21 de maio de 2026

Circuito Fluxo-Estoque na Economia Brasileira, por Fernando Nogueira da Costa

Os fluxos de renda dos trabalhadores se dirigem ao consumo e se forem insuficientes eles se endividam. Os rentistas acumulam.
Banksy

Juros altos reduzem consumo dos ricos por incentivo à poupança, mas não afetam diretamente o consumo da maioria da população.
O aumento dos juros encarece crédito para famílias e empresas, elevando preços e limitando consumo popular e investimento.
Política de juros alta gera estagnação econômica, aumento da desigualdade e inflação de custos, afetando negativamente a economia brasileira.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Circuito Fluxo-Estoque na Economia Brasileira

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Fernando Nogueira da Costa

Os rendimentos de juros compostos de investidores em renda fixa em busca do enriquecimento progressivo tendem a ser pouco utilizados para consumismo. Já os rendimentos de aluguel e dividendos distribuídos são mais usados em consumo, assim como os rendimentos do trabalhador sob forma de salário.

Logo, a fixação de uma taxa de juros disparatada só abaixa o consumo das camadas sociais mais ricas e não da maioria da população. O aumento do custo financeiro para as empresas, devido à alta dos juros, é repassado para os preços de bens de varejo e tem um efeito contrário ao pretendido de combater a inflação.

Esta é uma abordagem sistêmica com heterogeneidade de agentes. Essa intuição está correta em parte, mas há mediações importantes. Vou separar o tema em dois blocos analíticos, e depois fechar com uma síntese estrutural.

Antes, apresento um quadro exemplar de como foi o enriquecimento financeiro nesta década. É um estudo de três casos de arquétipos dos segmentos dos clientes do mercado financeiro brasileiro a partir da evolução mensal da taxa de juro Selic.

Observando esse quadro, os juros altos reduzem sobretudo o consumo dos mais ricos. Dado o custo de oportunidade, eles têm maior motivação para poupar seu dinheiro e o deixar acumulando em juros compostos na renda pós-fixada no Brasil.

Essa diferenciação das rendas e riquezas financeiras é essencial. A distinção crucial se dá entre juros compostos com seus rendimentos financeiros acumulativos, onde há alta propensão à reaplicação e baixa propensão marginal ao consumo. Contrapõem-se aos aluguéis, dividendos distribuídos, salários com maior propensão ao gasto corrente.

Essa heterogeneidade, reconhecida na literatura econômica por Keynes (função consumo), por Kalecki (classes e distribuição), e por modelos SFC – Stock-Flow Circuit contemporâneos (Godley–Lavoie), tem uma implicação direta na avaliação da política monetária. Se ela atua quase exclusivamente via remuneração da riqueza financeira, então, o efeito contracionista direto sobre o consumo agregado é fraco, porque incide sobre agentes com baixa propensão marginal a consumir.

Logo, não é verdade a elevação dos juros “esfriar a demanda” de forma simétrica na sociedade. Mas então por qual razão os juros altos funcionam às vezes no combate à inflação?

Aqui entram os efeitos indiretos, os verdadeiros canais relevantes. O canal do crédito é sim potente.

Famílias endividadas com o crédito rotativo dos cartões de crédito, somado ao financiamento habitacional e às compras parceladas sofrem o efeito contracionista. Os juros altos reduzem fortemente o consumo popular, não pela renda, mas sim pela restrição financeira. Portanto, o impacto não passa pelo rentista, mas sim pelo tomador de crédito.

O custo financeiro das empresas é repassado aos preços. Essa hipótese é teoricamente sólida, sobretudo em economias como a brasileira, cuja estrutura de mercado típica é ter empresas altamente endividadas, com crédito bancário caro e operando com mark-up.

Quando os juros estão em alta implicam em custo financeiro mais elevado e aumento do custo médio. Em defesa da margem de lucro, as empresas não-financeiras fazem repasse parcial aos preços. Essa abordagem é kaleckiana, estruturalista e amplamente observada em estudo de economias periféricas.

Juros altos, portanto, podem ter efeito inflacionário em custos, sobretudo em setores oligopolizados. São dependentes de capital de giro e têm demanda relativamente inelástica.

O paradoxo central da política de juros é um ponto-chave: juros altos pouco reduzem o consumo do topo, penalizam o consumo popular via crédito, encarecem custos empresariais, aumentam renda financeira do rentismo, ampliam a concentração de renda, reforçam expectativas de indexação.

Em contextos como o brasileiro, isso gera desinflação fraca, estagnação econômica e regressividade distributiva. Essa estagdesigualdade – estagnação do fluxo de renda e concentração do estoque de riqueza financeira – é o clássico caso de quando “o remédio mata o paciente”.

Minha primeira afirmação é majoritariamente correta: juros altos não reduzem o consumo onde ele é mais relevante macroeconomicamente por via direta da renda. O combate à inflação via juros funciona apenas se a inflação for de demanda, a economia for pouco indexada, o crédito for o principal motor do consumo, e o sistema produtivo for competitivo. Em economias financeirizadas e oligopolizadas, como a brasileira, o efeito pode ser fraco, regressivo e até contraditório.

Vamos formalizar essa intuição em um modelo SFC (Circuito Fluxo-Estoque) com classes, do jeito mais enxuto possível, mas mantendo rigor analítico. Com heterogeneidade distributiva, a política de juros atua por canais distintos.

Considerando cinco setores institucionais, classifico as famílias trabalhadoras (w), tendo como renda seus salários, alta propensão ao consumo e tomadoras líquidas de crédito, e as famílias rentistas (r), obtendo como renda juros, dividendos, aluguéis,  baixa propensão ao consumo e credoras líquidas. Somam-se as empresas (f) capazes de fixar preços por mark-up e dependentes de crédito para capital de giro e investimento. Os bancos (b) concedem crédito (Lw e Lf) e intermediam rendimentos financeiros em depósitos (D). O governo (g) emite títulos de dívida pública e o Banco Central (B) define a taxa de juros básica.

No quadro abaixo, seguindo o Circuito Fluxo-Estoque, a soma dos ativos financeiros é igual à soma dos passivos financeiros.

SetorAtivosPassivos
TrabalhadoresDepósitos (Dw)Dívida (Lw)
RentistasDepósitos (Dr), Títulos (Bg)
EmpresasCapital (K)Empréstimos (Lf)
BancosEmpréstimos (Lw + Lf)Depósitos
GovernoTítulos (Bg)

Os fluxos de renda dos trabalhadores se dirigem ao consumo e se forem insuficientes eles se endividam. Os rentistas acumulam em depósitos a prazo ou de poupança e títulos de dívida pública, com o consumo sendo cortado mais ainda com a elevação dos juros. Os rendimentos financeiros crescem muito, mas o consumo cresce pouco.

As empresas fixam preços por mark-up e repassam os custos financeiros. O custo unitário do trabalho é pressionado diante o aumento dos preços. Ao se elevar, o nível de preços sobe, mesmo sem haver excesso de demanda agregada.

O canal do crédito é o verdadeiro freio da demanda agregada porque afetam o custo financeiro das empresas não-financeiras e o consumo a crédito dos trabalhadores. Portanto, juros altos contraem a economia via restrição financeira, não via redução da renda dos ricos.

Resultado sistêmico do aumento dos juros é elevação da renda dos rentistas, ter pouco efeito direto (fraco) sobre consumo agregado, embora prejudique fortemente o crédito e, portanto, o investimento pelo aumento do custo financeiro. Os preços são elevados em inflação de custos e aumenta a desigualdade.

Estagflação é um “equilíbrio” possível do sistema. Esse modelo mostra formalmente a política de juros atuar muito mais como mecanismo de disciplina financeira e redistribuição regressiva em vez de atuar como instrumento eficiente de controle da inflação, especialmente em economias financeirizadas, oligopolizadas, indexadas e com consumo popular dependente de crédito.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados