21 de maio de 2026

A Venezuela nos anos 50, nos anos 70, já então…, por Rosa Freire d’Aguiar

Celso Furtado alertava para o risco de a Venezuela ficar cada vez mais dependente da receita do petróleo e da importação de commodities
Celso Furtado - Reprodução Companhia das Letras

Em 1957, Celso Furtado estudou a economia venezuelana sob ditadura de Pérez Jiménez, mas seu relatório foi censurado.
Em 1974, Celso alertou sobre dependência do petróleo e desigualdade em Caracas, defendendo projeto político para o desenvolvimento.
Na década de 1990, Celso concluiu que a Venezuela perdeu a chance de superar o subdesenvolvimento com abundância de divisas.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A Venezuela nos anos 50, nos anos 70, já então…

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Rosa Freire d’Aguiar

Nos idos de 1957, Celso Furtado era economista da Cepal e passou meses na Venezuela para fazer um estudo aprofundado da economia do país. A Venezuela vivia o último ano da ditadura militar de Marcos Pérez Jiménez, instalado no poder em 1952 depois de evidências de fraude eleitoral. O general calara a oposição e os jornais, proibira os partidos políticos. Graças à enxurrada de divisas das exportações do petróleo, fez grandes obras de infraestrutura. Mas não viu com bons olhos a missão daquele economista brasileiro interessado em analisar a economia. Ao contrário: proibiu, de comum acordo com a secretaria-geral da Cepal, que o relatório circulasse — o trabalho passou a ser um relatório “inexistente”.

O que Celso apontava? que a economia da Venezuela tinha crescido muito mas seu desenvolvimento era desarmônico, com setores muito para trás e com crescente desigualdade na distribuição da renda. Ou seja, a Venezuela nadava numa abundância de divisas mas nem por isso conseguira escalar a trilha do desenvolvimento.

Anos mais tarde, Celso escreveu num livro de memórias: “Não se necessitava argúcia para perceber que por trás daquelas grandes obras corria o dinheiro da corrupção que nutria os sustentáculos da ditadura.”

Pano rápido.

Em 1974, Celso professor em Cambridge, recebeu um convite do ministro do Planejamento da Venezuela, para visitar o país. Lá foi ele. Num caderno que costumava levar na maleta de mão, anotou no dia da chegada a Caracas: “Não pode haver maior evidência de que o subdesenvolvimento é uma maneira deformada de acumular capital. Caracas é uma criação do automóvel: imensos capitais imobilizados para criar este corpo pesado que funciona queimando os royalties do petróleo.

Transplantação da forma de viver da civilização mais capitalizada do mundo — os Estados Unidos — para um país que vive dispendendo um recurso não renovável. E como evitar que a população espere ter acesso a alguma das benesses do petróleo? Por uma ironia da topografia, as massas mais pobres se instalaram dentro da própria capital, nas colinas que permeiam o vale. Assim, a supermodernidade dos viadutos e edifícios luxuosos exibe permanentemente no espelho a contrapartida representada pelo mar de “ranchos” [as favelas] em que se abrigam os mais pobres.”

No dia seguinte à sua chegada, o El Nacional de Caracas, o grande jornal da Venezuela, publicava essa charge abaixo, registrando sua presença: “A Celso Furtado se le va a quebrar el serrucho com la carraplana!” (algo como Celso Furtado vai quebrar a cuca com o miserê!)”

De fato, nas notas que tomou em 1974, Celso alertava para o risco de a Venezuela ficar cada vez mais dependente da receita do petróleo e da importação de commodities — até a alface e a água mineral com gás, na época, eram importadas. Mas ainda estava esperançoso: “A Venezuela tem possibilidade real de passar do subdesenvolvimento ao desenvolvimento, mas só através de um projeto político, não através da dinâmica espontânea do sistema econômico. Este momento venezuelano não se repete muitas vezes na história dos povos. Não permitam que se perca esse momento”.

Muitos anos mais tarde, década de 1990, ele tornaria a escrever sobre a Venezuela, depois de mais uma viagem a Caracas. E concluía: “A única coisa certa era que a oportunidade de saltar por cima do subdesenvolvimento se perdera.”

Todos esses relatórios (a começar pelo “inexistente”) de Celso (e entrevistas) na Venezuela estão num livro que publiquei em 2008, com a Contraponto Editora e o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento: “Ensaios sobre a Venezuela – subdesenvolvimento com abundância de divisas”. (à venda, em papel ou ebook, no site da editora Contraponto.

Rosa Freire d’Aguiar – Jornalista, escritora, tradutora e vencedora do Prêmio Jabuti de 2023 com o livro Sempre Paris.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados