Alta da dívida pública corresponde a aumento de riqueza para os muito ricos
por Lauro Veiga Filho
Num dado amplamente desprezado no debate econômico, o aumento da dívida do governo geral correspondeu a um incremento mais do que proporcional dos haveres financeiros em poder do mercado, incluindo nesta categoria bancos, empresas e famílias mais endinheiradas. Numa leitura mais transparente, o aumento do saldo devido pelos governos central, estaduais e municipais transformou-se em incremento da riqueza financeira detida pelo setor privado, favorecendo principalmente as faixas de renda (muito) mais alta da população em geral, num ganho apropriado, de forma mais objetiva, pela minoria que dispõe de sobras de receitas para participar do cassino de juros altos instalado no País nas últimas décadas.
Os dados oficiais do Banco Central (BC), trabalhados por esta coluna, mostram que a dívida bruta do governo geral, no conceito adotado pela autoridade monetária, sem incluir títulos públicos livres estacionados na carteira do próprio BC, elevou-se de R$ 9,091 trilhões em novembro de 2024 para quase R$ 9,991 trilhões no mesmo mês do ano passado, saindo de 77,50% para 79,02% do Produto Interno Bruto (PIB). O estoque da dívida, portanto, cresceu 9,90% em 12 meses, correspondendo a um acréscimo absoluto de R$ 899,822 bilhões.
Naquele mesmo intervalo, a soma dos haveres financeiros, excluída a caderneta de poupança, registrou alta de 10,31% em valores nominais, avançando de R$ 12,583 trilhões para R$ 13,881 trilhões, em alta de praticamente R$ 1,298 trilhão. As correlações entre as duas variáveis mostram, por exemplo, que a alta verificada para o total de haveres foi 44,20% mais acentuada do que a variação registrada pelo saldo da dívida pública bruta em valores absolutos. Adicionalmente, a relação entre o total de haveres e o volume de riqueza produzido pelo lado real da economia avançou ligeiramente na comparação com novembro do ano passado, variando de 138,42% para 138,94%. Ou seja, a “fábrica” de ganhos financeiros conseguiu superar o PIB em quase 39% no ano passado.
Distorções em cadeia
Em outra correlação autorizada pelos números oficiais, o volume total de riquezas na economia real cresceu de R$ 11,730 trilhões nos 12 meses finalizados em novembro de 2024 para R$ 12,643 trilhões em idêntico período encerrado em novembro do ano passado, demonstrando uma variação nominal de 9,46% nas estimativas do BC, que indicam um incremento de quase R$ 912,773 bilhões. Quer dizer, o ganho produzido pelo lado real da economia foi equivalente a 70,35% do aumento registrado pelo total dos haveres financeiros. Invertendo a equação, os participantes do cassino dos juros altos conseguiram elevar seus haveres numa proporção 42,16% maior do que o volume de riquezas acrescentado ao PIB pelas empresas, pelas famílias e pelo setor público, em conjunto. Esse tipo de correlação, por si mesma, é uma demonstração gritante do tamanho das distorções que proliferam na economia brasileira, desnudando a desproporção entre o lado real da economia e o mundo financeiro – traduzido na crescente influência deste último no processo de tomada de decisões na área econômica.
Para qualificar a variável, aqueles haveres financeiros somam os recursos estacionados em títulos privados emitidos pelo sistema financeiro nacional, sob a forma de depósitos a prazo, letras financeiras e de crédito, entre outros, títulos emitidos por empresas privadas, quotas de fundos monetários, operações compromissadas realizadas com títulos públicos federais e também com títulos privados, além de títulos federais e de haveres detidos por pessoas não residentes no País.
Os juros, sempre os juros
No cenário de juros escorchantes que tem prevalecido no Brasil já há décadas, não causa estranheza que a política monetária continue sendo a principal responsável pelo avanço do endividamento do setor público – muito embora esta evidência não receba o reconhecimento devido pelas correntes de economistas, analistas, comentaristas e consultores que dominam o debate econômico, com larga e generosa presença na mídia corporativa.
Como já anotado, o saldo da dívida bruta, aferida com base nos conceitos estabelecidos pelo BC, apresentou alta de 9,90% com variação de R$ 899,822 bilhões nos 12 meses encerrados em novembro passado. Em igual período, o governo geral recomprou R$ 146,379 bilhões da dívida em circulação no mercado, o que deveria reduzir seu endividamento em igual proporção. Além disso, entre ajustes por conta das variações do câmbio e dos resultados auferidos pelo BC no mercado do dólar, acrescidos de outros ajustes aplicados à dívida externa, o governo conseguiu abater ainda R$ 85,997 bilhões de seu saldo devedor, mais do que compensando o reconhecimento de R$ 27,339 bilhões em dívidas. Na soma daqueles itens, ainda sem considerar os juros, teria sido possível abater R$ 205,037 bilhões da dívida, que já se aproximava de R$ 9,991 bilhões.
O problema central é que os juros impuseram um incremento extra de quase R$ 1,105 trilhão entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, algo como 8,74% do PIB, sobre o saldo devedor total, superando em 22,79% o aumento acumulado pela dívida bruta. Não fossem os juros, portanto, a dívida bruta teria experimentado recuo de 2,26%.
Conceito polêmico
Ainda que o saldo da dívida passe a considerar o valor total dos títulos públicos na carteira do BC, numa aproximação em relação à metodologia escolhida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o impacto dos juros continuaria relevante. Com o acréscimo daqueles papéis, a dívida bruta subiria para R$ 10,102 trilhões em novembro de 2024, algo como 86,12% do PIB, atingindo pouco mais de R$ 11,679 trilhões em novembro de 2025 (perto de 92,37% do PIB).
Sempre em valores nominais, o estoque da dívida bruta total teria crescido, neste caso, 15,61% no mesmo intervalo, correspondendo a uma variação absoluta de R$ 1,577 trilhão. Como já registrado, o valor dos juros apropriados ao saldo devedor ainda corresponderia a 70,06% de todo o acréscimo sofrido pela dívida.
Há um dado adicional a ser considerado aqui. O valor dos papéis públicos na carteira do BC disparou naqueles 12 meses, saltando de alguma coisa inferior a R$ 1,011 trilhão para R$ 1,688 trilhão, numa alta de 66,99% (em torno de R$ 677,097 bilhões a mais). Vale dizer, aquela alta foi responsável, proporcionalmente, por 42,94% do crescimento registrado pela dívida bruta total. Na versão do BC, os títulos federais alocados em sua carteira não deveriam ser incluídos no cálculo do endividamento público, já que, neste caso, a autoridade monetária estaria colocada nas duas pontas, como credora e devedora, simultaneamente, com as obrigações geradas por aqueles papéis incorporadas como receita pelo mesmo BC, literalmente “zerando” a conta.
Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.
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WRamos
4 de janeiro de 2026 1:58 pmParece que tem uma comparação inadequada nestes cálculos. Qual PIB está sendo considerado? O PIB nominal nos 12 últimos meses, ou o PIB corrigido pela inflação até o último mês? Entendo que a última é a forma mais correta para representar o endividamento, mas pelos números parece que se compara dívida corrigida até o fim do período com valor nominal dentro de um ano.
Embora todos façam o cálculo do impacto dos juros sobre o PIB dividindo juros nominais apropriados pelo PIB nominal, também há aí outro erro. O custo financeiro da dívida sobre o PIB calculado em torno de 8% deveria descontar a inflação do período, o que levaria para algo como 3% do PIB.
Também entendo que não dá para taxar todos os detentores de títulos da dívida pública de ricaços ou super ricos. Uma parte muito grande deste saldo é detido, em última instância por trabalhadores que investem poupança moderada, investimento em aposentadoria complementar e expressivas reservas financeiras dos diversos fundos de pensão. O juro é alto para todos, mas os maiores ganhos não estão na posse de ativos financeiros mas na sua intermediação.
José Machado
4 de janeiro de 2026 6:36 pmO funil financeiro é do setor público, setor produtivo, do consumo das famílias para o setor financeiro.
Através do endividamento com juros exorbitantes ou extorsivos.
O endividamento é a *pedra de molar* do sistema financeiro.
Em até 21x, no consumo. E finduciário nos bens mais duráveis.