23 de junho de 2026

Por que ocupam escolas e universidades?, por Urariano Mota

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por Urariano Mota

Como sempre, a televisão, a grande mídia, fala dos danos causados pelos protestos à sociedade. Essa informação é conhecida: em todo movimento ou greve, mostra-se o quanto a vida ficou ruim depois dos baderneiros e agitadores. Jamais se mencionam as razões que levam à desordem. Minto, mencionam, no cumprimento do papel de “mostrar o outro lado”. Mas pelo tempo exibido, pela ênfase e eloquência, o outro lado é mínimo frente aos estragos causados. Ensinava Brecht:  “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o comprimem”.

Por que os estudantes ocupam escolas e universidades? Em busca de respostas, ouço depoimentos como o de uma jovem na UFPE:  

“Estamos aqui em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, bandeira sob a qual já se unificam milhares de institutos, universidades e escolas secundaristas, das redes federal, estadual e municipal, nos tornando um único movimento de ocupação na educação pública nacional. A PEC 241 – agora PEC 55 –  ataca os direitos sociais duramente conquistados, desmonta o já precário estado  de bem-estar social, impondo um regime de congelamento orçamentário da União por 20 anos”.

Ao que outros estudantes continuam:

“Estamos ocupando a universidade hoje para que amanhã ela não fique esvaziada, para que ela se encha de mais cor e que essa cor seja o povo. Sabemos que a pec é mais um ataque à classe trabalhadora, porém cada dia de PEC vai ser um dia de barulho. Não tem arrego, ousar lutar e ousar vencer é a única alternativa aceitável.

– M., sexo masculino, 28, História

Acho que as ocupações são um movimento não tão grande quanto o necessário diante dos cortes que a gente sofrendo, mas se crescer em rede, a gente consegue parar o Brasil. Com relação à organização, acho que a divisão em comissões é bastante prática e atrelado às atividades da programação, deixam a ocupação praticável.

– P., sexo feminino, 22, Geografia  

Acho que as ocupações têm contribuído bastante para a formação das e dos estudantes envolvidos por meio das discussões e principalmente do convívio diário, com as divisões de comissões, que permitem cada pessoa contribuir com seu ritmo. Estamos construindo vivências que certamente influenciarão bastante em nossas dinâmicas na universidade e na vida.

– C., pessoa trans, 21, Pedagogia

Construir as ocupações tem sido uma experiência incrível, em todos os sentidos: político, coletivo, de formação e pessoal. Além de reunirmos forças e vermos as e os estudantes despertando mais e mais pro fazer político, vendo estudantes que até então estavam distantes e apáticas se aproximando, participando, assumindo tarefas. Uma experiência real de coisas que a gente estuda, experiência de democracia real, de construção coletiva e de luta em defesa da classe trabalhadora e dos nossos direitos.

– A., travesti, 28, Serviço Social

Eu trabalho durante o dia e só tenho a noite livre, que é meu horário de estudo, e sempre venho para as ocupações pois acredito que não é o fato de não haver aulas que a universidade está parada. Pelo contrário, ela está mais viva do que antes. Vejo muitos debates, palestras, exibição de filmes, sempre com a construção coletiva e o entendimento que a universidade é nossa, esse espaço é nossa e a luta também é nossa. Creio que essa PEC seja algo mais nefasto dos últimos tempos para a nossa educação.

O., sexo masculino, 31, Pedagogia”

Creio que talvez os estudantes não saibam o quanto são fundamentais à juventude que viveu sob mais feroz ditadura. Eles retomam o lugar de gerações anteriores. E o que se foi continua em nova vida pelo fio histórico da indignação. Eles nos falam que somos agentes da duração do tempo, que a nossa vida é a resistência do fugaz. Nós só vivemos enquanto resistimos. Então me vem à lembrança o poeta John Donne, citado por Hemingway na frase “por quem os sinos dobram”. Agora, podemos reinterpretá-lo: “Por quem os jovens ocupam escolas? Ocupam por todos nós, enfim”.

Também publicado no Diário de Pernambuco http://www.impresso.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/cadernos/emfoco/2016/11/07/interna_emfoco,157342/por-que-ocupam-escolas-e-universidades.shtml

 

Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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9 Comentários
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  1. rdmaestri

    7 de novembro de 2016 3:31 pm

    Porque a ocupação das escolas e universidades servem …..

    Vou receber pauladas por todos os lados, porém a facilidade com que alunos se mobilizam e ocupam as Universidades e as escolas são movimentados por dois grandes eixos, aqueles que todos os pais e professores militantes e politizados gostam de falar e outro que ninguém nem a direita ainda falou.

    Simplesmente porque a ocupação das escolas e universidades servem além dos anseios políticos as duas grandes coisas que os jovens adoram a escola e a universidade e não estudar!

    Os adolecentes e já um pouco mais adultos adoram o ambiente escolar, simplesmente porque lá estão com a imensa maioria de seus colegas e amigos e o relacionamento entre pessoas do mesmo grupo é o melhor que um jóvem deseja.

    Agora por outro lado o que afasta a crianças e adolecentes da escola é a necessidade de estudar, e quando não há ocupação além do lúdico e divertido que é o compartilhamento dos espaços entre os iguais, há a algo meio desagradável para alguns, a necessidade de estudar.

    Logo fica evidente, que os alunos ocupam a escola simplesmente porque mantém o convívio e não precisam estudar!

    1. companheiro antifascista

      7 de novembro de 2016 6:00 pm

      companheiro Rdmaestri: você

      companheiro Rdmaestri: você já visitou uma ocupação? Provavelmente não, mas se tivesse, você teria visto os maiores debates, e os melhores “aulões” da vida! Além, é claro, das maiores experiências de vida que uma pessoa jamais teria estando apenas com traseiro enfiado em uma cadeira, atrás de uma carteira!  Antes da crítica, pense! Na frente de TODA essa cambada (Temer, “gloriosos” deputados, “bravos” senadores, e “inclitos” ministros, etc…) SÓ ESTÃO os estudantes, APENAS os estudantes! OU você vê ALGUM sindicalista? Ou algum nobre membro da esquerda (trucidada! e sem rumo!)? Fazer alguma coisa?

      1. rdmaestri

        7 de novembro de 2016 9:19 pm

        Talvez aí esteja um problema bem mais sério do que a ….

        Talvez aí esteja um problema bem mais sério do que a pequena crítica que coloquei, a falta de ligação dos estudantes aos demais grupos sociais que estão sofrendo com os golpistas.

        Não vejo a mínima vantagem do movimento dos estudantes não contarem com a solidariedade e apoio dos demais movimentos sociais e partidos, esta citação da inexistência de nenhuma esquerda (trucidada e sem rumo) criará um isolamento do movimento dos estudantes que levará este movimento a derrota.

        Lembro que em todas os movimentos sociais exitosos sempre há uma integração com os demais movimentos, somente anarquistas modernos (não os verdadeiros anarquistas do início do século XX) contavam e se solidarizavam a outros movimentos, agora os anarquistas (???) acham que o movimento tem que ser indiciplinado, sem união e cada um por si. Ligeirinho serão eliminados.

    2. mcn

      7 de novembro de 2016 7:26 pm

      Vc está olhando para a metade vazia do copo

       

      1. rdmaestri

        7 de novembro de 2016 7:33 pm

        Claro que fiz uma mera provocação, porém ficar endeusando ….

        Claro que fiz uma mera provocação, porém ficar endeusando qualquer movimento sem olhar os dois lados da moeda é extremamente antipedagógico.

        Na realidade não disse nenhuma mentira, só coloquei um ponto que me parecia a resposta a pergunta, que foi direta:

        Por que ocupam universidades e escolas?

        Dei uma resposta, não é mentira, talvez a parte vazia do copo, que também existe.

  2. Marcia Eloy

    7 de novembro de 2016 6:46 pm

    Ocupação das escolas

    Quer dizer que o rdmaestri acha que as crianças não gostam de estudar? As crianças ou o governos,os Estados, o MP, os juízes e que não gostam ue elas estudem? Se as crianças estudam ela não vão aceirar tudo o que governo, estados MP,  juízes lhe impoem. Isto não agrada os que governam atualmente.Se elas não gostam de estudar por que retirar matérias do curriculum dos secundaristas. E por que eles estão lutando contra isso? 

  3. mcn

    7 de novembro de 2016 7:20 pm

    Os jovens são um pesadelo para o Golpe

    1. Estão começando a vida e experimentando o mundo. Podem sonhar, falar e agir na direção que bem entendem. Encontraram um leitmotiv e não têm nada a perder.

    2. Escolas públicas, principalmente, são estruturas distribuídas de forma equidistante no território, o que gera um problema tático seríssimo para a repressão.

    3. Escolas falam e são ouvidas pela população mais pobre do país. Uma reação ao governo vinda daí pode escancarar a percepção de injustiça.

    4. A ocupação não-violenta de escolas e faculdades públicas pode desencadear uma ‘primavera’ real e de massa, inspirando a reorganização dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda.

    Daí porque as ações de intimidação e violência explícita e coordenada de governos, milícias do MBL e cartel da mídia.

  4. Gui Oliveira

    7 de novembro de 2016 8:19 pm

    Os acendedores de manhãs

    Os acendedores de manhãs 

    Joan Edesson de Oliveira *
    (Publicado em 04/11/2016 no Portal http://www.vermelho.org.br)

    Ah! Esses meninos. Ah! Essas meninas. 

     

    Espalham-se pelas ruas, pelas escolas, pelas universidades. Não se contentam mais em esperar pelo amanhã, não querem apenas, como deles dizia Máximo Górki, ter a face do amanhã. Têm sede de hoje, estão famintos pelo agora.

    Quem são esses meninos, que ocupam o Brasil, que transbordam em sua juventude e em sua rebeldia, que não podem mais ser escondidos, por mais que tentem? São herdeiros de outros meninos, em lugares e em tempos tantos da nossa história. São herdeiros daquele menino baiano Antônio de Castro Alves, abolicionista e republicano, voz tão poderosa a pregar aos séculos que “toda noite tem auroras” e a dizer aos moços como ele que “não tarda a aurora da redenção”. Descendem eles do menino alagoano Zumbi, que imberbe ainda comandou homens e sonhou a liberdade.

    Quem são essas meninas, buliçosas e de olhar tão vivo, que transpiram beleza e coragem, que erguem a voz doce e firme em tribunas hostis, obrigando velhos conservadores a desviar o olhar, envergonhados e derrotados, por mais que se vistam de vencedores? São descendentes diretas daquela menina Anita Garibaldi, que aos dezoito anos fazia guerra e amor, incendiando o sul do Brasil com a chama da liberdade. Elas vêm da baiana Maria Quitéria, pondo em fuga o opressor português. Vêm de outra baiana, Maria Bonita, que aos vinte anos armou a ternura e alou-se em lenda na caatinga sertaneja. 

    Por que despertam tanto ódio nas elites, por que são tão atacados? Não são um exército com tanques, mísseis, fuzis. Não são uma força estrangeira a nos invadir. Qual o perigo que representam, então? Por que jornais e emissoras de TV se empenham tanto em atacá-los? Por que representantes de um governo ilegítimo, velho, machista e misógino, atacam com tal força essas meninas que discursam? Por que recrutam milícias que parecem integralistas saídos de um mofado livro de história para atacar esses jovens?

    É que esses meninos, essas meninas, riso solto e gargalhada livre, são uma grande ameaça. Os alicerces desse edifício secular das classes dominantes tremem ante o riso deles, temem a sua gargalhada. Mas acima de tudo, o que causa temor mesmo são os sonhos desses meninos e meninas. Sim, eles sonham. Sonham com educação de qualidade, sonham com justiça, sonham com uma polícia que não seja executora da juventude, sonham com um Brasil novo e têm a mais pura e justa certeza de que o novo sempre vem. 

    É por isso que eles são tão perigosos. É por isso que há jornalistas vendidos que os atacam. É por isso que há promotores de justiça que ordenam que eles sejam algemados. É por isso que há juízes que autorizam e recomendam o uso de técnicas de tortura contra eles. É por isso que há policiais prontos a bater, a socar, a prender. Porque esses meninos e essas meninas são perigosos, porque eles agarraram o futuro com as mãos e querem que o futuro seja aqui e agora, e não num tempo que nunca chega. Esses meninos são perigosos porque eles podem colocar o mundo de ponta cabeça, e de virá-lo em festa, trabalho e pão, como sonhou o poeta.

    E esses meninos e essas meninas estão armados. Suas armas são as ideias que carregam, são o verbo que corta, a voz que inflama. Estão armados, eles. Trazem consigo a arma mais poderosa que há. Como em Pessoa, trazem em si todos os sonhos do mundo.

    Parece que saíram de algum poema, esses meninos, essas meninas. Parecem que saíram de algum poema, para em tempos de tanta escuridão, de noite tão comprida, correrem pelas esquinas do Brasil, chamando pela aurora, acendendo as manhãs.

     

    * Educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

     

    1. rdmaestri

      8 de novembro de 2016 2:10 am

      Fico emocionado, os velhos serão os primeiros a correr e ….

      Fico emocionado, os velhos  serão os primeiros a correr e os jovens os primeiros a morrer.

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