1 de julho de 2026

Estruturas arcaicas persistem, por José Manoel Gonçalves

Silvério dos Reis inaugurou no Brasil uma tradição funesta: a de brasileiros que vendem a terra por benefício próprio.
Joaquim Silvério dos Reis

Tiradentes foi traído por Joaquim Silvério dos Reis, que vendeu o país por benefício próprio.
Brasil herdou estruturas coloniais opressoras que persistem na burocracia e dependência econômica.
Em 2026, políticos brasileiros pedem sanções dos EUA contra o Brasil, repetindo traições históricas.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Estruturas arcaicas persistem

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por José Manoel Ferreira Gonçalves

As estruturas que não ruíram

Tiradentes morreu na forca em 21 de abril de 1792. Antes de ter o corpo esquartejado e exposto  pelas ruas do Rio de Janeiro, o alferes brasileiro bradou que daria mil vidas pela liberdade da  pátria. A coragem de Joaquim José da Silva Xavier opõe-se, como um abismo, à pequenez de  Joaquim Silvério dos Reis, o coronel que o denunciou à Coroa portuguesa em troca do perdão  de suas dívidas fiscais. Silvério dos Reis inaugurou no Brasil uma tradição funesta: a de brasileiros que vendem a terra por benefício próprio.

O Brasil nasceu sob o domínio de impérios que impuseram sua vontade a ferro e fogo. Portugal nos legou uma burocracia sanguinária, cuja principal ferramenta era a forca. O Império  britânico, que substituiu o lusitano no comando econômico a partir de 1808, preferiu a  inteligência à truculência, mas manteve a subordinação. Com a Segunda Guerra Mundial,  Londres afundou e Washington assumiu o posto de metrópole. Os Estados Unidos se tornaram  o império mais violento da história moderna, superando em capacidade destrutiva até mesmo  Roma.

A herança da ferida

Herdamos um emaranhado institucional onde governo e Estado se confundem. Não fizemos  uma revolução de libertação nacional. Não houve ruptura limpa com o passado colonial. Por isso, as estruturas arcaicas que deveriam ter desaparecido no século XIX persistem nos porões  do poder brasileiro. Elas se manifestam na burocracia opressora, no cartorialismo hereditário,  na violência policial e na dependência econômica que nos transforma em mero fornecedor de  matérias-primas para as grandes potências.

A ditadura militar de 1964 a 1985 representou o auge dessa herança maldita. Quatrocentas e  trinta e quatro pessoas foram mortas ou desapareceram nas mãos de torturadores dos DOI CODIs. O PCdoB perdeu setenta e nove militantes, a ALN perdeu sessenta e o PCB perdeu  quarenta e um. Cerca de vinte mil brasileiros passaram pelas câmaras de tortura. Os estudantes,  trinta e dois vírgula três por cento das vítimas, pagaram com sangue sua disposição de lutar.

Carlos Marighella, Vladimir Herzog e centenas de nomes menos conhecidos carregaram nas  costas o peso de uma resistência que a história oficial tentou sepultar.

A traição persiste

Agora, em 2026, a traição nacional volta a se alinhar com o império estrangeiro. Eduardo,  Flávio Bolsonaro e Paulo Figueiredo articularam na Casa Branca sanções contra o Brasil,  pedindo ao governo Trump punições a ministros do STF com base na Lei Magnitsky e o  reconhecimento de organizações criminosas brasileiras como se fossem terroristas. Figueiredo  declarou à Folha de S.Paulo que faz esse pedido em toda reunião. Trata-se de brasileiros que  solicitam abertamente a intervenção de uma potência estrangeira contra instituições da própria  nação. Os mesmos que gritam patriotismo nos parapeitos do Planalto vendem a soberania nos  corredores de Washington.

Eles são herdeiros diretos de Joaquim Silvério dos Reis. A mesma lógica move ambos: o  interesse particular sobre o bem comum, a ambição desmedida, a ausência de escrúpulos.  Diferem apenas no cenário. Silvério dos Reis negociou com o Visconde de Barbacena em  Cachoeira do Campo. Eduardo Bolsonaro e Figueiredo negociam com assessores presidenciais  americanos. O ato, porém, é o mesmo: delatar o país em busca de proteção e recompensa.

O Brasil que resiste

Mas há outro Brasil, aquele que não se curva. O Brasil de Frei Caneca, degolado em 1825. O  Brasil de Luís Carlos Prestes, que sobreviveu à ditadura de Vargas e à de 1964. O Brasil das  mães e pais que, desde 1964, buscam os restos dos filhos desaparecidos. O Brasil de Dilma  Rousseff, torturada no DOI-CODI de São Paulo em janeiro de 1970 e eleita presidenta quarenta  anos depois. Este Brasil não aceita que velhas viúvas de luto, vestidas de preto, imponham o  atraso como virtude.

A sociedade brasileira nunca foi conservadora. Somos o país do samba, do carnaval e do  futebol. A ideia de que existe aqui uma base conservadora sólida faz parte da propaganda  fascista que tenta fazer a história andar para trás. Mas o tempo não anda em marcha à ré. As  eleições de outubro serão o campo de batalha onde essa disputa se definirá.

Um povo de fibra

Não somos herdeiros da traição. Somos herdeiros daqueles que enfrentaram a forca com o peito aberto. Tiradentes não recuou. Frei Caneca não recuou. Os guerrilheiros do Araguaia, cercados  por três mil e duzentos soldados, não recuaram. Agora cabe a nós mantermos viva essa corrente.  As estruturas arcaicas que travam o futuro do país precisam ser combatidas nas urnas e na rua.  A traição nacional precisa ser derrotada nas eleições gerais de outubro. O fascismo não passará.

José Manoel Ferreira Gonçalves – Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública. Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador Licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados