
A bioeconomia frente aos desarranjos da política
por Pedro Lange Machado
A proximidade da COP30, a ser realizada na Amazônia durante o próximo mês de novembro, coloca no centro do tabuleiro as perspectivas e desafios da bioeconomia da região. Com o agravamento da emergência climática, o fomento da bioeconomia vem sendo cada vez mais reconhecido como um dos caminhos para se alcançar uma transição justa. Nesse contexto, foi lançado no Fórum de Desenvolvimento da ABDE, realizado em São Paulo, em agosto em 2025, o relatório “Ecossistema de Financiamento da Bioeconomia na Amazônia Legal: Diagnóstico, Experiências e Recomendações para Ações Integradas”[2]. Fruto do esforço conjunto da Agência Francesa de Desenvolvimento, Associação Brasileira de Desenvolvimento, Frankfurt School of Finance & Management e da rede Uma Concertação pela Amazônia, o estudo identifica gargalos e propõe recomendações para estimular o setor. Em linhas gerais, é mostrado que a bioeconomia amazônica possui um ecossistema de financiamento já diversificado, mas ainda pouco integrado e carente de incentivos à sua versão mais alinhada à agenda do desenvolvimento sustentável.
Essa vertente pode ser entendida como sociobioeconomia. Há, no contexto da Amazônia Legal, diferentes tipos de bioeconomia, cada qual com características e desafios particulares. Dentre essas variantes, a sociobioeconomia é a que valoriza a sociobiodiversidade amazônica, funcionando com floresta em pé e rios fluindo, e conciliando avanços científicos e tecnológicos com o conhecimento tradicional das comunidades locais. Em outras palavras, a promoção do financiamento da sociobioeconomia é um dos caminhos para que os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU e as metas climáticas do Acordo de Paris sejam alcançados.
Mas a sociobioeconomia enfrenta uma série de dificuldades para acessar mecanismos de financiamento. O estudo mostra que o setor enfrenta gargalos importantes, como alta informalidade, baixo letramento financeiro e dependência estrutural de capital filantrópico para o seu funcionamento. Esse diagnóstico é respaldado por estudos de caso que mostram experiências de sociobioeconomia relacionadas à recente revitalização da cadeia da borracha amazônica, ao extrativismo sustentável do açaí da floresta e à atuação de fundos de investimento indígenas. Além disso, com base em um mapeamento de 159 mecanismos de financiamento à bioeconomia, a pesquisa identifica que apenas 28% deles atendem às comunidades locais que sustentam a sociobioeconomia. Apesar dessas fragilidades, ela já mobiliza um valor bruto de produção anual de R$ 15 bilhões na Amazônia Legal[3].
Com o protagonismo da agenda do desenvolvimento sustentável, a sociobioeconomia vem sendo mais valorizada no campo político, o que tende a se reverter em uma maior disponibilidade de recursos financeiros para o setor. No Brasil, por exemplo, o conceito de bioeconomia adotado pelo governo brasileiro no decreto nº 12.044, que instituiu a Estratégia Nacional de Bioeconomia (ENB) em junho de 2024, aparece fortemente influenciado pela sociobioeconomia. Isso se traduz em menções a um o modelo de desenvolvimento produtivo e econômico baseado “no uso sustentável, na regeneração e na conservação da biodiversidade, norteado pelos conhecimentos científicos e tradicionais e pelas suas inovações e tecnologias, com vistas à agregação de valor, à geração de trabalho e renda, à sustentabilidade e ao equilíbrio climático”. Um objetivo central da ENB é precisamente orientar a criação de instrumentos financeiros para fomentar a bioeconomia, bem como “promover as economias florestal e da sociobiodiversidade”.
Elementos da sociobioeconomia também orientaram a formulação dos Princípios de Alto Nível para a Bioeconomia lançados no ano passado pelo G20. Entre eles, os imperativos de conservação da biodiversidade e de contribuir para os esforços de mitigação e adaptação ao aquecimento global aparecem como eixos estruturantes. Além disso, os Princípios destacam a necessidade do desenvolvimento de uma bioeconomia pautada pela inclusão de comunidades indígenas e pela valorização do conhecimento tradicional.
Mas a politização da agenda do clima pode frear os avanços que vêm sendo obtidos no financiamento da bioeconomia, em geral, e da sociobioeconomia, em particular. Para além dos gargalos elencados no estudo, a experiência internacional recente mostra que a ascensão ao poder de governos de extrema-direita, que negam a ocorrência do aquecimento global provocado pela ação humana, traz consequências devastadoras para o meio ambiente, em detrimento dos setores que o protegem. Dois exemplos ilustrativos de como esse processo pode afetar o financiamento da bioeconomia são os governos Trump, no Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil.
No caso americano, em meio a variadas ações que agravam a crise climática levadas a cabo pelo governo Trump, o esvaziamento da USAID se destaca por comprometer diretamente a sociobioeconomia amazônica. Os estudos de caso presentes no relatório mostram que a operação de fundos indígenas e a revitalização da cadeia da borracha amazônica, por exemplo, dependem de arranjos financeiros nos quais a agência americana desempenha papel relevante. Como essas e outras iniciativas de bioeconomia que precisam desse tipo de capital poderão sobreviver a esse ciclo político?
O caso brasileiro é ainda mais grave. Diante da popularidade cambaleante do governo Lula, o retorno da extrema-direita ao poder vem se mostrando um cenário cada vez mais factível para as eleições de 2026. Cabe então relembrar as inúmeras iniciativas do governo Bolsonaro que resultaram na devastação do meio ambiente. Essas ações estão amplamente documentadas[4] e incluem medidas como promoção do garimpo em terras indígenas, liberação desenfreada de pesticidas, sucateamento de órgãos de fiscalização e proteção ambiental, corte de verbas para fundos de proteção ambiental, leniência com desmatamento, enfraquecimento do sistema de monitoramento e combate a crimes ambientais e o boicote do próprio presidente à COP26, realizada na Escócia em 2021. Como se daria a implementação da ENB e do financiamento da sociobioeconomia sob um novo ciclo de extrema-direita no país? Pode-se conjecturar que as vertentes da bioeconomia não associadas ao agronegócio estariam sob ameaça de estrangulamento financeiro, passando a depender cada vez mais de doações internacionais, capital filantrópico e de investimentos privados ainda incipientes para sobreviver. Isso representaria uma forte regressão no desenvolvimento de um setor crucial para a mitigação da crise climática e ambiental.
Em outras palavras, a promoção do financiamento da bioeconomia no Brasil e a superação dos gargalos que se impõem à sociobioeconomia aparecem condicionados à ameaça de governos que negam o consenso científico em torno dos preceitos do desenvolvimento sustentável. O problema, convém ressaltar, não é a alternância de poder inerente ao jogo democrático, mas sim a partidarização da adesão a achados da ciência, tal como também se observou, por exemplo, no debate sobre vacinas durante a pandemia de Covid-19. Isso faz da politização da agenda do clima uma das grandes encruzilhadas de nosso tempo.
Pesquisas mostram que os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estão cada vez mais distantes de serem alcançados, e a descarbonização da economia global está ocorrendo em uma velocidade muito aquém da necessária para garantir um futuro sustentável. As consequências disso já começam a se materializar em nosso dia-a-dia, com a recorrência de eventos climáticos extremos, aumento da insegurança hídrica e alimentar e aparecimento de desequilíbrios socioeconômicos diretamente relacionados ao clima. Já se sabe que a bioeconomia é uma peça importante no xadrez do combate ao aquecimento global. Resta convencer as diferentes forças do espectro político de que o seu financiamento é uma causa universal, e não uma agenda a ser manipulada com fins eleitorais.
Pedro Lange Machado – Pesquisador de pós-doutorado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo [1]
Blog: Democracia e Economia – Desenvolvimento, Finanças e Política
O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Instagram: Finde UFF
O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas. O grupo objetiva estimular o diálogo e interação entre Economia e Política, tanto na formulação teórica quanto na análise da realidade do Brasil e de outros países. Instagram: Geep_iesp
[1] As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP
[2] https://concertacaoamazonia.com.br/estudos/financiamento-da-bioeconomia/
[3] https://www.wribrasil.org.br/nova-economia-da-amazonia Ver p. 24. Também está referenciado no estudo.
[4] https://philip.inpa.gov.br/publ_livres/2022/da_Silva_&_Fearnside-2022-Brazil-environment-under-attack.pdf
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