2 de setembro de 2026

A contradição na ”taxa das blusinhas”, por Francisco Celso Calmon

CNI estima que fim da taxa das blusinhas coloca em risco 109 mil postos de trabalho. MP precisa ser votada pelo Congresso até 8 de setembro
Reprodução

Governo Lula avança na reindustrialização, mas revoga proteção à indústria local com fim da “taxa das blusinhas”.
Fim da taxa pode prejudicar pequenas confecções e gerar perda de até 109 mil empregos, alerta a CNI.
Pressão do Congresso favorece importações, contrariando políticas para fortalecer a indústria nacional e gerar empregos.

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A contradição na ”taxa das blusinhas”

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por Francisco Celso Calmon

O governo Lula está cometendo uma contradição que demonstra falta de segurança no planejamento do projeto de desenvolvimento que pretende para o Brasil. Ao mesmo tempo em que implementa uma política de reindustrialização, buscando reativar a indústria nacional e ampliar sua capacidade produtiva – algo que o país perdeu significativamente nas últimas décadas e que se torna cada vez mais necessário, inclusive diante da necessidade de processamento de terras raras e de outros recursos estratégicos -, o governo recua em medidas que poderiam proteger e fortalecer a produção nacional.

A contradição aparece de forma evidente na chamada “taxa das blusinhas”. A taxação já foi instituída, depois sofreu mudanças e agora volta ao centro do debate. A questão é que a proteção da indústria nacional é necessária, especialmente em setores como o de confecção e o de produção de tecidos. Se o objetivo é fazer com que pequenas confecções, oficinas e empreendimentos produtivos se desenvolvam e se transformem em indústrias, é preciso garantir, sobretudo em sua fase inicial, algum nível de proteção e incentivo do Estado.

Sem essa proteção, abre-se espaço para a entrada indiscriminada de produtos importados de baixo custo, favorecendo aqueles que vivem da importação e da comercialização desses produtos. O resultado pode ser justamente o contrário daquele pretendido pela política de reindustrialização: enquanto o comércio de produtos importados é estimulado, a indústria nacional encontra maiores dificuldades para se desenvolver.

Historicamente, processos de industrialização exigem políticas de incentivo e proteção do Estado. A construção de uma indústria nacional competitiva não acontece de forma espontânea quando ela precisa disputar, em condições desiguais, com produtos importados produzidos em larga escala e comercializados a preços muito baixos.

Nesse sentido, essa questão revela uma contradição dentro da própria política do governo e pode estar relacionada à pressão de lobbies no Congresso Nacional. A atuação das presidências da Câmara e do Senado, ao pressionar por medidas que facilitem a entrada de produtos importados, pode acabar indo na direção oposta à política de reindustrialização que o próprio governo afirma defender.

A reindustrialização é necessária não apenas porque fortalece a produção nacional, mas também porque gera empregos. As pequenas oficinas de confecção, as fábricas de tecidos e as demais atividades ligadas à cadeia produtiva industrial geram postos de trabalho diretamente e também movimentam o comércio, uma vez que aquilo que é produzido precisa ser distribuído e comercializado.

O problema é que muitas vezes prevalece uma visão imediatista. Mesmo em uma fase eleitoral, um governo que pretende atuar de maneira estratégica precisa pensar para além do calendário eleitoral e considerar os efeitos de suas decisões no médio e no longo prazo. No caso da chamada “taxa das blusinhas”, parece estar sendo concedido algo que pode prejudicar mais do que ajudar o projeto de desenvolvimento nacional.

Qual é, afinal, a vantagem de trazer produtos importados sem qualquer tipo de imposto ou taxação enquanto se pretende fortalecer a indústria brasileira? Se o objetivo é reindustrializar o país, gerar empregos e ampliar sua capacidade produtiva, a resposta não pode ignorar a necessidade de proteger os setores nacionais em desenvolvimento.

CNI estima que fim da taxa das blusinhas coloca em risco 109 mil postos de trabalho. Medida Provisória que extinguiu o imposto precisa ser votada pelo Congresso até 8 de setembro

O Brasil precisa de uma política industrial coerente. Não faz sentido avançar um passo na direção da reindustrialização e, diante da pressão de interesses imediatos, recuar dois. Se o governo possui um projeto de desenvolvimento nacional, ele precisa ter capacidade política para sustentá-lo diante dos lobbies e das pressões do Congresso. Caso contrário, corre o risco de caminhar apenas trotando, quando o país precisa, de fato, avançar a galope.

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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