A bomba de Bolsonaro no STF, por Eugênio Aragão

Nos rincões mais afastados da capital federal, “caminhoneiros” passaram a bloquear rodovias para sabotar a cadeia logística do País com a curiosa pauta de exigir a destituição dos magistrados da corte suprema.

Agência Brasil - BR-060, que liga Brasília a Goiânia

A bomba de Bolsonaro no STF

por Eugênio Aragão

Quando ainda tenente, Jair Bolsonaro ficou conhecido por seu plano – frustrado em última hora – de fazer explodir bombas em quartéis para desmoralizar o então ministro do exército, Leônidas Pires Gonçalves, por ele eleito inimigo pessoal em sua ruidosa encruzilhada por melhores soldos na arma. Foi acusado de sedição, mas o STM terminou por lhe dar um salvo-conduto para a vida política. E chegamos até aqui.

Bolsonaro não mudou. Seus métodos são os mesmos. Elege seus inimigos – aqueles que lhe querem impor freios – e não conhece limites na sanha de agressão. Seu inimigo hoje é o STF. Já o foram os governadores, os deputados, os senadores, os comandantes militares. Hoje, definitivamente, é o judiciário com sua missão contramajoritária. 

Semanas antes do 7 de setembro, até as pedras sabiam que o presidente estava preparando uma bomba para sacudir o país. A ideia agora já não era desmoralizar o ministro do exército. Era desmoralizar o conjunto das instituições republicanas. E a bomba não seria detonada em quartéis, mas na suprema corte. Para isso, assegurou-se de que seu ambiente estivesse preparado para blindá-lo, para que não fosse atingido por estilhaços do petardo. Encheu a Esplanada dos Ministérios de irados apoiadores, liderados pela turma das redes sociais e pela turma do dinheiro. Atiçou-os a avançarem contra o STF, ao dizer que o tribunal, com ministros “canalhas”, devesse ser “enquadrado”. Fingia agir em nome da “liberdade” dos seus, de destruir o frágil tecido civilizatório da sociedade e de causar a ruptura das instituições.

Os atos do dia 7 de setembro ensejaram repulsa dos democratas, ainda que se contivessem os manifestantes mais afoitos e não houvesse a temida depredação do prédio do STF. Foram, contudo, momentos chocantes, de estremecer, como num terramoto, as fundações do estado de direito. 

Mas, ao dia 7, se seguiria o dia 8. Esperava-se que as instituições agredidas respondessem à altura, desenlaçando o processo de destituição do franco agitador da presidência. Caberia ao presidente da Câmara dos Deputados por em curso algum dos mais de duzentos pedidos de impeachment que dormitam em suas gavetas. Agora, com a prova definitiva da agressão ao STF, com ameaças inequívocas a sua independência. Pensava-se que a reação do STF fosse além da retórica e pudesse vir de reforço ao processo de impeachment. Mas, nada. A expectativa de “duras respostas” foi frustrada, com a conversa mansa de elogio aos manifestantes pelo presidente da Câmara e de exortação ao fim “da escalada”, ao fim do embate “entre os poderes”, como se atitudes do STF fossem tão perturbadoras à “harmonia” quanto as do presidente da República ensandecido. De lado do STF, o discurso de seu presidente se limitou a “lembrar” que desobedecer a ordens judiciais configuraria crime de responsabilidade – em algum momento hipotético, futuro, quiçá. Ignorou que o chefe de estado já tinha completado sua senda criminosa, consumando o crime de responsabilidade reiteradas vezes naquele fatídico dia 7 de setembro!

Enquanto os agredidos se enchiam de mesuras no debate sobre como lidar com o fio descapado no Palácio do Planalto, este continuava a dar impulso a sua marcha insensata. A turma de empresários que financiou os atos da véspera resolveu ficar em Brasília. Com seus caminhões, mantiveram a ocupação da Esplanada. Tentaram avançar sobre a Praça dos Três Poderes. Queriam entrar no Senado e no STF, mesmo se precisassem usar da força contra os agentes de segurança pública. Foram contidos, por ora, por uma polícia militar que não vem mostrando muito empenho na repressão das transgressões das hordas convocadas pelo presidente da República. 

Mas, nos rincões mais afastados da capital federal, “caminhoneiros” passaram a bloquear rodovias para sabotar a cadeia logística do País com a curiosa pauta de exigir a destituição dos magistrados da corte suprema. Na verdade, os autores intelectuais de mais essa ação criminosa não são caminhoneiros coisa nenhuma. São empresários e associações empresariais do agronegócio – as mesmas que financiaram os atos de 7 de setembro, aliadas oportunisticamente a Bolsonaro, com o objetivo de constranger o STF a liberar, no julgamento do chamado “marco temporal” sobre ocupação de terras indígenas, a invasão dessas terras para a monocultura e a pecuária. Os caminhoneiros propriamente ditos têm outras preocupações. Querem pedágio e combustível com custo razoável e frete que assegure sua subsistência. E, nisso, sua pauta é antigovernamental. 

Bolsonaro, porém, depois de incendiar a República, finge ser estadista e exorta “caminhoneiros” a liberar as estradas, quiçá preparando o terreno para invocação da necessidade de garantia da lei e da ordem (GLO) pelas Forças Armadas. Enquanto isso, o legislativo apascenta e o STF rosna. Mas ninguém impede o chefe de estado criminoso. A se manter a inércia, logo seremos engolidos pela ousadia do tenente de explodir a ordem constitucional. E já de nada adiantará lembrar que ele praticou crime de responsabilidade.

É assim que as democracias morrem. A história é plena de exemplos. E nunca seria demais lembrá-los. Mas, é em “caminho de Maiakovski”, do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa, que melhor se expressa a advertência àqueles a quem a sociedade, em 1988, confiou a defesa de nossa tenra e frágil democracia:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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1 comentário

  1. Comovente crônica de desabado, diante da inércia e covardia dos nossos deputados estaduais e federais e senado federal. Falta coragem aos nossos representantes constitucionais para tomar medidas e posições racionais contra o “louco” que habita o Palácio do Planalto. O medo e a inércia são os componentes principais do veneno que acabará por nos matar a todos!

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