Entendendo Milei: o que será real ou não na Argentina

Patricia Faermann
Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.
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O que se assiste como um recuo do candidato histriônico na política prática, já foi percebido pelos argentinos. Mas muito estrago ainda deve ser feito.

Foto: Twitter Javier Milei – @JMilei

Uma parte do discurso de campanha de Javier Milei foi inflado e os argentinos sabiam disso, ao votarem massivamente 56% dos eleitores no candidato polêmico. Seja como parte do tom incendiário já conhecido por outras figuras da ultradireita mundial, seja pela inviabilidade de determinadas posições declamadas.

“Assim como Bolsonaro não conseguiu fazer o golpe no Brasil, Milei não vai fazer tudo o que diz na Argentina”, foi o comentário de uma cidadã que entregou seu voto ao candidato no último 19 de novembro.

Essa descrença dos argentinos que não se identificam com as pautas da ultradireita, mas que votaram no candidato, e que aos poucos se confirmam para algumas promessas de campanha esvaziadas, foi também expressada por especialistas ouvidos pela TVGGN.

Como o historiador argentino Osvaldo Coggiola, em participação no Onze News, que foi ao ar nesta segunda-feira (27): “A Argentina não vai romper relações com o Brasil e com a China. Obviamente é uma loucura [esse discurso de Milei], argumentando que tanto o Brasil, quanto a China, são países governados por comunistas e que ele não quer ter relações com países comunistas.”

“É um pouco o discurso que já ouvimos no Brasil no caso de Bolsonaro. Ele ameaçava romper relações com a China e afirmava o tempo todo que a China não era um parceiro adequado para o Brasil, por ser governado por comunista. Depois, não aconteceu nada disso. O Brasil não rompeu relações com a China, e a Argentina não vai romper relações com a China, nem com o Brasil”, assegurou.

O que hoje o Brasil assiste como um recuo do candidato histriônico na política prática, em um de seus gestos entregando uma carta amigável ao presidente Lula, convidando-o a participar de sua posse, já foi percebido pelos argentinos poucos dias antes do segundo turno de votações.

E assim que foi declarado presidente vitorioso, segundo narrou Coggiola, Milei também iniciou uma articulação com todos os partidos, exceto os de esquerda – com um alerta: inclusive o diálogo com a esquerda pode ser iniciado pelo ultradireitista.

“Efetivamente, o que se colocou imediatamente depois da vitória eleitoral de Milei foi [um investimento] da governabilidade. A governabilidade tem duas pontas, a governabilidade em missão com praticamente todos os partidos políticos argentinos, excluída a esquerda, mas não se descarta que a esquerda seja incorporada – porque Milei até levantou essa possibilidade. E no plano externo quando normaliza, de algum modo, as relações com os principais parceiros da Argentina: a China, o Brasil e, obviamente, em primeiríssimo lugar, os Estados Unidos.”

Internamente, calcula-se que o governismo terá somente um terço do bloco dos deputados que assumem na Câmara no próximo 10 de dezembro. O restante, apesar de não serem necessariamente apoiadores de Milei, estarão disponíveis para negociações – o que, como todo governismo, inclui cessões, voltar atrás.

Como entender essa mentalidade do mais novo presidente, que carrega uma agenda polêmica liberalista radical, mas com gestos que hoje parecem contraditórios aos seus discursos de campanha?

Entendendo como é a mente de Milei

Segundo o cientista político Pedro Costa, em entrevista ao GGN 20h, Milei é, antes de tudo, a consequência da onda da extrema-direita que conseguiu eleger Donald Trump, nos Estados Unidos, e abriu espaço de representatividade nas eleições de outros países no mundo.

“Se não fosse esse fenômeno [que elegeu Trump em 2016], o Milei não existiria. Isso inclui a rede de massas, a internet e o discurso agressivo dessa ultradireita. Mas o Milei não é apenas isso.”

O cientista político concordou com a análise feita pelo jornalista Luis Nassif, em artigo no GGN, de que a linha do atual presidente argentino não é a mesma de Bolsonaro, assemelhando-se mais a um “Paulo Guedes argentino”.

Pedro Costa volta ao passado de Milei para entender essa figura que se apresenta hoje:

“Ele foi um desses líderes jovens mundiais no Fórum de Davos entre os representantes da Argentina, assim como foi o [Justin] Trudeau [atual primeiro-ministro] no Canadá. Então, pela sua formação pessoal, o que está na sua essência é o G7 [Grupo dos Sete, o grupo dos países mais industrializados do mundo], é Davos [Fórum Econômico Mundial], é a arquitetura atlanticista, digamos.”

Além disso, explicou que esse lado libertário, o que para algumas pautas se traduz em liberdade de escolhas – como o casamento LGBT -, também é conciliado com a crença religiosa, que traz o judaismo, a Torá e versículos bíblicos em dizeres. “Então ele faz essa mescla entre a ultradireita conservadora, mas também próximo do ultra-liberalismo que formou ele, que é esse fenômeno de Davos”, resumiu.

O pesquisador Pedro Costa também concorda que pelo o que os argentinos assistiram da política mundial, assim como Trump e Bolsonaro, “uma vez que eles sentaram na cadeira, eles não puderam fazer tudo o que disseram que iriam fazer, porque pelos constrangimentos, a realidade se impõe.”

“Agora, eles fizeram muita coisa… Muito estrago foi feito”, lembrou.

Apesar de os argentinos entenderem que o voto não foi completamente no escuro, uma vez que o histórico de Milei e de exemplos mundiais trouxeram indicativos de como seria o seu mandato, assim como os moldes institucionais já estruturados no país dificultariam algumas de suas promessas, para os eleitores do governista Sergio Massa, o medo ainda permanece.

O que é real e o que é balela do discurso de Milei?

O historiador Osvaldo Coggliola pontua que Milei não irá cortar negócios com o Brasil e com a China. Mas no campo de alianças econômicas, “uma ameaça que ele também não vai cumprir, mas que fica pairando no ar” é a saída do Mercosul.

O que Milei gostaria, mas também não deve conseguir, é “uma eventual saída da Argentina do Mercosul, que enfraqueceria esse bloco regional, para se encaminhar a um acordo de livre comércio -ou qualquer coisa semelhante- com os Estados Unidos ou União Europeia, para fazer o seu próprio jogo”.

Nesses últimos dias, em sua primeira visita aos EUA, o que Milei busca também é um intento econômico que pode afundar, ainda mais, a dívida econômica internacional do país.

“Esse choque econômico, muito provavelmente, será decidido com a viagem que Milei está fazendo aos Estados Unidos, acompanhado de seu futuro ministro da Fazenda, Luis Caputo, onde ele vai tentar renovar o apoio ao Fundo Monetário Internacional para um eventual empréstimo de US$ 15 milhões para poder tirar as contas argentinas do vermelho e obviamente vai ter que se comprometer com condições que ele já anunciou em sua campanha eleitoral.”

O compromisso para essa entrega de dinheiro e as promessas eleitorais que já afirmou não voltar atrás são: onda maciça de privatizações, corte dos investimentos públicos e “toda uma série de medidas que vão afetar imediatamente o bolso de todos os argentinos, dos mais pobres, evidentemente, salvo uma pequena camada de grandes capitalistas, que farão grandes negócios com essa situação”.

Mas, para tratar a dívida interna, outra das propostas de Milei também já não se concretizou: a dolarização da economia, ou seja, a substituição do peso argentino por dólar.

Coggiola explicou que o país não tem condições monetárias para aplicar a dolarização que prometeu Milei na campanha, e que sequer o seu ministro da Fazenda escolhido e o próprio FMI concordam com a medida, por ser diretamente inviável. Mas que é possível a Argentina colocar em prática outra de suas promessas: acabar com o Banco Central.

“O que, sim, Milei pode avançar é na implosão do Banco Central, o que significaria que a Argentina deixa de ter controle sobre a sua política monetária. Acabaria o Banco Central, o Comitê Monetário da Argentina, e a Argentina passaria a ser uma espécie de Porto Rico situada no Atlântico Sul. Ou seja, um país totalmente independente”, alertou o historiador.

Em uma Argentina de mais de 40% da população abaixo da linha da pobreza e esgotada dos extremos índices de inflação, o que a totalidade dos 56% eleitores argentinos, sim, confiavam que Javier Milei iria fazer, para além de seu discurso inflável, são decisões econômicas no sentido oposto ao do atual governo Alberto Fernández, ainda que as primeiras amostras dessa linha, que foram aplicadas pelo antecessor Mauricio Macri, resultaram em maior quebra econômica.

“Em qualquer hipótese, o que temos aqui é a possibilidade, a partir do crédito político que recebeu Milei de 56% dos votos no segundo turno, de um choque econômico violento na Argentina, que vai alterar toda a situação econômica e política do país, sem ser uma solução para os problemas estruturais para a Argentina”, expressou Osvaldo Coggliola.

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Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.

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