2021: o naufrágio do Brasil, por Ion de Andrade

Então estamos entrando naquilo que os estrategistas militares chamariam de “pinça” já que, por um lado o mercado externo vai se fechar em virtude do inacreditável isolamento em que o país foi lançado e por outro o mercado interno está sendo destroçado.

2021: o naufrágio do Brasil

por Ion de Andrade

No fim do ano passado, publiquei um artigo onde falava da Tempestade Perfeita que se avizinhava do Brasil em decorrência da política de isolamento do país perpetrada pelo atual governo.

Dizia eu que o presidente da República era persona non grata nos nossos principais parceiros comerciais. Não tinha como viajar à China, à França, à Alemanha e sequer à Argentina e com cada um desses parceiros, fundamentais para a nossa economia, o mandatário havia produzido rixas pessoais (o caso da Argentina), familiares (o caso da França) ou políticas que o incapacitavam a gerir os interesses brasileiros no exterior. Ao contrário cada um desses países está apenas esperando a boa ocasião para se vingar do governo brasileiro, o que se fará atingindo os interesses do país.

Dizia também que três coisas tornariam o leme completamente ingovernável, (1) a eleição de Biden nos Estados Unidos, (2) a ostensiva destruição do meio ambiente e  (3) a absurda condução da pandemia pelo governo, que agora, aliás, tem no parecer Human Rights Watch um veredito de crime contra a humanidade.

Diga-se de passagem que o relatório dessa referida ONG internacional parece feito sob medida para que os juízes de Haia deem parecer favorável à abertura de investigação de crime contra a humanidade por parte do governo brasileiro no que tange à pandemia. Esse desdobramento improvável ganhou obviamente viabilidade após o relatório dessa entidade que é, para o mundo ocidental, uma referência na área. Esses três elementos, objetivamente, tiram de Bolsonaro qualquer capacidade de conduzir os interesses brasileiros no cenário internacional. Não se trata de uma opinião, é um diagnóstico factual claríssimo. E 2021 se anuncia como o ano em que a onça vai beber água

Portanto, a cada dia que passa os países, empresas e entidades que se sentem agredidos e prejudicados pelo atual governo se aproximam do momento em que devolverão as agressões, o que já começou a acontecer.

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Mas há mais. Esse isolamento se acrescenta de uma política econômica doméstica de liquidação do mercado interno, o que se dá através de inúmeras medidas e reformas que cortam salários e renda dos consumidores tudo para que os gastos caibam no orçamento e para que favores fiscais, como os oferecidos à Shell no pré-sal possam continuar e para que as grandes fortunas possam permanecer indefinidamente isentas de tributação. O Banco do Brasil gerará 5.000 desempregados o que significa um impacto indireto dez vezes maior. Ação feita para sucatear o banco fundado por Dom João VI, e desnecessária, porque, sem isso, as suas ações vinham sendo cotadas como das mais promissoras para 2021…

Então estamos entrando naquilo que os estrategistas militares chamariam de “pinça” já que, por um lado o mercado externo vai se fechar em virtude do inacreditável isolamento em que o país foi lançado e por outro o mercado interno está sendo destroçado.

No artigo eu dizia que o dito mercado teria abandonado Bolsonaro. Mas acho que não. Liderados por pessoas de pouca cultura política, gente que entende no caso do agronegócio somente das coisas da roça e no caso da indústria, apenas de tocar a bodega, o Brasil segue célere para um precipício no qual viverá um cenário de desindustrialização, de liquidação do agronegócio e de perdas internacionais.

A privatização do Banco do Brasil, aliás e obviamente, é peça claríssima do desmonte do agronegócio, num jogo que essa gente rica e burra não vê.

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Vamos a alguns fatos concretos:

  1. A Ford saiu do Brasil após cem anos no país, a saída obviamente se assenta numa análise de cenários de curto, médio e longo prazos. A mesma Ford vai investir bilhões e bilhões de dólares na Argentina;
  2. A França pretende deixar de comprar a soja brasileira e substituí-la por alternativa europeia – Mourão respondeu que o presidente francês (ora, ele quer se vingar de Bolsonaro) não conhecia a soja do Brasil… É claro que o presidente francês não precisa conhecer a soja brasileira, o que ele quer mesmo é não comprar;
  3. Ainda no que toca à soja, o Grupo Syngenta anunciou na Argentina um acordo de grandes proporções com a Sinograin – empresa responsável pela exploração da reserva de grãos da China. A iniciativa visa exportar diretamente os grãos e seus derivados para o mercado chinês e promover a cooperação de toda a cadeia agroindustrial.
  4. No que toca ao ferro, o esforço da China para reduzir a sua dependência externa se tornou ainda mais necessário pela perda de credibilidade do Brasil. Com foco em países mais previsíveis tais como a Guiné ou o Peru, terá nos projetos de Simandou e Marcona ferro a dizer basta.
  5. Refletindo o que vem por aí, e contrariando previsões dos “intelectuais” do mercado (…) de que o real se valorizaria em 2021, na sexta-feira dia 8 de janeiro, o dólar fechou em alta. O real teve o pior início de ano em desvalorização em 18 anos, o que decorre de uma sólida previsão de quebra da entrada de recursos no país;
  6. Hoje, 13/01/2021, dia em que as bolsas mundiais tiveram ganhos expressivos a bolsa brasileira amargava perdas;
  7. É quando entra a mudança de governo nos Estados Unidos. Vejamos num flash:
  8. A vice presidente dos Estados Unidos é publicamente crítica a Bolsonaro;
  9. Juan Gonzalez, responsável pela condução dos assuntos da América Latina no governo americano é publicamente crítico a Bolsonaro;
  10. Deb Haaland, deputada indígena que assumirá o Ministério do Interior americano é publicamente crítica a Bolsonaro;
  11. E, suspense, o próprio Joe Biden é publicamente crítico a Bolsonaro
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Como se não bastasse, essa situação de extrema fragilidade perante o seu antigo único aliado internacional, Bolsonaro não foi capaz de arrefecer a sua “lealdade” ao presidente a Trump e considerou fraudadas as eleições americanas no dia em que o Capitólio estava sendo invadido por extremistas de direita e supremacistas brancos aliados de Trump…

Obviamente que agora, para além de um confronto anunciado em decorrência do que vem exprimindo Biden e sua equipe em relação a Bolsonaro, o governo americano entrou na já longa fila dos que só esperam uma boa situação para retaliar.

Cego o mercado no Brasil é como uma rêmora, aquele peixe que acompanha os tubarões e que não o largam nem quando são pescados.

Nem falei da pandemia…

Vamos a pique!

 

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4 comentários

  1. “Então estamos entrando naquilo que os estrategistas militares chamariam de “pinça” já que, por um lado o mercado externo vai se fechar em virtude do inacreditável isolamento em que o país foi lançado e por outro o mercado interno está sendo destroçado.”
    Boa, no início de 2019 eu disse que esse desgoverno ia conduzir a economia do país para o abismo em duas frentes, externa e interna, exatamente desse jeito que o colunista escreveu. E vamos assistindo a triste e lenta agonia da destruição de um país.

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  2. “A privatização do Banco do Brasil, aliás e obviamente, é peça claríssima do desmonte do agronegócio, num jogo que essa gente rica e burra não vê.”
    Certíssimo, pois os bancos privados não financiam os micro, pequenos, médios e grandes produtores agropecuários, pois esses serviço, com dinheiro do governo, geram muito trabalho e pouco spread bancário. Emprestam alguma coisa para as suas próprias empresas associadas ao conglomerado dos banqueiros. Nada mais!
    Ressalte-se, que a maioria dos agricultores e pecuaristas desse Brasil votaram em Bolsonaro para presidente. Votaram no mito. A grande ameaça à nação é que ocorra menor plantio nos próximos anos, ameaçando a segurança alimentar de todos nós. Sem o Banco do Brasil, não existe financiamento agrícola nesse país.

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