20 de agosto de 2026

Maria Pangula: Rainha do Repente do Piauí, por Eduardo Pontin

Cantadeira enfrentou o preconceito de frente e tornou-se o maior nome feminino da Cantoria de Viola do estado piauiense
Maria Pangula, a Cantadeira sem igual | Foto: Paulo César Saraceni (1976)

Maria Pangula, nascida em Simplício Mendes (PI), tornou-se a Rainha do Repente do Piauí, enfrentando desafios sociais e culturais.
Após trabalhar em condições análogas à escravidão em Teresina, Pangula conquistou reconhecimento e inspirou o Festival de Violeiros do Norte e Nordeste.
Faleceu em 1990, sem registros fonográficos, mas deixou legado de resistência e luta contra racismo e machismo na cultura do repente.

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Série Piauí Cultura Regional (31)

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Maria Pangula: Rainha do Repente do Piauí

por Eduardo Pontin

Maria Pangula, mulher, negra, sertaneja, pobre e mãe solo conquistou em vida o título de Rainha do Repente do Piauí. Criadora de versos desconcertantes e bordões de viola batidos nas regras da arte, a Cantadeira tornou-se uma das maiores violeiras de todos os tempos. Mas para chegar a esse posto teve de enfrentar muito cabra macho convencido na Cantoria com Repentes irreverentes e na vida empunhando um cacete de madeira de lei. Altiva, gostava de se apresentar com os dedos repletos de anéis, nas orelhas brincos dependurados e no pescoço uma corrente cordão de ouro. Tudo isso na primeira metade do Século 20, entre Teresina e povoados do sertão piauiense. O Programa SOL (Saberes, Oralidade e Literatura), ligado à UESPI, está realizando uma campanha online para que Maria Pangula receba da Câmara Municipal de Oeiras uma homenagem oficial. Para contribuir é rápido e simples, basta clicar aqui.

Com vocês, a trajetória de Maria Pangula, a Matrona dos Cantadores do Piauí.

Primeiros passos em família

Nascida em meio à pandemia da Gripe Espanhola de 1918, num lugar onde o distanciamento social entre as casas era natural, Maria da Anunciação do Senhor, imortalizada como Maria Pangula tinha que vingar. Pangula nasceu no sertão piauiense em Simplício Mendes, no Vale do Canindé. Para se ter ideia da extensão de Simplício Mendes nesse tempo, basta dizer que o território abrigava várias cidades que hoje são emancipadas, como Isaías Coelho, Paes Landim, Campinas do Piauí, Santo Inácio do Piauí e Floresta do Piauí. Simplício, hoje, possui ao menos 5 comunidades quilombolas: Aroeiras; Campo Grande; Nego do Mato; Pegador; Salinas e Angicos. Teria Pangula nascido num desses quilombos?

O Poeta Espedito de Floresta, nascido em 1928, concedeu a mim e à jornalista Francisca Sousa depoimento expressivo sobre os primórdios dessa região:

“Na parte do desenvolvimento e da educação, foi a terra do sofrimento, sem estrada, sem transporte, sem professor. Morria mulher de parto sem ter a quem chamar. Gente nascia e se criava até a maioridade com um pano preto na cara, sem professor”.

Localização de onde Pangula nasceu

Criada pela avó, logo Maria recebeu o carinhoso apelido de Gulinha, que em pouco tempo se transformou em Pangula e, em sua vida artística, tornou-se seu sobrenome. Filha de Maria da Conceição e de José Ribeiro dos Santos, Pangula teve uma infância sofrida. Como boa parte das crianças do sertão nordestino daquela época, Pangula ajudava os pais na lida da roça e não teve chance de se alfabetizar. Do trabalho na enxada à caça de animais silvestres, de tudo a pequena Maria fazia para ajudar a família a superar a fome.

Percebendo que a labuta pesada naquele sol escaldante não seria negócio, pouco depois de conquistar a sua maioridade, com 22 anos, decide rumar para Teresina, a cerca de 400 km de distância da sua cidade, deixando uma filha pequena para a família criar. A vontade de largar a enxada era grande e a jovem não teve medo, pelo contrário, transpirava coragem.

Teresina – sofrimento sem pai nem mãe

Em 1941, um homem abastado de Simplício estava com sérias dificuldades em encontrar uma empregada doméstica e então propôs a Pangula que lhe acompanhasse até Teresina. Porém, o picareta fez Maria trabalhar 6 meses sem lhe pagar nenhum centavo. Quando Pangula lhe pediu um trocado para comprar roupa, já que as suas estavam todas desgastadas, o patrão safado lhe disse que os 6 meses de trabalho eram pra pagar os custos que ele havia tido com a passagem de Simplício para Teresina. Essas foram as boas-vindas da capital piauiense à Pangula: 180 dias de trabalho em condições análogas à escravidão. Então certa noite Maria fugiu e, seduzida pelos bordões de violão que escutava e pelo manto de estrelas que a cobria, parou num botequim, onde fez amizades e a vida começou a andar. Pangula encarava tudo para se virar na vida: de doméstica passou a cozinheira e a babá.

Cantoria de Viola

Simplício Mendes é terra tradicional de Cantoria e, ainda hoje, na localidade Papagaio, ocorre um encontro de violeiros repentistas. Não é nenhum exagero imaginar que Pangula tenha vivenciado noites de Cantoria que ficaram fixadas em sua memória antes de ir morar em Teresina.

Além disso, muito possivelmente presenciou o Reisado em Simplício, onde este folguedo também é tradicional. Já em Teresina, passou a brincar na Folia de Reis, dançando com uma vela acesa na cabeça.

Até que o Baião da Viola de um Cantador chamado Oscar Pereira encantou aquela jovem. Esse Baião não é o mesmo de Luiz Gonzaga, mas sim o toque plangente da Cantoria de Viola que serve como pano de fundo musical para os repentistas improvisarem. Oscar vinha do interior “morto de fome, magro, velho”, segundo a própria Pangula. Percebendo o encanto da garota, Oscar lhe ensinou a tocar viola e a cantar uns romances de Cordel, ao que Maria retribuiu com cuidados para ele melhorar de saúde e… dessa troca de afetos, nasceu um relacionamento amoroso.

Pangula recebeu de presente de Oscar a sua primeira viola e passou a fazer dupla com o repentista, entoando folhetos de Cordel, passando a ganhar seu dinheirinho por aí. Entretanto, o velho Cantador pouco depois se engraçou com outra mulher e o relacionamento foi desfeito. Não foi fácil esquecer Oscar, por isso, Maria deixou a viola e as coisas do coração um pouco de lado.

Mas com o tempo tudo se restabeleceu e Pangula voltou a ativa, quando começou a sua peregrinação como Cantadeira de Viola, a entoar na velha estação de trem de Teresina romances de Cordel que havia aprendido com Oscar: “História da Princesa Rosa” (de Leandro Gomes de Barros); “Coco Verde e Melancia” (José Camelo de Melo Resende); “As Proezas de João Grilo” (de João Ferreira de Lima); e “História do Valente Sertanejo Zé Garcia” (de João Melquíades Ferreira da Silva).

Pangula começou na Cantoria entoando romances de Cordel

O Mito Pangula

O mito Maria Pangula começava a nascer. Ela chegava a beber impressionantes 3 litros de conhaque por noite, ou um litro de tiquira, bebida alcoólica artesanal típica de alguns estados do Nordeste. Pangula se gabava de saber beber, “viola minha nunca foi babada. Eu bebia, brigava, mas meu instrumento sempre foi zelado”.

Nessas bebedeiras, Maria se deparava com alguns vagabundos, mas a Cantadeira sabia se defender e, quem não a respeitasse, logo era apresentado ao seu jucá, pau de madeira de lei ainda hoje utilizado em arte de defesa quilombola piauiense, considerada uma antepassada da Capoeira. E onde Maria havia conseguido aquele pau? “Tomei de um soldado em Timon”. O mito Maria Pangula passou a povoar os 4 cantos de Teresina e a Cantadeira não apenas era respeitada como também temida.

Seu canto dialogava diretamente com os saberes cantados de matriz africana, uma voz cheia, grave, séria e altiva. Para o poeta Cineas Santos, um canto agreste, uma Clementina de Jesus do Nordeste. Voz de quem tinha que domar uma pequena multidão nas noites de Cantoria a céu aberto no semiárido piauiense. Por isso sua voz não se adocicava ou se abria num agudo, mas se salgava e se fechava num tom grave. Para prender a atenção do povo que pagava para escutá-la, sua voz fortaleceu-se em modulações e trejeitos característicos, como uma espécie de marca pessoal de canto.

Ao criar versos, não se preocupara com detalhes artificiais, como jogo de palavras ou linhas milimetricamente metrificadas. Falava das coisas simples do povo, de seu dia a dia e de seus sofrimentos, com palavras compreensíveis a qualquer pessoa de qualquer classe social. Por vezes, para arrematar a rima, recriava palavras ou as dizia conforme a sua necessidade. Pangula rompia noites de Cantoria com altivez e empoderamento, fazendo crescer a admiração por seu nome e sua arte.

A Matrona dos Cantadores do Piauí | Foto: Rosinha (1987)

Pé na estrada

Segundo Félix Aires, outras mulheres violeiras já haviam fincado o seu nome na história da Cantoria de Viola do Piauí no início do século 20, com destaque para Zefinha do Cabochão, Teresinha Tiétri, Maria Tebana, Silvina e Zefinha Anselmo.

É importante frisar que Pangula iniciou sua trajetória como Cantadeira na década de 1940, época em que carro ou moto eram itens de luxo e o percurso dos repentistas interior adentro era feito ora a pé, ora montado em lombo de jumento. Tempo sofrido para quem vivia da suprema arte do improviso, como Maria.

Pangula então caiu no mundo como Cantadeira, até que foi parar na afamada cidade de Codó, no Maranhão, município com população majoritariamente negra e riquíssimo em expressões culturais afro-brasileiras. Em Codó, Pangula teve a sua arte reconhecida e conseguiu regressar ao Piauí com dinheiro suficiente para comprar uma casa e uma “redona boa”. Era definitivo: Maria havia deixado pra trás a vida de enxada, doméstica, cozinheira, babá para enfim conseguir viver de sua própria arte. De Teresina, Pangula percorria grandes distâncias para se apresentar, em viagens para cidades como Água Branca (100 km), Elesbão Veloso (170 km) e Picos (310 km).

Nesse meio-tempo, conheceu José Pereira Santos, com quem teve dois filhos. A família caía no mundo para acompanhar a matriarca provedora de todos, o que era garantido com sua garbosa viola e os repentes que tirava do juízo

Entre os versos de autoria de Pangula imortalizados, é possível destacar a seguinte sextilha:

Sou Maria Pangula
Nunca frequentei a escola
O que a vida me ensinou
Trago tudo na cachola
O que você faz com a caneta
Eu também faço com a viola

A piauiense Maria Pangula e a cearense Luiza Falcão em noite de Cantoria | Foto: Acervo Casa do Cantador

Oeiras

Certa vez, Maria Pangula adoeceu e foi fazer uma cirurgia em Oeiras. A Cantadeira fez promessa de ir à tradicional procissão de Bom Jesus dos Passos para dar água a quem tivesse sede. A poetisa se curou, mas faltava o dinheiro para regressar a Teresina, já que o pescoço de sua viola havia quebrado e ela não tinha recursos suficientes para comprar uma nova. Impedida de trabalhar com seu instrumento para levantar a verba, Pangula contou com a generosidade de um homem, que confiou naquela mulher necessitada e lhe emprestou dinheiro sem a conhecer.

Quando Pangula regressou a Teresina, fez uma parada no Bar São José, no Centro, onde foi aclamada pela comunidade do Repente da capital piauiense, que a colocou em cima de cadeiras pra que pudessem ouvir sua voz decidida e seus versos certeiros. Naquele mesmo dia, Pangula ganhou dinheiro suficiente para quitar o empréstimo com o homem que lhe ajudou a comprar a viola em Oeiras.

Ainda na cidade de Oeiras, chegou a passar algumas temporadas, onde se apresentava com o Cantador Pedro Lima, percorrendo municípios da região, como Inhuma. Porém, após mais de um ano de cantorias, Maria resistiu a uma investida de Pedro e desfez a dupla.

Casamento e enxada

Em fins de 1950, Maria recebeu pedido de matrimônio de José Alves de Barros, a quem respondeu: “não vou deixar minha viola por homem nenhum”. Mas José insistiu e, em 1959, aos 41 anos e com seis filhos, Maria Pangula casava-se pela primeira vez na igreja. O padre, moralista, sabendo da carrada de filhos de Pangula, não quis casá-la, quando escutou a seguinte argumentação da violeira: “Seu padre, eu nunca me casei em minha vida; o marido que eu tenho é uma viola, e é com ela que dou de comer a meus filhos”. O padre aceitou.

Maria foi então morar com José em Inhuma, a 250 km de Teresina, mas sua previsão estava certa. Não chegou a deixar a viola, mas diminuiu a Cantoria e voltou para a vida de roça, plantando cana, cortando madeira, caçando tatu. Rapidamente Pangula percebeu que aquilo não era vida e deu um ultimato no marido pra que fossem pra Teresina. Na capital piauiense, Pangula tinha seu lugar de honra entre os Cantadores.

Casa de Maria Pangula em Teresina | Foto: Ria Lemaire

Inspiradora do Festival de Violeiros do Norte e Nordeste

Em 1970, quando o recenseador do IBGE Pedro Ribeiro cumpria a sua função na casa de Maria Pangula, uma resposta lhe tocou profundamente:

– Profissão?

– Violeira

Violeira… que meio de sustento mais poético, que maneira de enfrentar a vida mais encantadora! Aquilo soou como música para Pedro. Naquela ocasião, Maria informou ao recenseador que estava sem cantar pois não tinha mais viola. A frase não apenas sensibilizou Pedro, como também correspondeu a uma espécie de chamado para não deixar o Repente no Piauí morrer.

Foi assim que Maria Pangula tornou-se fonte de inspiração para Pedro Ribeiro começar a pesquisar o universo da Cantoria e do Cordel, criando, em 1971, o I Festival de Violeiros do Norte e Nordeste. Pedro tornou-se poeta repentista e um dos mais dedicados pesquisadores do gênero, lançando livros relevantes, como “Segredos do Repente” (1977), “A Casa do Cantador” (1995) e “Domingos Fonseca – Imortal do Repente” (2013). A partir de sua aproximação com Pedro Ribeiro, Maria passou a ser conhecida em Teresina como Vovó Pangula. Que encontro abençoado o IBGE promoveu a cultura brasileira!

Profissão: Violeira | Foto: Ria Lemaire

Prestígio

Em 1976, Pangula participou do documentário “Laço de Fita – O Folclore do Piauí”, do aclamado diretor carioca do Cinema Novo Paulo César Saraceni. Assista:

O folclorista piauiense Noé Mendes, também nascido em Simplício Mendes, gostava de levar Pangula para se apresentar em universidades, quando a Cantadeira sentia-se plenamente prestigiada. O escritor e poeta Cineas Santos a levou para se apresentar pela primeira vez no Theatro 4 de Setembro, quando participou do show “Cenas Piauiense – o Rio”. Noutra feita, também por iniciativa de Cineas, Maria foi condecorada nesse mesmo teatro com uma medalha de prata, homenagem que recebeu com muito carinho.

Em 1983, chegou a se apresentar em Brasília, quando foi participar do IV Festival Nacional de Cantadores Repentistas, Cantadores de Coco e Escritores Cordelistas. Neste evento, a Cantadeira piauiense seria homenageada ao lado de grandes nomes do Repente brasileiro, como Patativa do Assaré, Pinto do Monteiro, Lourival Batista, Paulo Nunes, Manoel D’Almeida, Carolino Leobas, Zefinha Cantadeira e Rodolfo Cavalcante.

Na capital, ao receber a homenagem, Pangula impressionou a todos ao cantar sextilha, galope, martelo, quadrão e desafio. Em 1985, foi uma das atrações da inauguração da Casa do Cantador, entidade destinada aos violeiros repentistas do Piauí e do Nordeste. Na ocasião, Maria cantou diversos versos, entre os quais, é possível destacar:

Meu peito superior
Quem tá cantando é Pangula
Preta velha que é caçula
Na Casa do Cantador

Em 1987, Cineas Santos lançou pela heroica Edições Corisco o livreto “Maria Pangula”, com entrevista da repentista concedida a Rosa Pereira da Silva e Cristina Batista.

Livreto que é a maior contribuição à memória de Maria Pangula | Edições Corisco

Por essa época, já em seu fim de vida, passou a fazer apresentações de forma mais rara, principalmente ao lado do Cantador Vicente Evangelista. Nesse período, em suas cantorias, o público apreciava quando a Cantadeira entoava a dramática canção “Criança Morta”, de Sebastião da Silva e Moacir Laurentino.

Eternidade

Maria Pangula partiu para a eternidade no dia 4 de setembro de 1990. O mercado fonográfico voltado a Cantoria de Viola sempre atuou de modo restrito, oferecendo poucas oportunidades ao poeta repentista. Devido ao machismo, mulher violeira era muito raro conseguir gravar um disco, por isso, infelizmente Maria Pangula não deixou nenhum registro fonográfico.

Após a sua partida, dos poetas Sebastião da Silva e Moacir Laurentino que tanto cantou em vida, recebeu homenagem após a sua morte em sextilhas:

Da floresta brasileira
Cantou flores e cipós
Seu nome está numa placa
Só não temos sua voz
Pangula nunca morreu
Ainda vive entre nós

Você por aqui cantou
Nos deu imensa alegria
Querida Vovó Pangula
Que até se chamou Maria
Poetisa igual a ela
Esse Nordeste não cria

Em 2026, realizou-se o 51° Festival de Violeiros do Norte e Nordeste em Teresina, evento inspirado em Maria Pangula. A Casa do Cantador na capital piauiense celebrou, em 2025, seus 40 anos de atividades e hoje mantém-se como uma das poucas instituições dessa natureza que atua em prol da Comunidade do Repente e do Cordel. Graças ao encontro físico e espiritual de Pedro Ribeiro e Maria Pangula. Neste ano, o escritor Rogério Newton inaugurou em Oeiras o Sebo de livros Maria Pangula.

Logo após a partida da violeira, o cordelista Pedro Costa publicou o Cordel “Reminiscência de Vovó Pangula”, materializando em versos o valor da cantadeira piauiense:

​É melhor que respeite esta Vovó,
A estrela de nossa Teresina,
Enfrentei repentista de Campina,
Dei em todos que vi em Mossoró,
João Pessoa, Natal e Maceió.
Fortaleza o meu nome é respeitado
E cantando um martelo agalopado,
Violeiro só faz o que eu quiser,
Que o homem que apanha de mulher
Nunca pode dar parte a delegado

Cordel em homenagem a Maria Pangula | Pedro Costa (1990)

O inspirado Poeta Cordelista Márcio Mendes, conterrâneo de Maria Pangula, lhe dedicou os seguintes versos:

Desde os tempos mais antigos,
Nosso Nordeste puro e decente
Tem sido castigado e mal falado
Pela língua de muita gente

Mas para a nobre arte
Não tem limite nem fronteira,
Ninguém pode calar a voz
De Pangula Cantadeira

A voz negra do Repente,
Que versava como açoite,
Nasceu do Simplício
Em novembro de 1918

Preta, pobre, analfabeta,
Pangula foi nobre repentista,
Sem estudo, sem prata nem ouro,
Deus lhe deu diploma de artista

Quem tiver ouvido escute,
Quem tiver goela engula,
Que a Rainha do Repente
É a nossa Maria Pangula

Maria Pangula lutou contra o racismo, o machismo, o moralismo, a pobreza e tantos outros obstáculos. Numa época em que tudo isso acontecia de forma mais extrema, a Cantadeira deu prova de coragem, se impôs e venceu. Hoje Maria Pangula é celebrada como a Rainha do Repente do Piauí e uma das maiores de todo o Nordeste, deixando um testemunho de vida de luta e resistência às mulheres violeiras e repentistas, num legado que atravessa gerações. Viva Maria Pangula!

Maria Pangula, um nome de respeito na Cantoria de Viola

Eduardo Pontin é etnomusicólogo e escritor indicado ao Jabuti e premiado pelo Concurso Sílvio Romero do IPHAN por seus trabalhos sobre a Lezeira (dança afro-indígena piauiense) e o Samba de Cumbuca (Samba rural piauiense). No campo da preservação documental, é o organizador do Acervo Nêgo Bispo. Produtor fonográfico da série discográfica “Lezeira do Sertão do Piauí” (field recording).

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Eduardo Pontin

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