20 de maio de 2026

O lavajatismo é o filho bastardo que hoje disputa a herança do poder, por Sabrina Kurscheidt

O PSD, apesar de sua capilaridade e organização, enfrenta dificuldades para produzir um nome que dialogue com o eleitorado conservador.
Ratinho Jr e Sergio Moro - Reprodução

Ratinho Jr. lança Sandro Alex ao governo do Paraná para disputar liderança da direita contra Sergio Moro em 2026.
Moro lidera pesquisas com mais de 50%, enquanto grupo de Ratinho Jr. tem apoio institucional, mas baixa mobilização eleitoral.
Fragmentação da direita favorece campo progressista; eleição em Curitiba e recuo de Ratinho Jr. indicam mudança no cenário.

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O lavajatismo é o filho bastardo fora do casamento que a direita não queria reconhecer:  mas que hoje disputa a herança do poder

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por Sabrina Kurscheidt

A decisão de Ratinho Junior de lançar Sandro Alex como candidato ao governo do Paraná não pode ser compreendida apenas a partir de uma lógica eleitoral convencional. Não se trata de maximizar as chances de vitória em 2026, nem de apresentar o nome mais competitivo disponível. Trata-se, antes de tudo, de um sintoma da disputa do controle da direita, que envolve o cenário posterior ao ciclo político inaugurado por Jair Bolsonaro. O Paraná se tornou um espaço privilegiado para observar essa reorganização. De um lado, há uma direita institucionalizada, que opera por meio de mandatos. Esse campo é representado por Ratinho Jr., que reúne elevados índices de aprovação e controle político significativo sobre prefeitos e estruturas partidárias. De outro lado, há uma direita que emergiu com força a partir da Lava Jato e que se consolidou durante o bolsonarismo, marcada por um discurso moralista, anti-político e fortemente mobilizador. Essa vertente encontra em Sergio Moro sua principal expressão no estado.

As pesquisas de intenção de voto revelam com clareza essa assimetria. Moro lidera com ampla vantagem, alcançando patamares superiores a cinquenta por cento em determinados cenários. Em contraste, os nomes associados ao grupo governista permanecem em níveis residuais, isso quando são citados. Esse descompasso expõe um sintoma da política moderna que o meio digital possibilitou: a capacidade de governar e manter altos índices de aprovação não se traduz automaticamente em liderança eleitoral ou em capacidade de organizar uma base política mobilizada.

Ratinho Jr. não enfrenta um problema de falta de poder institucional. Ele dispõe de uma base ampla de prefeitos, fortalecida inclusive por movimentos recentes de migração partidária  atingindo mais de 50% dos prefeitos do Paraná, além de controlar uma máquina administrativa eficiente e um partido bem estruturado. Esse conjunto de recursos constitui o núcleo do poder político tradicional. No entanto, na era do digital esse tipo de poder se mostra insuficiente para disputar a liderança simbólica da direita, que hoje se organiza menos por estruturas e mais por narrativas.

Nesse cenário, a Lava Jato desempenhou papel decisivo nesse processo, ao longo dos últimos anos, a operação contribuiu para a construção de uma cultura política assentada justamente na rejeição à política tradicional. Esse processo deu origem ao que se convencionou chamar de lavajatismo. Inicialmente foi funcional para setores da direita, principalmente para o PSDB (in memoriam) que esperava ocupar o protagonismo da oposição ao governo Dilma e ao PT, no entanto o tiro saiu pela culatra e o que era projeto cresceu mais do que o esperado e agora busca pela herança dos pais ainda vivos.

Nesse sentido, a ascensão de Moro representa um tipo de liderança que não depende mais da estrutura clássica e que se sustenta na mobilização direta de um eleitorado já predisposto a rejeitar soluções institucionais. É precisamente essa característica que o torna uma ameaça para lideranças como Ratinho Jr., cuja força reside exatamente na organização do sistema político. A escolha de Sandro Alex deve ser interpretada nesse contexto. Trata-se de um nome sem densidade eleitoral significativa, (Quem é Sandro Alex?) mas politicamente alinhado e dependente ao grupo do governador. Sua candidatura se justifica pela submissão. Ao ocupar espaço no campo da direita, ele contribui para impedir que Moro consolide uma hegemonia automática, o ex-juiz federal precisará buscar o atual governador para dialogar.

Essa estratégia produz um efeito já conhecido na política. Ao fragmentar o campo conservador, reduz-se a probabilidade de uma vitória em primeiro turno e cria-se um cenário em que nenhum ator concentra força suficiente para definir a eleição de maneira isolada. Nesse contexto, Ratinho Jr. preserva sua relevância ao se posicionar como agente indispensável na definição do segundo turno. Para a direita tradicional, a eleição de 2026 não é sobre vitória a curto prazo. Manter o controle do campo da direita e se manter como articulador pode ser mais estratégico do que assegurar uma vitória imediata. Ao evitar a consolidação de uma liderança automática, o governador protege sua capacidade de influência no médio prazo, ainda que isso implique riscos no curto prazo. Nesse sentido é importante que o nome escolhido (Quem é Sandro Alex?) não tenha expressividade sozinho, ele é dependente da máquina do governador, que inclusive ainda não acionou seus 191 prefeitos da base no Paraná (51% dos prefeitos) para projetar seu sucessor nas pesquisas eleitorais.

A fragmentação da direita abre espaço para o crescimento do campo progressista. Com a divisão do voto conservador, candidaturas como a de Requião Filho passam a encontrar condições mais favoráveis para se consolidar como alternativa viável. A eleição municipal de Curitiba já havia antecipado esse movimento. A expressiva performance de uma candidatura identificada com o discurso antissistema demonstrou a força desse tipo de mobilização, ao mesmo tempo em que evidenciou a dificuldade da direita tradicional em responder a esse fenômeno com seus próprios instrumentos, o que explicou o segundo turno da capital entre o grupo do governador e a extrema-direita. No plano nacional, o recuo de Ratinho Jr. da disputa presidencial reforça essa leitura. Sua incapacidade de se afirmar como liderança nacional da direita indica que o problema não é apenas local. O PSD, apesar de sua capilaridade e organização, enfrenta dificuldades para produzir um nome que dialogue com o eleitorado conservador contemporâneo, que se orienta por critérios distintos daqueles que estruturaram a política tradicional.

Nesse cenário, o lavajatismo assume a posição de um herdeiro incômodo. Foi impulsionado pela própria direita, mas não foi concebido para ocupar o centro do poder. A candidatura de Sandro Alex evidencia essa contradição. Ela não resolve o conflito. Ao contrário, revela sua profundidade. Diante de um campo que já não controla plenamente, a direita tradicional opta por administrar a fragmentação em vez de arriscar perder a disputa pelo protagonismo.

Essa escolha, longe de indicar fraqueza, expressa um tipo específico de racionalidade política. Trata-se de preservar o controle em um ambiente em que a vitória, por si só, já não garante poder duradouro. Agora, a pergunta mais importante (além de, “quem é Sandro Alex?”) é se o governador conseguirá se provar um articulador.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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