Graciliano Ramos atualizado, por Urariano Mota

Graciliano Ramos atualizado, por Urariano Mota

No mais recente 20 de março, a lembrança do dia da morte de Graciliano Ramos deu margem à repetição de erros sobre o escritor na imprensa. Isso, claro, nos espaços mais cultos da mídia, porque no geral o escritor não foi sequer lembrado. Então vieram aquelas clássicas visões do genial mestre em que se destacam a secura do seu estilo, o enxuto,  só ossos, porque a sua obra devia ser reflexo imediato de Vidas Secas. E desse livro, que tomam como romance, logo o autor se torna um Fabiano a caminhar em paisagem árida, espinhosa de mandacaru.

No mesmo dia 20, quando se noticiou o lançamento do livro “Um escritor na capela”, que faz uma homenagem ao escritor comunista que sofreu prisão no Estado Novo, partiu-se para a menção, de passagem e rápida, de Memórias do Cárcere. Ora, todas as vezes em que se fala sobre literatura na mídia, e sobre Graciliano Ramos em particular, eu me torno mais que cinco sentidos de atenção.  E me digo: “alerta, aí vêm topadas e tapados”. E mais uma vez não me frustraram. Com efeito, num salto acrobático foram de Vidas Secas a Memórias do Cárcere. E como se nada dissessem, falaram que a obra máxima das memórias políticas no Brasil, foram publicadas na primeira edição “em dois volumes”. Uma luz vermelha se acendeu em mim, “aí tem – o que é isso?”. Então da sala onde eu estava me vieram à lembrança os volumes da primeiríssima edição da José Olympio, que comprei num golpe de sorte no sebo, desprezados como papel velho. Fui então até a estante e alisei feliz os livros de capa amarela. Ali estavam “os dois”  isto é, o Graciliano real e o da mídia.

Na manhã seguinte, caí na pesquisa. Eu queria saber, de onde vinha semelhante barbaridade? E descobri: a fonte principal era a Wikipédia. Essa é a enciclopédia virtual do jornalismo preguiçoso, que por não ter informação ou experiência dela se vale na prensa e na pressa. Lá estava: “Memórias do Cárcere é um livro de memórias de Graciliano Ramos, publicado postumamente em dois volumes” (Destaque meu) Então me deixei ler sem pressa, por preguiça de mudar de fonte, a mesma página. E pude ver, entre outras coisas, esta difamação:

“Diz o crítico Wilson Martins, a respeito da censura que o livro sofreu, adulterando o original do autor para sempre:

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‘Houve também na história dessas relações, a grande crise provocada por Memórias do Cárcere. Sabia-se que o PCB exerceu forte pressão sobre a família de Graciliano Ramos para impedir-lhe a publicação, acabando por aceitá-la à custa de cortes textuais e correções cuja verdadeira extensão jamais saberemos. Nas idas e vindas entre a família e os censores do Partido, resultaram, pelo menos, três ‘originais’, datilografados e redatilografados ao sabor das exigências impostas. Supõe-se que o último deles recebeu o imprimatur canônico, acontecendo, apenas, que, na confusão inevitável de tantos ‘originais’, as páginas escolhidas para ilustrar os volumes diferiam sensivelmente das impressas, suscitando dúvidas quanto à respectiva autenticidade’.

Wilson Martins, in: Gazeta do Povo

Ainda segundo o crítico, fez publicar a denúncia no jornal O Estado de S. Paulo, recebendo então acerbas críticas do PCB, o que para ele era a comprovação da veracidade das alterações feitas na obra que, após reveladas, haviam incomodado o editor, José Olympio.”

De fato, o crítico direitista escreveu o que está acima. Mas integrá-lo como única interpretação para obra e escritor tão fundamentais é, no mínimo, cumplicidade com a sua visão de mundo. E como sei da extensão do erro que se propaga no jornalismo cuja única fonte é a Wikipédia, mudei e acrescentei no verbete Memórias do Cárcere, que pode ser visto aqui https://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%B3rias_do_C%C3%A1rcere_(livro) :

“Memórias do Cárcere é um livro de memórias de Graciliano Ramos, publicado postumamente, em setembro de 1953, em quatro volumes……………..

No entanto, a viúva do escritor, Heloísa Ramos, e os filhos de Graciliano, Ricardo e Clara, mais tarde confirmaram a autenticidade do livro publicado com o texto original. Ver a biografia “O velho Graça – uma biografia de Graciliano Ramos”, de Dênis de Moraes, no trecho https://books.google.com.br/books?id=5JyVbUYWh1AC&pg=PT296&lpg=PT296&dq=%22mem%C3%B3rias+do+c%C3%A1rcere%22+autenticidade+originais&source=bl&ots=KPy8qvVZXh&sig=TDBif2cuR_6_-czppSVv0mcPvYE&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiu8cS_wOfSAhXCD5AKHTp0APAQ6AEINDAE#v=onepage&q=%22mem%C3%B3rias%20do%20c%C3%A1rcere%22%20autenticidade%20originais&f=false

Até a publicação deste artigo, o verbete Memórias do Cárcere ainda estava na informação atualizada acima. De boa consciência, creio não haver editor à direita que possa contestar os depoimentos da viúva e filhos do escritor, assim como destruir a existência física dos quatro volumes da belíssima primeira edição da José Olympio.

E para melhor compreensão da verdade da obra, divulgo a seguir alguns parágrafos de Memórias do Cárcere, do livro que tem o subtítulo de Pavilhão dos Primários. Dele copio paciente o trecho que vai da página 171 à 174, da primeira edição:

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“O porão do navio Campos era muito diverso. Justapuseram-se ali duas sociedades inconciliáveis: uma afeita às ideias e aos costumes regulares, mais ou menos confessáveis e permitidos; outra incursa em velhas censuras, em desprezos e temores públicos, dirigindo-se por normas ignoradas cá fora, regras absurdas. A primeira, centena e meia de políticos, aglomerava-se à entrada, em silencioso assombro, a atividade morta; a segunda, quatrocentos ou quinhentos malandros, vagabundos, ladrões, refugo tumultuoso, fervilhava e zumbia naquele esgoto social como um formigueiro assanhado. O número superior e adaptação completa ao meio tinham suprimido nos últimos qualquer vestígio de constrangimento ou pejo: mexiam-se à vontade, expondo os seus costumes, horríveis mazelas, não parecendo sentir a abjeção… Haviam organizado uma espécie de governo. A polícia, lá de cima, incumbira disso Moleque Quatro, indivíduo reimoso, forte na capoeira. Esse poder se exercia discricionário, simultaneamente justiça e execução, regido por leis próprias, reconhecidas e inapeláveis.

No movimento e na balbúrdia realizou-se um processo. Moleque Quatro nomeara alguns assessores: mantinham, com ameaças e rasteiras, a ordem singular das cloacas humanas e, em caso de necessidade, incorporavam-se em tribunal. Essa guarda temerosa reconheceu um acaguete a dissimular-se na multidão, pegou-o, levou-o rápida ao chefe e logo se transformou em júri. O acaguete é um delator – e para ele os criminosos são inexoráveis. O descoberto naquela noite veio trêmulo e mudo, com duras contas a agravar-se em depoimentos medonhos de testemunhas furiosas, num instante convertidos num libelo coletivo. Nenhuma defesa. Ouvidas as culpas, Moleque Quatro refletiu, coçou a carapinha e decidiu:

– Vai morrer.

No estranho julgamento o carro andava diante dos bois: proferia-se a sentença e depois os jurados se manifestariam; confirmavam-na ou recusavam-na, mas não seria fácil absolverem um sujeito sumariamente condenado, esmagado por acusações tremendas. Aceitaram a decisão, unânimes:

– Vai morrer.

Nesse ponto o infeliz, aturdido, pareceu despertar. Caiu de joelhos, balbuciando súplicas abjetas:

– Seu Quatro, pelo amor de Deus. Eu sou casado, sustento família. Tenha pena de meus filhos, seu Quatro.                 

O negro ouvia impassível:

– Não tem jeito não. Vai morrer.

Causava assombro a ideia de que fosse possível realizar-se ali, perto de homens fardados e armados, uma execução. Provavelmente queriam apenas intimidar o desgraçado. A firmeza dos juízes, a curiosidade ansiosa da assistência, as covardes lamúrias do réu, desviavam essa conjectura. A gente da superfície via a máquina subterrânea a funcionar – e arrepiava-se. Imaginara a existência dela, uma existência vaga, apanhada em jornais e em livros. A realidade não tinha verossimilhança. Estava, porém, a entrar pelos olhos e pelos ouvidos. Mãos a torcer-se no desespero e o rogo choroso:

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– Tenha pena de meus filhos, seu Quatro.

Esboçou-se uma horrível piedade na cara do negro. E veio comutação da pena: 

– Está bem. Não vai morrer. Vai sofrer trinta enrabações.

É medonho escrever isso, ofender pudicícias visuais, mas realmente não acho meio de transmitir com decência a terrível passagem do relatório de Chermont. A nova sentença foi aprovada com alvoroço. Desfez-se a assembleia. E a um canto, cercado por exigências numerosas, trinta vezes o paciente serviu de mulher. Não era o único: outros já se estavam dedicando a esse exercício. Um político esbarrou num casal, não conteve exclamações de surpresa.

– É besta? exclamou o passivo entortando o pescoço, erguendo a cabeça, indignado. Nunca viu homem tomar …

As incursões naqueles domínios tinham perigos, sujeitavam pessoas incautas a ofensas graves e equívocos vergonhosos. Notando isso, alguns imprudentes recuaram num sobressalto, foram agrupar-se junto à escada, na luz que vinha da escotilha. Mas não se acharam em segurança; rondas agoureiras mostravam claro o intuito de subordiná-los à regra ordinária; com certeza seriam forçados a defender-se em luta física. Não chegaram às vias de fato. Percebendo a situação, Moleque Quatro exibiu prestígio e força, amorteceu os intentos agressivos com diversos rabos de arraia:

– Em comuna aqui ninguém toca.

Alongou o braço, indicou uma linha indecisa, a limitar os dois campos:

– Este pedaço é dos comunas, o resto é nosso. Aqui ninguém bole com eles. Agora se algum passar pra lá, não garanto nada.

A imaginária fronteira impediu atritos; o esboço de rixa extinguiu-se, e durante a viagem as duas facções detiveram-se ali, a alguns centímetros uma da outra, como se um muro as separasse. As mais altas autoridades lá de cima não teriam meio de fazer-se respeitar assim”.    

Assim foi, assim é o nosso Graciliano Ramos, atualizado nesta semana do aniversário do seu falecimento.  

Publicado no Vermelho http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8347&id_coluna=93

 

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3 comentários

  1.  É meu carissimo

     
    É meu carissimo Urariano,você troxe um assunto que adoça os meus sonhos.Graciliano Ramos,ou o velho Graça para o mais íntimos como Joel Magno Ribeiro da Silveira.Entendi que corretamente você faz uma merecida homenagem ao maior escritor brasileiro,aos meus olhos.Por um lapso,esqueceu-se de mencionar o mais extraordinario,profundo e deslumbrante romance de Graciliano,e o mais belo já escrito no Brasil.Angustia.Por obvio,você está perdoado

  2. Novo livro
    Caro Urariano, de fato, de Graciliano muito se fala (nos meios literários, pelo menos), mas nem tanto se lê. Para quem busca o aprofundamento de uma faceta de Graciliano pouco estudada (a do homem público), recomendo a leitura do meu livro Graciliano Ramos e a administração pública. Comentários aos seus relatórios de gestão à luz do Direito Administrativo moderno, que será lançado provavelmente em maio pela Editora Fórum. Atenciosamente Fábio Lins

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