19 de junho de 2026

Portinari em Beijing: entre a guerra e a paz, o Brasil atravessa o mundo, por Iara Vidal

A chegada de Portinari ao Museu Nacional da China traz pergunta urgente: que humanidade ainda somos capazes de construir diante da guerra?
ONU Notícias

A exposição “O Brasil de Portinari” ocorre de 9/jun a 10/out no Museu Nacional da China, em Beijing, com 50 obras originais.
Os painéis “Guerra e Paz” de Portinari, que retratam o impacto humano da guerra, foram reinstalados na ONU em 2015.
Lula e Xi Jinping destacam a paz como prioridade em 2026, refletindo a mensagem da arte de Portinari no contexto global atual.

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Portinari em Beijing: entre a guerra e a paz, o Brasil atravessa o mundo

No Ano Cultural Brasil-China 2026, a chegada de Portinari ao Museu Nacional da China recoloca uma pergunta urgente: que humanidade ainda somos capazes de construir diante da guerra?

por Iara Vidal

Cândido Portinari está chegando à China. Com ele, desembarca também uma pergunta que atravessa o tempo: o que fazemos, como humanidade, entre a guerra e a paz?

A megaexposição “O Brasil de Portinari” integra a programação do Ano Cultural Brasil-China 2026 e reunirá 50 obras originais do artista, de 9 de junho a 10 de outubro, no Museu Nacional da China, em Beijing. O local não poderia ser mais simbólico: o museu fica na Praça Tiananmen, no coração político e histórico da capital chinesa.

E eu tenho a sorte de estar aqui para ver isso de perto.

O Brasil de Portinari chega ao coração de Beijing

Como quase tudo por aqui, as dimensões impressionam. A expectativa é que cerca de 4 milhões de pessoas visitem a mostra, um público equivalente à população inteira de países como Croácia, Geórgia ou Uruguai. A exposição será realizada em uma das maiores instituições culturais do mundo.

Com cerca de 200 mil metros quadrados de área construída, dezenas de salas expositivas e um acervo superior a 1,4 milhão de itens, o Museu Nacional da China é o espaço onde o país organiza parte central de sua própria narrativa histórica e recebe grandes mostras internacionais. É nesse palco que Portinari chega como embaixador de um Brasil profundo, popular e humanista.

Depois do lançamento, em chinês, de “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro, e da overdose de brasilidade que vivi em Shanghai com os shows do Ano Cultural Brasil-China, em especial ao som da guitarrada de Manoel Cordeiro, agora é Portinari que chega à China.

Se Darcy tentou explicar o Brasil em palavras, Portinari fez isso com cores, corpos, rostos e silêncios. Pintou o povo brasileiro em sua dor, sua beleza, sua força e suas contradições.

Mas há uma camada ainda mais simbólica nessa chegada: “Guerra e Paz”, os dois painéis monumentais que o Brasil presenteou à Organização das Nações Unidas (ONU) nos anos 1950.

Quando a guerra deixa de ser abstração

Portinari trabalhou neles entre 1952 e 1956. Estava doente. Os médicos já tinham recomendado que ele se afastasse das tintas, por causa da intoxicação pelo chumbo. Ele não parou. Pintou até o limite do corpo. Morreu em 1962, sem ver os painéis instalados na ONU.

Essa história, sozinha, já bastaria. Mas o que torna “Guerra e Paz” tão poderoso é que Portinari não pintou generais, tanques, bandeiras ou mapas. Pintou gente. Pintou mães, crianças, trabalhadores, corpos atravessados pela dor. E, no painel da paz, pintou a vida possível: brincadeiras, colheitas, danças, infância, comunidade.

Ou seja: ele tirou a guerra do campo abstrato da geopolítica e devolveu ao lugar onde ela realmente acontece: o corpo humano. A guerra não é apenas uma disputa entre Estados. É a criança sem futuro, a mãe em desespero, o trabalhador arrancado da própria vida. E a paz também não aparece como palavra bonita de discurso diplomático. Ela aparece como cotidiano. Como direito de brincar, plantar, dançar, existir sem medo.

Depois de deixarem a sede da ONU em 2010, durante a reforma do edifício das Nações Unidas, os painéis “Guerra e Paz” passaram por restauração e por uma rara circulação pública no Brasil e no exterior.

A jornada começou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em dezembro daquele ano, e permitiu que o grande público visse de perto obras que, desde 1957, ficavam no espaço reservado aos delegados da ONU.

Reinstalados em Nova York em dezembro de 2014, os painéis permaneceram cobertos até 8 de setembro de 2015, quando foram oficialmente revelados novamente em cerimônia com Ban Ki-moon.

A arte como chamada à ação

Quando os painéis foram reinstalados na sede da ONU, em 2015, Ban Ki-moon resumiu isso de forma precisa. Disse que “Guerra e Paz” eram mais do que obras magníficas: eram o chamado de Portinari à ação. Segundo ele, todos os líderes que entram nas Nações Unidas se deparam, por meio da obra, com o custo terrível da guerra e com o sonho universal da paz.

Gosto muito dessa ideia: a arte como chamada à ação. Não como enfeite de salão, não como ornamento diplomático, não como peça bonita para suavizar corredores de poder. Mas como incômodo. Como lembrete. Como pergunta pendurada diante de quem decide o destino dos outros.

E talvez seja por isso que Portinari faça tanto sentido agora.

A paz como urgência em 2026

Em 2026, falar de paz não é exercício retórico. É urgência. Lula tem repetido isso de forma direta. Em março, na Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, ele criticou a corrida armamentista e rejeitou aquela velha máxima de que “quem quer paz se prepara para a guerra”. Para ele, é o contrário: “Nós queremos paz porque a paz é a única possibilidade de fazer com que a humanidade avance.”

Poucas semanas depois, na Alemanha, Lula afirmou que a prevalência da força sobre o direito é a maior ameaça à paz e à segurança internacional. Também criticou a paralisia da ONU diante das guerras, dizendo que, entre os que provocam conflitos e os que se calam, a organização volta a parecer imobilizada.

Do lado chinês, Xi Jinping também tem colocado a estabilidade e a paz no centro de sua linguagem diplomática. Na mensagem de Ano Novo para 2026, ele afirmou que algumas regiões ainda estão mergulhadas em guerra e que a China está pronta para trabalhar com outros países pela paz, pelo desenvolvimento mundial e por uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade.

Em maio, no encontro com Donald Trump em Beijing, Xi formulou a questão em termos de responsabilidade entre grandes potências: seria possível enfrentar juntos os desafios globais e oferecer mais estabilidade ao mundo? A pergunta, feita no Grande Palácio do Povo, parece ecoar justamente a tensão que Portinari pintou: a humanidade sempre de novo diante da escolha entre repetir a lógica da guerra ou insistir na construção da paz.

Entre Lula, Xi e a pergunta de Portinari

Não quero forçar aproximações fáceis. Portinari não pintou para ilustrar discursos de Estado. A grandeza dele está justamente em ir além disso. Mas é impossível olhar para “Guerra e Paz”, em 2026, sem perceber que aqueles painéis continuam falando conosco.

Eles falam com a ONU paralisada. Falam com um mundo em reordenação. Falam com o Brasil de Lula, que tenta recolocar a paz como política externa. Falam com a China de Xi, que apresenta estabilidade, desenvolvimento e coexistência como linguagem de sua diplomacia. Falam, sobretudo, com qualquer pessoa que ainda consiga se comover diante de uma criança pintada por Portinari.

Um Brasil ferido, popular e esperançoso

No fim, talvez seja isso que mais me emocione: ver o Brasil atravessar o mundo não como clichê, mas como memória, arte e humanidade. Portinari chega à China levando um Brasil profundo, popular, ferido e esperançoso. Um Brasil que conhece a desigualdade, a fome, o trabalho duro e a infância interrompida, mas que também conhece a festa, a ternura, a resistência e a beleza.

“Guerra e Paz” talvez seja a síntese mais radical de Portinari: a denúncia daquilo que destrói a humanidade e a afirmação daquilo que ainda pode salvá-la.

E ver essa obra ecoar agora, daqui de Beijing, em pleno Ano Cultural Brasil-China, tem uma força simbólica enorme. Porque a paz, como a arte, também precisa atravessar fronteiras.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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