A Mega Máquina de Mumford está parando. O que virá depois?
por Marcio Valley
Em textos anteriores discorri sobre a ideia que o filósofo francês Jean Baudrillard apresentou ao mundo: a de que toda a suposta realidade que prevalece no discurso da dominação é virtual, tratando-se de um simulacro criado para ocultar a realidade “real” subjacente a essa que vivenciamos. Segundo ele, tudo é simulacro, não existe uma realidade real. Ou seja, vivemos numa realidade planejada e construída para atender aos interesses de quem controla a máquina exploradora, assim permitindo que a extração de energia dos seres humanos seja realizada pacificamente, com eles em coma, anestesiados ou hipnotizados pelo discurso.
Essa ideia é explorada em filmes como “Matrix” ou “O Show de Truman”, nos quais o indivíduo não sabe que toda a sua experiência de vida é passada num ambiente de realidade virtual, portanto, falsa, e que há uma realidade real e concreta que ele jamais conseguiu enxergar até o início de sua jornada de herói.
O pensamento de Baudrillard, de vida vivida em uma falsa realidade construída a partir do nada, fez surgir o conceito de “deserto do real” mencionado pelo personagem Morfeu no filme Matrix, querendo significar um espaço vital caracterizado por total ausência de real; um mundo no qual tudo é ficção criada pela elite em seu próprio benefício.
Porém, esses filmes também transmitem o alento de que é possível, sim, escapar da armadilha discursiva e enxergar o real oculto por camadas e camadas de simulações e simulacros construídos diuturnamente pela elite para manter o controle social. No filme “Matrix”, a cura ocorre através da ingestão da “redpill” (pílula vermelha), tomada para abrir os olhos para a verdadeira realidade, ciente de que a realidade real é absolutamente inóspita; caso o indivíduo queira permanecer no real virtual, um mundo confortável por ser conhecido, deve ingerir a pílula azul.
Isso também é possível na realidade real, não através de pílulas iluminadoras, mas da aquisição de conhecimento. Contudo, a falsa realidade alcança, também, o próprio conhecimento, afetado que é através da propaganda direcionadora de conteúdos. Por conta disso, a massa do povo se restringe, quando muito, além da educação formal imprescindível para apertar os botões corretos e textos necessários para a aplicação técnica, a acessar o tipo de cultura que é divulgado pela indústria cultural como importante de ser conhecido, que, em sua maioria, é constituído por obras de entretenimento portadoras de mensagens subliminares de validação do sistema (filmes da Marvel, p.ex.); quanto à leitura, basicamente textos religiosos, de entretenimento superficial e autoajuda, importantíssimos para acalmar inexoráveis desesperos provocados pelas neuroses sistêmicas.
Assim, os efeitos da pílula vermelha não se fazem sentir apenas após uma ou duas leituras, exigindo um esforço constante em direção ao conhecimento multidisciplinar. Nesse aspecto, os misóginos da machosfera que se autoproclamam “redpills” estão muito longe desse conceito; são “bluepills”, não somente imersos até a cabeça na fraude estrutural, como partícipes da falsidade, divulgadores da ideia tão disparatada como a de que são os homens os prejudicados pela sociedade feminista, uma noção distorcida, completamente inversa aos fatos demonstrados pela História e, atualmente, pelos jornais, que jamais publicaram tantas notícias de mulheres sendo espancadas ou mortas por homens. Tenho convicção de que esses casos se multiplicaram a partir da ascensão da narrativa machista bolsonarista que estimulou a saída dessa machosfera redpill dos armários da vergonha nos quais se escondiam, mas não tenho provas. Seria interessante um estudo acadêmico sobre essa questão.
O ponto importante aqui é que tudo isso é absolutamente estrutural; faz parte da sociedade desde o nascimento e a massa das pessoas sequer pensam na possibilidade de existência de alternativas: esse seria o único modo de vida possível e o conhecimento que carregam representam a realidade e a sabedoria.
Bem, algumas pessoas – filósofos, sociólogos, historiadores, cientistas políticos e sociais, psicólogos, psicanalistas e outros de diversas áreas do conhecimento – pararam para pensar o mundo e a humanidade. Perceberam que a realidade efetivamente vivida está longe de ser aquela que racional e logicamente deveria existir. Trata-se uma realidade com um nível de suor, sangue, dor e sofrimento imposto a uma tal quantidade de pessoas que desafia o conceito de humanidade e de inteligência.
Dentre essas pessoas está Lewis Mumford (1895-1990), pensador humanista americano autor dos livros The Myth of the Machine Vol. I (Technics and Human Development, 1967) e Vol. II (The Pentagon of Power, 1970), além de um sem-número de outras publicações sobre várias áreas distintas do conhecimento.
Embora se tratem de livros com cerca de sessenta anos, versam sobre uma questão que se apresenta contemporânea: os resultados negativos obtidos pela sociedade humana a partir do modelo de produção, que ele denomina de “Mega Máquina”, adotado pela elite dominante ao longo de toda a História, desde a Antiguidade.
O conceito de “Mega Máquina” envolveria uma máquina abstrata cujas engrenagens reais seriam os seres humanos, capturados ao longo da História por elites autoritárias através da manipulação discursiva, principalmente de teor religioso, mas também a partir da manipulação de outras narrativas mais contemporâneas, porém com a mesma capacidade de influenciar as massas, como patriotismo, combate à corrupção e defesa da família e da moral. Aqui não se coloca em xeque o valor desses institutos, apenas salienta-se que os discursos que os utilizam são comumente fraudulentos, utilizados para impactar as massas e conduzi-las na direção desejada pela elite (ou seja, em direção ao aumento de seu poder e riqueza). Uma dessas elites, a egípcia da época das primeiras pirâmides, por exemplo, teria convencido o povo a servi-la por meio do convencimento de que os faraós seriam os próprios deuses de seu panteão encarnados na condição humana. Soa familiar? Sim, o método é exaustivamente repetido a partir do uso político de outras religiões e de outros valores sociais, sempre com sucesso. O povo é suscetível a isso.
Nessa estrutura hierárquica autoritária, os indivíduos são vistos apenas como peças substituíveis, totalmente descartáveis, individualmente desimportantes, da grande máquina criada para realização das obras desejadas pelos donos do poder desde então: da construção das pirâmides, seis mil anos atrás, até uma espaçonave para Marte nos dias atuais; da construção dos gigantescos sistemas de irrigação chineses, quase três séculos AEC, até a abertura do Canal do Panamá, em 1914; da semeadura e colheita de uma “plantation”, no século XVII, até a morte de incontáveis milhões de soldados ocorridas no front de toda as guerras já realizadas (nesse caso, a Mega Máquina é militar).
Importante salientar que a Mega Máquina é anterior ao capitalismo e dele não necessita para existir. A única ferramenta imprescindível à elite para o controle da Mega Máquina é a construção e manutenção de uma narrativa ideológica que lhe favoreça e justifique a imposição de um sistema hierárquico opressivo, normalizado pela população através do discurso.
Uma característica interessante da Mega Máquina de Mumford é que, na origem, as peças da máquina não eram mecânicas, mas exclusivamente humanas. Aliás, chega-se a defender a ideia de que é somente isso (a capacidade de reunião em torno de um projeto grandioso) que distingue os seres humanos dos animais considerados irracionais, pois o tradicional pensamento de que o diferencial seria o uso de ferramentas não encontra amparo na experiência empírica, dado que muitos animais possuem habilidades superiores às do ser humano ancestral no que concerne ao uso de ferramentas e manipulação da natureza. Pense na casa do João de Barro, no dique construído pelos castores, nos formigueiros, nas colmeias de abelhas e tantos outros exemplos de maravilhas da natureza atribuídas aos instintos. É claro que os formigueiros ou colmeias seriam perfeitos exemplos de reunião massiva de indivíduos para a consecução de grandes projetos, o que poderia comprometer a ideia da Mega Máquina como distinção humana. Porém, a ausência de uma estrutura hierárquica autoritária impede a comparação. Em formigueiros ou colmeias, a rainha não pode ser classificada como um indivíduo hierarquicamente superior aos demais; ela apenas exerce o seu papel instintual, assim como fazem as outras formigas. Não é a formiga-rainha que decide individualmente construir um formigueiro e “manda” as demais formigas fazê-lo; cada uma delas toma essa decisão por si mesma, movida somente pelos instintos.
O diferencial humano nesse tipo de pacto coletivo de realização de grandes projetos reside na inclinação subserviente que possui: primeiro, de obedecer comandos de outro indivíduo igual a si e, segundo, de obedecer esses comandos mesmo quando claramente contrários aos seus interesses individuais e de espécie. Sem comando central algum, formigas e abelhas modificam a natureza em benefício da própria espécie (conservação genética) e, se possível, também dos indivíduos (em termos de segurança alimentar, de abrigo e contra predadores), sem com isso causar impacto ambiental negativo.
Convencido a submeter-se ao autoritarismo da Mega Máquina, o ser humano pratica, de modo acrítico e passivo, uma feroz rapinagem contra a natureza que beneficia quase que exclusivamente a elite da própria espécie, prejudicando a si próprio, como indivíduo, e a todas as outras espécies viventes do planeta, inclusive a sua.
Há algo de terrível, assustador e, ao mesmo tempo, patético e depressivo (pela demonstração inequívoca da pouca inteligência coletiva que daí decorre), na quantidade de lixo produzido diariamente pela humanidade; são mais de seis milhões de toneladas/dia e mais de dois bilhões/ano. Isso é, atualmente, o maior dilema da humanidade: simplesmente não se sabe o que fazer com tanto lixo. A lógica capitalista impede, inclusive a reciclagem, pois é mais barato extrair mais matéria-prima da natureza, mantendo e ampliando o ciclo de destruição (por muitos chamado de “progresso” ou “desenvolvimento”). Diversos animais selvagens, principalmente marinhos, estão literalmente morrendo sufocados por lixo humano. Em Niterói, o lixo humano acumulado chegou à altura de um morro médio e matou quase cinquenta pessoas de uma comunidade nele instalada, em 2010, ao deslizar em decorrência das chuvas. Pense nisso: uma montanha urbana literalmente erguida com lixo humano. Não é só em Niterói; existem incontáveis “montanhas de lixo” ao redor do mundo.
Em geral, a vida denominada de “não inteligente” não produz lixo no sentido que imprimimos à palavra. Sociedades de formigas e abelhas retiram da natureza apenas o que necessitam e tudo que descartam é biodegradável, com rápida reincorporação saudável ao ambiente. Carnívoros produzem como lixo apenas as carcaças de suas presas e os próprios dejetos, ambos igualmente biodegradáveis e com impacto ambiental positivo (servem de alimento para animais menores e o que sobra vira adubo e solo). Vegetais não somente não produzem lixo como suas partes caídas ou toda a planta, após o fim dos respectivos ciclos vitais, juntam-se à terra para formar o solo necessário às demais vidas.
A imensa quantidade de lixo humano constitui evidência direta e cabal de que o ser humano não é tão inteligente como pensa ser. Além disso, comprova que os produtos humanos, além de serem demasiados, não duram como deveriam durar para reduzir o impacto ambiental. Sim, precisamos de celulares; mas por que tantos modelos, tantas atualizações cosméticas e tão pouca duração? O mesmo ocorre com quase todos os artefatos humanos. Somos capazes de produzir produtos para durar décadas, inclusive roupas, calçados, veículos, eletrodomésticos e, claro, celulares. Isso somente não ocorre por contrariar a lógica do capitalismo que estimula o hiperconsumo (a peça chave do Esquema Ponzi capitalista) como meio de aumentar os lucros e, consequentemente, a riqueza da elite. A obsolescência programada atende a esse propósito, com os produtos sendo projetados para durar somente um certo (pouco) tempo.
A elite demonstra pouca ou nenhuma preocupação com a conservação da natureza ou com o bem-estar dos seres humanos. Bem ao contrário disso, ela é a principal responsável pela poluição, tanto na qualidade de consumidora como também, e principalmente, de dona dos meios de produção, fabricantes de produtos supérfluos, vagabundos e de pouca duração, cuja fabricação desinteligente e incessante demanda cada vez mais e mais matéria-prima, enquanto pelas chaminés lançam uma quantidade gigantesca de gases tóxicos na atmosfera.
De fato, segundo o relatório “World Inequality Report 2026” (https://wid.world/news-article/world-inequality-report-2026-inequality-persist-at-a-very-extreme-level/), produzido pela organização World Inequality Lab, laboratório de pesquisa da Escola de Economia de Paris, utilizando pesquisas realizadas por cientistas sociais de todas as partes do mundo, o décimo superior da população mundial em termos de riqueza e renda (por volta de 400 milhões de pessoas), é responsável por 77% de toda a poluição da atmosfera (emissões de carbono), enquanto uma quantidade de pessoas dez vezes superior a essa (mais de 4 bilhões), que representa a metade inferior da população mundial em riqueza e renda, é responsável por apenas 3% dessas emissões. É como se, num prédio com 100 moradores, 10 deles respondessem por 77% de todo o lixo a ser recolhido, 40 por 20% e 50 por apenas 3%. Ou seja, os privilegiados, além de serem responsáveis pela miséria humana, são também culpados pela contaminação do ar que todos os seres vivos respiram e pelo consequente aquecimento global.
Logo no segundo parágrafo do artigo, aventei a questão dos resultados negativos obtidos pela “Mega Máquina” ao longo da História. Isso significaria que não houve, historicamente, avanços em saúde e condições gerais de vida? De modo nenhum. Avanços ocorreram e isso é inegável. Porém, em números absolutos, jamais tantas pessoas padeceram de miséria e vida em condições degradantes como as que padecem atualmente. Números absolutos, ressalto, representa uma realidade concreta, palpável, que médias costumam omitir. Cada um dos seres humanos atuais que passam fome é importante e valioso; sua vida não pode ser relativizada.
Aqui é importante chamar a atenção para a leitura apropriada de indicadores apurados pela média: médias não representam o real, apenas uma pálida sombra disso. A apresentação de médias é como um “deserto do real”, uma simulação que não possui nenhum contato com o real, totalmente construída no âmbito da abstração, servindo ao propósito de ocultar, eufemizar ou produzir uma miragem da realidade. Não sendo possível expressar um real multifacetado ao extremo e fundado no horror da miséria humana, apresenta-se a média como um substituto absolutamente falho. Duas pessoas, uma com rendimento mensal de um milhão de reais e outra com dois mil reais, produzirão uma renda média de quinhentos e um mil reais, sendo risível a aplicação desse indicador como demonstrativo de “melhoria” na renda das pessoas. Médias não devem ser utilizadas para análise de distribuição de riqueza e renda.
Concretamente falando, em termos absolutos, em 2025 quase setecentos milhões de pessoas passaram fome, enquanto outros dois bilhões padeceram de insegurança alimentar (não ter certeza de que conseguirá se alimentar a cada dia), conforme relatório “Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo” das Nações Unidas (https://brasil.un.org/pt-br/319712-relat%C3%B3rio-da-onu-fome-atinge-645-milh%C3%B5es-de-pessoas).
A mesma ONU noticia (https://brasil.un.org/pt-br/317460-novo-relat%C3%B3rio-da-onu-aponta-caminhos-para-enfrentar-crise-global-de-moradia) que cerca de três bilhões de pessoas ao redor do mundo, também em 2025, experimentaram algum tipo de insegurança habitacional, num gradiente que se estende de teto nenhum a tetos de extrema precariedade.
São números que representam, um pouco mais ou um pouco menos ao longo dos anos, toda a população mundial do século XVIII, no primeiro caso, e do século XX, na década de 1960, no segundo caso.
Resumindo, em 2025, setecentos milhões de pessoas não tinham o que comer e onde morar, enquanto outras 2,3 bilhões de pessoas tinham algo ralo para comer sob o teto de papelão no qual tentavam se proteger de intempéries e predadores humanos ou animais. Penso que esses números, dada a grandiosidade e monstruosidade que representam, merecem uma reflexão antes do prosseguimento na leitura.
Simplesmente não há paralelo histórico em termos absolutos e, repito, não é possível relativizar isso. Guardadas as devidas proporções, seria como festejar a sabedoria dos donos do Titanic por terem colocado vinte botes salva-vidas a bordo, quantidade que superava a obrigação legal de então, sem considerar o fato dramático de que mais de mil e quinhentos passageiros morreram por falta de botes e/ou pelo uso inadequado dos que existiam; tudo em nome do lucro.
Esses números tornam quase inacreditável verificar a quantidade de pessoas da população comum (pobres ou classe média) dispostas a defender a continuidade de um sistema que as vê como meras engrenagens descartáveis de uma máquina desenvolvida para beneficiar uma porção infinitesimal da população. E como buscam freneticamente números (em geral, falsos) sobre pessoas mortas nos poucos casos concretos de países que se tornaram comunistas, com o objetivo de fortalecer a tese equivocada de que o capitalismo é melhor porque não mata o povo ou, quando muito, de que mata menos.
Não estou defendendo o comunismo, embora de fato entenda que a ascensão desse sistema político-econômico seja inexorável caso a humanidade logre alcançar um estágio avançado de inteligência coletiva. Aliás, é quase inacreditável que pessoas, muitas e muitas delas, ainda estejam num estágio tão primitivo do conhecimento que as leva à percepção da igualdade material de direitos como vício e não virtude. Essa incredulidade é ainda maior com os que se dizem “cristãos”; não aprenderam nada com Jesus.
Aqui me limito a destacar a existência de inúmeras falácias na defesa do capitalismo, como se não tivesse sido e continue a ser responsável por centenas de milhões de mortes ao longo dos últimos 200 anos, seja por fome, doenças ou guerras, e também pelas dificuldades extremas, com muita dor e sofrimento, nas vidas vividas pelos que ousam sobreviver. Segundo esse discurso falacioso, as poucas pessoas bem-sucedidas são sempre exemplos do triunfo meritocrático capitalista, enquanto os bilhões que sofreram, adoeceram ou morreram são culpados pelo próprio calvário, são “losers” que mereceram o destino que tiveram.
Porém, ao menos em sua vertente capitalista, a histórica rapinagem produzida através da Mega Máquina parece estar com os dias contados. Isso porque o capitalismo, em sua essência, já morreu. Estamos na fase do capitalismo tardio, financeiro, rentista, autofágico, destruidor de si mesmo. Atualmente, a Mega Máquina tornou-se alimentadora de um capitalismo que funciona como um Esquema Ponzi, dependente de produção incessante, cada vez maior, para alimentar a voracidade dos multimilionários ao mesmo tempo em que mantém em suspensão a falência inevitável.
Mas, não é só isso. A própria Mega Máquina, com ou sem capitalismo, está parando.
Como dito, no início dos tempos não havia elementos não humanos na Mega Máquina. Aos poucos, porém, eles foram surgindo: a roda; o arado, a carroça, o tear manual, os engenhos de vento, as máquinas a vapor e por aí vai. A gradual substituição das engrenagens humanas por mecânicas jamais cessou e está se acelerando com o avanço tecnológico. O desenvolvimento da inteligência artificial parece chegar como a pá de cal no sistema de produção da Mega Máquina.
Em tempos idos, chegou-se a pensar (como Aristóteles) que, com a substituição por máquinas, os seres humanos ganhariam mais tempo para gozar a vida de forma plena, dedicando-se ao conhecimento puro e ao desenvolvimento das artes. Isso, porém, jamais ocorreu. No que toca aos trabalhadores, a tecnologia produziu apenas (1) a máxima exploração do trabalho dos que conseguiam emprego; (2) uma massa de desempregados (reserva de mão de obra); e, depois, (3) o desemprego estrutural.
Se trouxe pouco ou nenhum benefício para a imensa maioria dos indivíduos, para o centésimo superior da população (talvez menos), proprietários e controladores dos meios de produção e do capital acumulado, as aplicações tecnológicas realizadas na Mega Máquina resultaram em aumento substancial do acúmulo de riqueza.
O já mencionado relatório “World Inequality Report 2026” não deixa por menos ao declarar textualmente “O mundo está ficando mais rico, mas de forma desigual”. Em outras palavras, as aplicações tecnológicas estão, de fato, contribuindo para o crescimento econômico, o qual, todavia, não beneficia o andar de baixo.
De fato, segundo o relatório de 2026, o décimo superior da população mundial detém 75% de toda a riqueza global, enquanto a metade inferior da população mundial divide 2% do patrimônio existente.
Em paralelo, nesse mesmo sentido, o relatório de Contas Financeiras dos Estados Unidos de 2025, produzido pelo Federal Reserve, nos EUA, país considerado ingenuamente um exemplo em termos de liberalismo econômico, justiça, democracia e liberdade, o centésimo superior da pirâmide de riqueza (1%) concentra atualmente cerca de 32% da riqueza do país, o equivalente ao patrimônio total de 90% do restante da população (https://www-forbes-com.translate.goog/sites/katharinabuchholz/2026/01/30/wealth-of-the-1-reaches-decade-high-in-the-us/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc&_x_tr_hist=true).
Um por cento da população possuindo patrimônio equivalente ao de noventa por cento da população é de um grau de insanidade coletiva absurdo. Esse é, na verdade, com alguma variação, o panorama encontrado em todos os países capitalistas do mundo: altíssima concentração de riqueza e renda.
Disso decorre a constatação evidente de que todo e qualquer aumento da produtividade é apropriado e beneficia, e possivelmente sempre beneficiará, essencialmente, apenas a elite dominante (os multimilionários).
Como já dito antes, médias não são bons espelhos da realidade. Especificamente no caso da apuração de riqueza e renda, melhor seria o conceito matemático de moda, que forneceria os conjuntos de repetições de dados. Nesse caso, saberíamos com maior precisão de que modo estão distribuídos os bens e as rendas da humanidade por segmentos específicos da população. Creio que não causaria surpresa em ninguém a constatação de que uma única pessoa no mundo possui, ou controla, riqueza maior que o 11º PIB do mundo, o brasileiro, estimado em 2,4 trilhões de dólares em 2025.
Num mundo de regulações nacionais e internacionais feitas sob medida para ocultação de patrimônio e renda, a tarefa seria impossível. Por isso, costuma-se utilizar os dados oficiais das declarações prestadas ao Fisco ao redor do mundo, que são fraudulentos, fictícios. Afinal, ninguém declara valores que oculta em paraísos fiscais ou através de uma rede de “laranjas”.
A mesma tecnologia que, nesse momento, está favorecendo o aumento da riqueza dos já ricos, é o veneno que matará o sistema, a Mega Máquina. Há um paradoxo que se torna mais e mais evidente com o passar do tempo: a Mega Máquina em breve deixará de necessitar da engrenagem humana, substituída por artefatos mecânicos e tecnológicos, inclusive naquilo que se considerava a maior distinção do ser humano: o pensamento. A inteligência artificial dificilmente chegará a possuir as emoções humanas, porém sua capacidade racional, lógica e metodológica quase certamente será superior, e muito mais veloz, do que a humana. A Mega Máquina não precisa de emoções, precisa de decisões certas na hora certa. A inteligência artificial será capaz disso.
Todavia, quando isso ocorrer, qual será a utilidade da Mega Máquina? Sem trabalhadores humanos não haverá renda, portanto a produção será dispensável, não existirão consumidores. Sem renda, a imensa maioria da população poderá sucumbir, reduzindo o mundo a esparsas e pequenas cidades com poucos habitantes, tornando desnecessária a execução de grandes projetos de engenharia. Com poucas pessoas no mundo, os conflitos armados tendem a diminuir ou desaparecer, de modo que a Máquina Militar também será dispensável. E num mundo sem consumidores, não haverá lucro para ampliar as fortunas.
Qual seria, então, a vantagem de substituir seres humanos por robôs, androides e inteligência artificial? Caso a elite dominante fosse consciente das tenebrosas perspectivas do futuro, seria a oportunidade de tornar a Terra o jardim que deveria ter sido desde o início dos tempos, o que poderia ser obtido com redução severa das jornadas e aumento substancial da renda. Há gordura suficiente para isso e sem que os ricos deixem de ser ricos; a fortuna conjunta acumulada inutilmente pelos multimilionários comprova. Também se poderia pensar na redução gradativa da população através de planejamento familiar, sem necessidade de guerras. Com um filho por mulher, em cerca de 60 anos chegaríamos à metade da população atual, o que já ampliaria significativamente o espaço vital disponível para a humanidade e para os demais seres vivos. Poderíamos ir além; penso que uma população de dois bilhões de pessoas seria mais saudável para a manutenção da espécie e para vida dos indivíduos.
Contudo, para o tipo de pessoas que compõem a elite existente concretamente no mundo, do tipo ave de rapina, não há vantagem nenhuma, sendo de fato surpreendente que insistam no projeto Mega Máquina. O que, então, estaria subjacente a esse projeto?
Um projeto de futuro que se amolda ao tipo de elite existente em nosso mundo seria o de redução brutal e repentina da população mundial, deixando apenas uma quantidade administrável a partir da perspectiva de ausência de trabalho e de renda. Uma das formas de atingir esse objetivo seria dar início à Terceira Guerra Mundial, com lançamento de milhares de ogivas nucleares armazenadas em silos de lançamento mundo afora. O “Projeto Terceira Guerra” parece já ter sido acionado. As guerras atuais mais em evidência, Ucrânia x Rússia e Israel-EUA x Irã, ambas parecem não ter sentido algum e, apesar disso, ambas possuem, ridiculamente, ampla possibilidade de escalar para um conflito mundial.
Com um cálculo cuidadoso sobre o limite de radiação possível de ser liberada, talvez isso custasse pouco tempo de abrigo em bunkers luxuosos para os milionários e seus escolhidos (possíveis futuros servos), esperando a atmosfera retornar aos níveis de normalidade. Depois, com apenas poucos milhões de seres humanos sobreviventes, quem sabe poderiam criar os Campos Elísios na Terra para eles mesmos? Claro, com serviçais disponíveis. Se fosse esse o caso, a continuidade da Mega Máquina, sem humanos, ainda teria validade. Grandes projetos para o proveito de uma população bem menor que a atual, mas ainda expressiva, continuariam a existir, como usinas de produção de energia abundante; meios de transporte individuais e coletivos para trajetos de qualquer distância; despoluição do ar e dos mananciais de água; reflorestamentos; satélites, estações espaciais e terraformação de Marte (os Elons continuarão a existir); e diversos outros.
Num cenário de mundo pós-apocalíptico possivelmente desmonetizado e com um reduzidíssimo número de pessoas, o poder deixaria de ser embasado na mera riqueza, passando a sê-lo na efetiva capacidade de controle exercida sobre os outros. Em essência, isso significaria um retorno a algo similar ao sistema estamental medieval, com nobres, clero e plebeus. Estes últimos necessários à realização das poucas atividades que ainda restariam, possivelmente em alguns serviços domésticos, ciências, tecnologia, artes e entretenimento. Poderosos sempre gostaram de servos, mecenato, menestréis, gladiadores e bobos da corte.
É claro que, num campo minado como seria o de um pós-guerra dessa magnitude, também surgiria a possibilidade de os sobreviventes do povo aproveitarem o vácuo de poder para tomá-lo para si. Porém, se a inclinação ideológica da média desses sobreviventes for similar à atual, que demonstra acentuada subserviência aos interesses da Mega Máquina, trata-se de possibilidade bastante remota.
O fato é que estamos no limiar de uma profunda modificação no cenário social mundial. Até onde minha visão alcança, só existem quatro possibilidades: 1) avançar civilizatoriamente, construindo uma sociedade menos desigual, mais justa e digna o que exigiria a implementação de políticas socialistas de governo (não confundir com comunismo); 2) retroceder aos tempos do feudalismo (denominado de tecnofeudalismo pelo escritor Yanis Varoufakis), com os seres humanos das classes desfavorecidas totalmente submetidos aos caprichos do tecno-senhor feudal (os donos das big techs); 3) sofrer uma redução brutal e repentina da população mundial, permissiva do prosseguimento da dominância atual num modelo de ausência de consumismo e de lucro; ou 4) ocorrer uma revolução comunista mundial, hipótese praticamente nula.
As possibilidades 2) e 3) são bastante sombrias, mas ainda é possível evitá-las.
Nos EUA, país com possivelmente a população mais afeiçoada ao capitalismo do mundo, as ideias socialistas já começam a se impor. O povo estadunidense começa a perceber a armadilha que é o capitalismo. Milhões e milhões de americanos moram em seus próprios carros, em barracas de camping, em trailers ou em túneis abandonados, demonstração inequívoca do fracasso capitalista no maior modelo de país capitalista.
O Brasil, nesse quesito, infelizmente retrocedeu. Meio século atrás, o povo entendia com mais clareza a necessidade de eleger governantes e parlamentares com discursos políticos generosos, contra os preconceitos em geral, antidiscriminatórios, enfim, com uma orientação benéfica ao povo, como o desenvolvimento de setores produtivos geradores de emprego e renda, moradias dignas, saúde e educação públicas de qualidade, transporte público eficiente, segurança energética e hídrica, defesa do meio ambiente e outras necessidades coletivas. Em resumo, partidos e políticos cujas plataformas possuíam vocação socializante, ainda que em partidos de direita.
Atualmente, candidatos vinculados a temas de violência, que passam longe de objetivos altruístas, estão recebendo votação expressiva de parte do eleitorado. Candidatos que não têm vergonha alguma de usar uma camisa ostentando uma mensagem extremamente violenta como “Eu pacificamente vou te matar”. Candidatos adeptos do discurso do “bandido bom é bandido morto” e da defesa do armamento generalizado. Tais candidatos claramente não estão preocupados com a segurança pública, mas em disseminar uma narrativa eleitoral benéfica a si próprios ou à Mega Máquina.
Segurança pública de verdade se faz garantindo o devido processo legal; que ninguém seja abordado por policiais sem uso de câmara corporal que os proteja de incriminações falsas, mas também garanta que o cidadão não será vítima de violência policial gratuita. Dar a policiais um ingênuo voto de confiança de que somente matará bandidos, o que por si já é errado, sem prova concreta de confronto armado, nada mais representa do que a garantia de que todos providenciarão a famosa “vela” (arma colocada na mão do inocente que mataram), usada para justificar “autos de resistência” fraudulentos que decorrem, na verdade, de erro de avaliação na abordagem ou mesmo do intuito de matar aquela pessoa.
Evidentemente que existem exceções, porém, em geral, candidatos que usam títulos como “coronel tal”, “sargento sicrano”, “juiz beltrano”, “delegado fulano”, “promotor assim”, “doutor assado”, “pastor qual” e outros desse tipo, costumam ser estelionatários eleitorais, utilizando o cargo que ocupam ou ocuparam como uma espécie de “carteirada” capaz de simular uma boa índole que, no mais das vezes, estão longe de possuir. São pessoas que pretendem usar a política em favor de seus próprios interesses. Não possuem um discurso socialmente relevante, apego a causas altruístas, projeto político benéfico socialmente ou preocupação ética no exercício do mandato.
O eleitor deve procurar conhecer o passado do candidato, saber de quais movimentos participou e que categorias ou que direitos defendeu. Caso não o faça, melhor utilizar o voto de legenda, ou seja, votar diretamente no partido ideologicamente mais adequado ao seu perfil político.
A cada eleição o povo recebe uma nova oportunidade de mitigar o poder da Mega Máquina, basta votar em candidatos que se opõem à crueldade do sistema. Todo e qualquer candidato que seja contra o fim da escala 6×1 ou a favor de um empreendedorismo falso como vender bala no sinal, fazer entregas para aplicativos ou dirigir um Uber, para ficar nesses exemplos, é cúmplice direto da Mega Máquina.
O mundo, a começar pelo nosso país, pode ficar menos pior; depende apenas de escolhas verdadeiramente inteligentes, o que passa por entender o que de fato a pessoa quer para si mesma e para todos.
A Mega Máquina capitalista está parando de funcionar. A sociedade que emergirá após o seu fim depende da materialização de um grande projeto coletivo: escolher o lado progressista das forças políticas em combate.
O discurso do conservadorismo moral e do liberalismo econômico é aliado poderoso da Mega Máquina e não deve ser conselheiro na hora de escolher representantes políticos, salvo, é claro, para os que tem vocação para a alienação e servidão.
O eleitor inteligente talvez seja o último obstáculo a ser superado pela Mega Máquina.
Torçamos por ele.
Marcio Valley é formado em Direito pela UFF, com pós-graduação em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho
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