbia e outros países latino-americanos, expressa essa perspectiva de diálogo e produção conjunta de conhecimento.

O livro ganha especial relevância quando situado no contexto do Acordo de Paris. Embora o acordo reconheça as necessidades específicas dos países em desenvolvimento e estabeleça mecanismos de financiamento, transferência de tecnologia e capacitação, sua implementação revelou um problema mais amplo: a transição climática precisa ser compatível com as necessidades de desenvolvimento, industrialização, geração de empregos e redução das desigualdades. É nesse espaço que a obra se insere. Em vez de tratar os países em desenvolvimento apenas como receptores de tecnologia, financiamento ou metas ambientais, ela apresenta a cooperação Sul–Sul como possibilidade de construção de capacidades próprias, articulando desenvolvimento verde, inovação, industrialização e soberania tecnológica.

Essa perspectiva também dialoga com a concepção chinesa de civilização ecológica (生态文明) e com a conhecida formulação de Xi Jinping de que “Águas límpidas e montanhas verdejantes são ativos inestimáveis” (绿水青山就是金山银山). Mais do que uma preocupação com a proteção ambiental, a civilização ecológica propõe integrar desenvolvimento econômico, conservação dos recursos naturais e melhoria das condições de vida em uma concepção mais ampla de desenvolvimento sustentável.

A ideia de que águas límpidas e montanhas verdes são ativos valiosos expressa justamente essa tentativa de superar a oposição entre crescimento econômico e proteção ambiental, reconhecendo o valor econômico, social e ecológico dos recursos naturais. Nesse sentido, o livro coloca essa experiência em diálogo com as condições latino-americanas, não como um modelo a ser simplesmente reproduzido, mas como uma possibilidade de aprendizagem mútua e construção de caminhos próprios para o desenvolvimento verde.

Ao longo dos capítulos, essa proposta vai ganhando forma a partir de diferentes perspectivas e experiências de cooperação. Zhu Xufeng e Li Yuanbo iniciam a discussão relacionando o desenvolvimento sustentável na América Latina e no Caribe à Agenda 2030 e às possibilidades de cooperação com a China. Douglas de Castro amplia o debate ao examinar a dimensão verde da Iniciativa do Cinturão e Rota, enquanto Xing Wei situa a cooperação no âmbito da Iniciativa de Desenvolvimento Global. Esses capítulos estabelecem o quadro político e institucional da cooperação.

A dimensão da governança climática é aprofundada por Zhang Rui e Li Xiaoyu, que analisam a cooperação sino-latino-americana diante dos desafios climáticos. Gao Ge e Lin Yue deslocam o debate para a energia limpa, mostrando um dos principais campos concretos da transição verde. Em seguida, Marco A. Cabero Z. destaca a construção de uma cultura científica orientada à inovação e ao desenvolvimento sustentável, introduzindo uma dimensão fundamental: a capacidade de produzir e adaptar conhecimento.

Os capítulos sobre Colômbia e Brasil tornam essa discussão concreta. José Gabriel Pérez Canencio, Mary Luz Ojeda Solarte e Jorge Enrique Guevara Bejarano analisam o desenvolvimento verde colombiano a partir de políticas públicas, governança climática e cooperação internacional. Leila da Costa Ferreira, Fabiana Barbi Seleguim e Niklas Weins discutem a governança multinível das mudanças climáticas no Brasil, mostrando como diferentes escalas de governo participam da resposta ambiental.

A relação Brasil–China ganha maior centralidade nos capítulos finais. João Cumarú examina o papel da China na transição energética brasileira, enquanto Wang Ning, Zhang Hongfu e Guo Peiyuan discutem as perspectivas de cooperação em finanças verdes. A sequência dos capítulos ajuda a acompanhar esse percurso de forma clara: o debate parte da agenda global e avança para questões de governança, energia e ciência, chegando às experiências nacionais e aos instrumentos financeiros que podem dar sustentação concreta à transição verde.

Assim, os capítulos não aparecem como contribuições isoladas, mas como partes de uma mesma questão: quais condições permitem aos países do Sul Global enfrentar a crise ambiental sem transformar a transição verde em uma nova fonte de dependência? A resposta construída ao longo da obra passa por cooperação tecnológica, ciência, financiamento, energia limpa, governança, formação de capacidades e transformação produtiva.

Nesse sentido, a relação China–América Latina funciona como uma importante ilustração de como o Sul Global pode participar ativamente da construção de respostas à crise ambiental, combinando capacidades chinesas em tecnologia, indústria e financiamento com recursos, conhecimentos, instituições e necessidades latino-americanas. A cooperação deixa, portanto, de ser entendida apenas como transferência de soluções e passa a ser concebida como espaço de produção conjunta de conhecimento, capacidades e alternativas de desenvolvimento.

A importância do livro está justamente nessa mudança de perspectiva. A crise ambiental não é apresentada apenas como um problema de emissões a serem reduzidas, mas como uma questão que envolve desenvolvimento, desigualdade, tecnologia, emprego, financiamento e qualidade de vida. Essa abordagem converge com a atual formulação chinesa de uma transição verde centrada nas pessoas e na cooperação Sul–Sul. Em 2025, Xi Jinping voltou a defender que a transição verde deve equilibrar proteção ambiental, crescimento econômico, criação de empregos e redução da pobreza, com tecnologias verdes acessíveis especialmente aos países em desenvolvimento.

A principal contribuição da obra, nesse sentido, está em mostrar que a proteção do meio ambiente pode caminhar junto com a melhoria das condições de vida das populações, especialmente nos países do Sul Global. Para os países do Sul Global, enfrentar a crise climática exige construir condições para que a transição ambiental também produza desenvolvimento, conhecimento, trabalho, renda, inovação e autonomia. É nesse sentido que a cooperação China–América Latina apresentada no livro pode ser compreendida como uma resposta construída a partir do próprio Sul Global: não uma simples adaptação de modelos externos, mas uma tentativa de produzir, por meio da cooperação, caminhos próprios para enfrentar a crise ambiental.

J. Renato Peneluppi Jr. – Doutor e Mestre em Administração Pública Chinesa na HUST (华中科技大学), com especialidade em políticas de desenvolvimento energético e transição energética na China (2018). Pesquisador Associado na Boston University (2017-2018). Pesquisador Visitante na Universidade de Oslo – REMIX e CICERO (2016). Lecionou na China-EU ICARE (Institute for Clean and Renewable Energy) (2012). Possui Especialização em Educação Ambiente COEDUCA – UNICAMP (2009).

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