12 de outubro de 2026

Oscar Nassif e a construção da cidadania, por Luís Nassif

Deixou para os filhos esse senso comunitário, o respeito ao próximo, o amor à sua terra e a tarefa de ajudar na construção da solidariedade.

Sindicato dos Servidores de Poços de Caldas inaugurou a Biblioteca Oscar Nassif com livros doados pelo autor.
Seu Oscar, farmacêutico, ajudou crianças e moradores carentes, promovendo inclusão social na cidade.
Participou de movimentos comunitários e jornalismo local, deixando legado de solidariedade e cidadania.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Sábado foi um momento emocionante para mim. À noite, o Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Poços de Caldas inaugurou a Biblioteca Oscar Nassif, com livros que doei para a entidade. No evento, apareceram velhos companheiros do GGN e alguns personagens simbólicos da cidade, como Tita, Roberto Tereziano e Hugo Pontes, que têm procurado manter viva a história de uma Poços que já não existe. E ousaria dizer: de um país que já se foi.

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Seu velho amigo Lindolpho Carvalho Dias me disse certa vez que, com dez anos de idade, Oscar era argentino. Com dez anos e um dia, tornou-se mineiro. E um mineiro apaixonado por sua cidade.

Como lembrou Tita, na Farmácia Central ninguém saía de mãos vazias. Se não houvesse recursos para o remédio, podia comprar e pagar quando pudesse. E, se não pudesse, tudo bem.

Curiosamente, essa extraordinária generosidade não era comentada em casa. Fui recolhendo essas histórias ao longo da vida, das mais diversas maneiras. No Palace Hotel, o antigo enfermeiro, depois responsável por limpar as piscinas e conhecedor da história da cidade, contou-me um dos episódios.

No Natal, a farmácia vendia brinquedos. Ele parou em frente à vitrine e ficou olhando, quando foi abordado por Seu Oscar.

— E aí, compadre, não vai levar nada?

Ele explicou que não tinha dinheiro. E Seu Oscar informou que, no Natal, brinquedo era produto de primeira necessidade: que ele escolhesse o que quisesse e pagasse quando pudesse.

Quando comecei com meu blog, dois leitores colocaram nos comentários depoimentos sobre Seu Oscar.

Um deles era um empresário bem-sucedido na cidade. Contou que era menino de rua. Ele e o irmão costumavam passar em frente à farmácia, a caminho de algum bico. Um dia, foram abordados por Seu Oscar, que perguntou o que faziam. Quando soube que apenas faziam bicos, convidou-os a trabalhar na farmácia, lavando os vidros da manipulação dos remédios.

Foram. Na hora do almoço, os empregados se revezavam para ir almoçar em casa, e os meninos ficavam na farmácia. Meu pai indagou a razão. Responderam que não havia comida em casa. A partir daí, passaram a almoçar com meu pai, em nossa casa. Não testemunhei o episódio porque, àquela altura, já estava estudando fora ou começando a trabalhar em São Paulo.

Graças a isso, dizia-me o rapaz, perceberam que não havia barreiras sociais que não pudessem superar. Quebraram um dos grandes obstáculos — as barreiras sociais — e puderam ser felizes na vida.

Um processo semelhante ocorreu algumas décadas antes, quando papai bancou os estudos de outro funcionário, Ary Amalfi, que fez carreira no banco Sudameris e nunca deixou de reconhecer a generosidade do “padrinho”, como o chamava.

Outro comentário foi colocado por uma senhora que morava na esquina da Rua Rio de Janeiro com a Rua Santa Catarina. Nossa casa ficava um quarteirão depois, e havia uma ladeira entre ambas. Quando o morro foi asfaltado, os carros passaram a circular em alta velocidade. Seu Oscar juntou a molecada e explicou que a rua era deles e que precisavam protegê-la. Pintaram alguns cartazes com o aviso “não corra”. Quando vinha qualquer carro em velocidade, os meninos corriam para esticar o cartaz com o alerta.

Mas a maior surpresa tive quando apareceu no meu escritório o pipoqueiro do Cine Gazeta. Era um personagem interessante porque, apesar dos problemas nas pernas, se virava com seu carrinho de pipoca. Ele foi até meu escritório. Eu estava no carro, indo para o aeroporto, por isso tivemos uma conversa telefônica breve.

Menino ainda, ele foi para Poços de Caldas com sua mãe, e os dois acamparam em frente à Farmácia Central, pedindo esmola. Meu pai abordou-o e conversou com ele. Depois, levou-o à Beneficência Portuguesa, em São Paulo, pagou seu tratamento e, mais tarde, comprou-lhe o carrinho de pipoca. E jamais comentou sobre isso em casa.

Não foi apenas isso. Participou de todos os movimentos comunitários da cidade. Foi diretor da Caldense, membro do Lions, do Rotary e da Maçonaria, além de tesoureiro da Santa Casa. E, principalmente, foi um batalhador das causas da farmácia. Fez parte da primeira geração do Conselho Federal de Farmácia, ao lado de Aloysio Pimenta. Organizou um Congresso Nacional de Farmácia em Poços e, por anos, foi presidente do Conselho Regional de Farmácia do Sul de Minas, percorrendo todas as cidades, com seu próprio veículo, para legalizar farmacêuticos práticos.

E tinha um fraco pelo jornalismo. Foi correspondente da Gazeta Esportiva, teve uma coluna prestigiadíssima na Gazeta de Farmácia — “O Cantinho do Boticário”, com crônicas sobre o boticário do interior — e foi autor de algumas reportagens históricas no Diário de Poços. Como no dia em que conseguiu uma entrevista exclusiva com Libertad Lamarque, em visita à cidade para se apresentar no Cassino. As más (ou talvez boas) línguas da cidade chegaram a comentar sobre um breve flerte do farmacêutico bonitão com a diva do cinema argentino. A aproximação se deu quando ele revelou que havia nascido na mesma cidade que ela: Rosário, em 1916.

Um de seus grandes amigos, o professor Antonio Cândido, contou-me alguns de seus flertes, como o que teve com a filha de um secretário de Segurança de São Paulo, homem temido até pelo governador. Casou-se com 33 anos.

Ele deixou para os filhos esse senso comunitário, o respeito ao próximo, o amor à sua terra e a tarefa de ajudar na construção da solidariedade. Da parte de minha mãe, dona Tereza, herdamos o apego incondicional ao país e o sonho de ver os filhos contribuindo para a construção nacional.

Quando ambos saíram de Poços, doaram parte da biblioteca para a Caldense, na Biblioteca Oscar Nassif.

Ambos, assim como nossos avós, ajudaram, tijolo a tijolo, na construção da cidadania e na legitimação de um país formado na escravidão e nos abusos. E é em nome deles que lutaremos sempre contra o obscurantismo e contra o desrespeito ao país.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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