A música me levou à Veja. Em 1969, houve um festival de música em Poços de Caldas. A final contou com jurados paulistas, entre eles Paulo Cotrim, crítico da revista e dono do lendário João Sebastião Bar. Venci o festival com a música “Congresso Internacional do Medo”, uma ópera que mesclava vários gêneros, seguindo a estrada aberta pela Tropicália. Terminado o evento, Cotrim me disse que ajudaria a consolidar minha carreira de compositor em São Paulo.
Mas o que mudou minha vida, de fato, foi o festival em Casa Branca, que venci com o frevinho “Beijo Gamado”. Uma das juradas era repórter da revista Realidade. Chegando a São Paulo, ela comentou sobre mim com o editor Luiz Fernando Mercadante e recebeu uma resposta que a surpreendeu:
— Ele é meu sobrinho.
De fato, em priscas eras, Mercadante fora casado com minha tia Zélia, em um casamento que mais pareceu um comício: seu padrinho foi Carlos Lacerda, a quem conhecera através de meu avô Issa Sarraf; e o padrinho da tia Zélia era Bilac Pinto.
Eu ainda era criança na época. Depois, eles se separaram e nunca mais o tinha visto. Apesar da separação, Luiz Fernando ia toda semana almoçar na casa da tia Zélia para ver os dois filhos que tiveram juntos. E sempre levava um colega jornalista.
Quando cheguei a São Paulo, ele tentou me encaminhar para o Jornal da Tarde. Mas, no primeiro semestre da ECA (Escola de Comunicações e Artes), eu tinha me matriculado apenas no período da tarde, o que inviabilizou a indicação. Quando o semestre estava para terminar, ele levou à casa da tia Zélia o Luiz Garcia, então Secretário de Redação da Veja. No dia 1º de setembro de 1970, a revista abriu vagas para estágios, e assim comecei no jornalismo, ao lado de Angela Ziroldo e Dailor Varela.
A perseguição em Veja
A minha trajetória na Veja começou de maneira promissora, sendo considerado uma das esperanças do jovem jornalismo. Fui transferido para a editoria de Economia em um período complicado, pois estava enredado com os problemas do Jornal da Mantiqueira, em Poços de Caldas, e com a mudança de meus pais para São Paulo, mas contei com a ajuda e compreensão do editor Emílio Matsumoto. Superada essa fase, comecei a embalar de vez na área.
Na época, o novo chefe de reportagem, Paulo Totti, me ofereceu duas possibilidades. Ou me tornar o crítico musical da Veja, devido à volta de Tárik de Souza para o Rio de Janeiro, ou de repórter especial da Economia. Escolhi a Economia, apesar de ter muito mais familiaridade com a música. A razão era simples. Em plena ditadura, o lugar de revanche do jornalismo era nas artes e espetáculos, patrulhando artistas tido como alienados. Se era para lutar contra a ditadura, o lugar certo era a economia.
Apesar de iniciante, procurei inovar. Os textos da Economia na época eram muito padronizados, repletos de jargões e adjetivos, numa espécie de “estilo Mino Carta” reproduzido por redatores que não tinham a senioridade do próprio. Certa vez, escrevi uma reportagem sobre uma feira de gado em Uberaba, com uma abordagem totalmente diferente, quase no estilo do Jornal da Tarde. A ousadia gerou um impasse. O texto foi levado às reuniões de pauta para decidirem se seria endossado ou não. Para minha sorte, Pedro Cavalcanti, correspondente da Veja na França e considerado um dos grandes textos da revista, manifestou-se a favor do artigo, defendendo a ruptura com os estereótipos do chamado padrão Veja.
Porém, a situação começou a se complicar quando Matsumoto me convidou para uma reunião na sala de José Roberto Guzzo, que havia continuado como secretário de redação após a saída de Mino e logo assumiria a direção da revista. Com suas ideias neoliberais, Guzzo criticava duramente a Lei do Inquilinato, afirmando que ela daria tantas garantias aos inquilinos que todos os imóveis residenciais seriam transformados em comerciais. Na minha ingenuidade de jovem repórter, discordei: “Guzzo, não é bem assim. Existe a Lei de Zoneamento. Apartamentos residenciais não podem simplesmente virar comerciais”. Ousei questionar o “deus” da redação naquele momento. A partir dali, entrei na marca do pênalti.
O segundo impacto veio após uma pesquisa realizada em Brasília por Pompeu de Souza e Dallambert Jaccoud, abordando a possibilidade do general Euler Bentes sair candidato indireto à presidência pelo MDB. Quando a pesquisa chegou a São Paulo, houve uma manipulação flagrante dos dados. Indignados, nos reunimos em um sábado no Sindicato dos Jornalistas e elaboramos um abaixo-assinado com os seguintes termos: “Admitimos que quem define a linha da revista é o dono, mas exigimos respeito aos fatos”.
O documento seria entregue a Guzzo por uma comissão com um representante de cada editoria. Pela Economia, o titular estava viajando. O subeditor, Alexandre Machado, tirou o corpo alegando estar há menos tempo na revista que eu. Fui então o representante. O resultado foi imediato: todos os integrantes da comissão ficaram marcados para morrer na Veja.
O primeiro a cair foi Geraldo Hasse, então editor de Comportamento. Quando ele viajou, pedindo transferência, foi rapidamente afastado, sendo substituído justamente por Alexandre Machado. O grupo de Guzzo era ele, mais Alexandre, Mário Alberto de Almeida e Roberto Pompeu de Toledo.
O cerco se fechando
A partir daí, o cerco se fechou de forma cruel. Carmo Chagas, que ironicamente fora meu padrinho de casamento, assumiu um cargo de Secretário de Redação, responsável pela reportagem geral. A tática era me sufocar: não me deixavam assinar nenhuma reportagem importante e tentavam plantar na redação a ideia de que eu estava “acabado para o jornalismo”. Quando confrontei Carmo sobre a covardia, argumentando que sem publicar nada eu nem sequer conseguiria outro emprego, ele desconversou, usando como argumento um notável repórter de polícia do JT, mas que “para nós” (a elite da redação) continuará sendo um office boy.
Outro episódio emblemático ocorreu durante a venda da Light. Percebi o movimento, antecipei-me e levantei por conta própria todos os detalhes, inclusive entrevistando o articulador do negócio, Oscar Pimentel. Quando a pauta foi discutida, eu tinha a matéria pronta. Para me tirar o crédito principal da matéria de capa, a direção recorreu a uma artimanha: enviei uma pauta para Roberto Garcia, correspondente em Washington; colocaram Zé Paulo Kupfer para dividir a autoria, apenas porque Kupfer havia editado o material que vinha de fora. À noite, enfurecido, reclamei com Kupfer. A resposta dele foi fria, mas reveladora: “Você é bom jornalista, mas não entende a máquina”. Embora às vezes fosse cooptado por Guzzo, Kupffer teve um papel digno, especialmente no período da greve da Abril.
Logo em seguida, o clima de tensão desembocou na famosa “Greve da Abril”. O movimento foi construído em assembleias. Ironicamente, em uma delas, eu me posicionei contra a paralisação. Argumentei que a empresa propunha conversar com nossos representantes e que ainda não havia condições para a greve naquele momento, o que me rendeu indignação de jovens repórteres recém-chegados, como Paulo Moreira Leite e Mário Sérgio Conti. Contudo, quando a direção recusou receber a comissão, o cenário mudou. As condições políticas para a greve estavam dadas e eu mesmo apresentei a moção para deflagrá-la. Opositores ligados a Guzzo, como Alexandre Machado e Roberto Pompeu de Toledo, tentaram barrar, alegando atrasos no fechamento da edição. A questão foi liquidada pelo Editor de Artes e Espetáculo, Geraldo Mayrink, que afirmou: “A capa desta semana sou eu quem está fazendo, está trancada na minha gaveta e só sai se a assembleia permitir”. A greve foi aprovada por unanimidade, com o voto contrário apenas daqueles três.
Durante esse período, Guzzo tentou me demitir de todas as formas, mas a solidariedade maciça da redação o impediu. Contudo, eu também enfrentava fogo amigo. Fui alertar meu editor, Matsumoto, de que havia uma conspiração para derrubá-lo, alegando que ele não conversava com figurões do governo. Para proteger as fontes que eram da própria Veja, apresentei as críticas como sendo minhas. Ele se irritou profundamente e passou a me boicotar, chegando a me pular nas escalas de viagens internacionais. Anos depois, já fora da Veja, nos reencontramos no Bar do Alemão. Ele comentou com minha então esposa que “o Turquinho deve reclamar muito de mim”. A resposta de Maria Luiza foi breve: “Reclamava sim, mas não admitia que ninguém falasse mal de você”.
O desfecho do meu ciclo na Veja aconteceu quando Guzzo, acuado, pediu a Carmo Chagas que organizasse uma reunião no sindicato para costurar uma trégua. Depois da reunião, fui para casa, mas ao ver na TV a notícia da morte do Papa João Paulo I (o “Papa Breve”), rumei à redação para ajudar no que fosse necessário, recortando teletipos. Ao sair, Carmo tentou me cooptar para sua facção política interna. Enquanto aguardava o elevador, ofereceu-me a cobertura dos 25 anos da Petrobras, podendo visitar as sucursais da Bahia e do Rio de Janeiro. Disse-lhe para não considerar minha ida à redação, naquele sábado, como adesão à sua proposta de pacto, mas por puro profissionalismo.
Na segunda-feira, Guzzo publicou uma nota no mural da revista agradecendo os jornalistas que ajudaram na alteração da capa. O primeiro nome da nota de agradecimento era o meu. Mas sabia que era uma mera trégua estratégica.
Continuei buscando meu espaço até receber o convite salvador de Kleber de Almeida, no Bar do Alemão, para ser chefe de reportagem e pauteiro de Economia no Jornal da Tarde. Saí da Veja sem ser demitido.
No meu último dia na revista, jantei com Sérgio Pompeu, a figura ponderada que equilibrava as tensões da redação desde a época de Mino Carta. Relatei a ele todo o terror que havia passado e expliquei as razões de minha resistência: meu pai estava quebrado financeiramente em São Paulo e eu precisava segurar as pontas. Inconformado, Sérgio me cobrou: “Por que você não me contou antes?”. Respondi: “Porque era um problema meu, e eu é que tinha de enfrentar”. Viajei de férias com a família e, na volta, iniciei uma nova e libertadora etapa da minha carreira no Jornal da Tarde.
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