10 de junho de 2026

Excesso de agrotóxicos reduz eficiência no combate a pragas, por Lauro Veiga Fº

Os especialistas Féres e Rodrigues afirmam que, além de danos à saúde, excesso de agrotóxicos promove resultados econômicos inferiores.
Pulverização aérea - Cenipa - Divulgação

Consumo de agrotóxicos no Brasil cresceu quase 4 vezes entre 2003 e 2023, com uso intensivo por hectare cultivado.
Uso excessivo reduz eficiência no combate a pragas e afeta fertilidade do solo, além de aumentar riscos à saúde e ambiente.
Mais de 80% dos municípios investigados apresentam sobreuso, com custos maiores que receitas adicionais geradas.

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Uso excessivo de agrotóxicos reduz sua eficiência no combate a pragas

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por Lauro Veiga Filho

O consumo de agrotóxicos no Brasil disparou nos últimos anos, assim como a liberação de novos princípios ativos e de produtos finais, observando-se ainda maior intensidade na aplicação defensivos, numa escalada na aplicação por hectare cultivado. Os dados mais recentes reafirmam a posição de liderança ocupada pelo mercado brasileiro no consumo global e principalmente nos volumes aplicados a cada hectare destinado ao plantio. Numa consequência desse processo de intensificação, tem sido observada uma redução na “sua efetividade ao longo do tempo”, aponta o texto “Sobreuso de agrotóxicos no Brasil”, elaborado pelo técnico de planejamento e pesquisa na Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de inovação, Regulação e Infraestrutura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Diset/Ipea), José Féres, e pela professora do Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Loredany Rodrigues.

De acordo com a dupla de especialistas, ainda que o uso de agrotóxicos “seja uma tecnologia de custo relativamente baixo”, proporcionando aumento dos “rendimentos no curto prazo, seu uso intensivo e contínuo pode afetar os micoorganismos do solo, reduzindo a fertilidade das terras agrícolas”. Em outro resultado contraproducente, o sobreuso contribui para o desenvolvimento de mecanismos de resistência por pragas e patógenos aos ingredientes ativos agregados aos defensivos, “exigindo quantidades maiores e maior frequência de aplicação dos produtos”, o que amplifica impactos sobre a saúde humana e sobre o meio ambiente, com maior contaminação dos solos e da água.

Resumidamente, acrescentam ainda Féres e Rodrigues, as aplicações em alta intensidade de agrotóxicos, “além de potencializar os danos à saúde e ao meio ambiente”, podem “promover resultados econômicos contrários aos esperados”. Por isso mesmo, apontam ainda, “reduzir a ineficiência do uso de agrotóxicos na agricultura brasileira mostra-se, portanto, um objetivo prioritário na agenda de sustentabilidade do setor”. Os autores recomendam estimular o manejo integrado de pragas, com adoção de tecnologias biológicas como alternativa aos químicos, inclusive com uso do crédito rural para promover práticas mais sustentáveis.

A escalada do consumo

Ao longo do período coberto pelo estudo, com dados adicionais da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), a área plantada total de grãos, café e cana de açúcar experimentou elevação de 76,5% em duas décadas, saltando de 51,731 milhões para 91,298 milhões de hectares entre 2003 e 2023. Mas os volumes de agrotóxicos vendidos, em sua versão comercial, foram multiplicados em quase quatro vezes durante igual intervalo. Na série de dados do Sindicato das Empresas de Agrotóxicos (Sindiveg), as compras de agrotóxicos pelos produtores, incluindo áreas de pastos e de lavouras, cresceram 290,94%, saltando de 375,05 mil para 1,466 milhão de toneladas também entre 2003 e 2023. O levantamento realizado por Féres e Rodrigues aponta um incremento de 344% no mesmo período, estimando o consumo anual em 800 mil toneladas em 2023 diante de 180 mil duas décadas antes.

Nos registros do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o consumo de ingredientes ativos pela agropecuária cresceu em proporção semelhante à indicada pelo estudo, com ligeiras diferenças para os números anuais. Conforme acompanhamento do instituto, o setor havia consumido 169,86 mil toneladas de ingredientes ativos em 2003, volume catapultado para 755,49 mil toneladas ao final de 2023.

Ainda de acordo com Féres e Rodrigues, a promulgação da nova Lei dos Agrotóxicos (Lei nº 14.785), sancionada em dezembro de 2023, acentuou “o aumento no ritmo da liberação de agrotóxicos”. Segundo a Coordenação Geral de Agrotóxicos e Afins (CGAA) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o registro de novos agrotóxicos cresceu 19,46% em 2024, para 663 novas formulações, saindo de 555 em 2023 – ano em que havia sido registrada baixa de 14,88% diante de 652 liberações ao longo de 2022, um recorde até então. No ano passado, a coordenação liberou o uso de 912 produtos, nada menos do que 37,46% acima dos números de 2024, atingindo novo recorde. Na média, forma liberadas 544 substâncias por ano entre 2016 e 2025, em torno de 346% acima das 122 autorizadas anualmente entre 2000 e 2015.

A nova legislação não apenas transferiu o poder de veto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ibama para o Mapa como acelerou os prazos de análise dos processo de liberação de novos produtos, levando ao salto mais recente naqueles registros, comentam Féres e Rodrigues.

Na avaliação dos dois pesquisadores, fatores centrais têm contribuído para que o Brasil ocupe a liderança no mercado global de defensivos, a começar pela expansão da área destinada à exploração agrícola, associada ainda ao avanço no uso de sementes modificadas geneticamente para resistir ao glifosato e ainda ao clima tropical, “que não concede ao País os benefícios advindos do inverno para interromper o ciclo das pragas”. Adicionalmente, acrescentam Féres e Rodrigues, “o clima tropical brasileiro permite o cultivo de múltiplas safras cujo plantio durante todo o ano favorece o desenvolvimento e a permanência de pragas e doenças”.

Feitas as ressalvas de ordem agronômica e técnica, a dupla de especialistas detalha que a taxa de aplicação atingiu perto de 10,9 quilos por hectare nos dados de 2021 coletados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) e publicados em 2024. “Esse dado coloca o Brasil também no topo do ranking mundial em intensidade de uso, superando países como os Estados Unidos (2,85 kg/ha) e a China (1,9 kg/ha)”, constatam.

Os dados dos censos agropecuários de 2006 e de 2017 registram ainda que os gastos realizados com agrotóxicos por hectare de área cultivada foram mais intensos e generalizados nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, que concentram as lavouras de soja, milho e cana de açúcar. Juntas, aquelas culturas respondem por 76% do consumo de agrotóxicos no Brasil, anota ainda o estudo.

Maior ineficiência

O estudo passa então a identificar os municípios brasileiros com registro de uso excessivo de agrotóxicos, recorrendo ao conceito de “receita marginal adicional dos agrotóxicos (RMA)”. Sob o ponto de vista meramente econômico, considera-se como nível ótimo de aplicação quando a RMA equipara-se à unidade, indicando níveis equivalentes de receitas e custos. Quando essa relação superar a unidade, registram os pesquisadores, “dizemos que o estabelecimento agrícola sobreutiliza o insumo, uma vez que a receita adicional decorrente da utilização adicional de insumo é inferior ao aumento do custo associado”.

Na média de 5.171 municípios investigados em todo o País, com base nos números do censo agropecuário, “o percentual total de municípios com evidências de sobreutilização ultrapassou a marca de 80% em 2017”. Na média, um aumento de R$ 10 nos gastos com agrotóxicos “leva a uma receita adicional de R$ 3,20 nos municípios intensivos na produção de soja”, atingindo R$ 2,60 no Centro-OIeste para o mesmo nível de despesas. Nas áreas de uso mais intensivo de sementes geneticamente modificadas, a relação cai de R$ 10 em custos para receitas adicionais de apenas R$ 1,21, o que se compara com R$ 1,25 no Centro-Oeste.

Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.

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