Sinal amarelo para a indústria brasileira de dispositivos médicos.
por Renato Steckert de Oliveira
A Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos – ABIMO, divulgou há poucos dias seu Relatório anual sobre o desempenho dessa indústria no ano de 2025. Trata-se do mais importante documento com informações agregadas desse setor, que compõe uma das missões do plano Nova Indústria Brasil.
A importância estratégica dessa indústria pode ser resumida em três aspectos principais. Primeiro, ela é essencial para a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde, que não pode ficar na dependência do mercado internacional de insumos médicos. Segundo, suas cadeias de valor são virtualmente ilimitadas, abrangendo todos os demais setores da indústria. Terceiro, é essencial para salvaguardar a saúde da população durante crises sanitárias internacionais, pois, como o demonstrou a pandemia da COVID-19, o oligopólio de alguns poucos países na produção de insumos médicos críticos gera catástrofes globais. Além disso, as atuais instabilidades dos mercados decorrentes dos conflitos internacionais pode agravar essas crises.
Em suma, uma indústria nacional de dispositivos médicos forte e inovadora é fator indispensável para a soberania nacional.
Deste ponto de vista, o relatório da ABIMO traz mais preocupações do que motivos para comemorações.
Essas preocupações podem ser sintetizadas numa informação do relatório: enquanto o consumo de dispositivos médicos no Brasil cresceu 13,9% em 2025 em relação a 2024, atingindo a cifra de R$ 85,4 bilhões, a participação da indústria nacional no atendimento desse consumo continuou em trajetória descendente, diminuindo em 2,7%. Pode parecer pouco, mas essa diminuição revela uma tendência estrutural: em 2021, a indústria nacional respondia por quase metade do abastecimento do mercado interno de dispositivos médicos, com 45,8% de participação, enquanto em 2025 caiu para 35%, significando pouco mais de um terço. Ou seja, cada vez mais nosso sistema de saúde depende de importações para poder funcionar.
Além disso, outro problema lhe é associado: enquanto importamos cada vez mais, exportamos cada vez menos. O déficit setorial na balança comercial chegou US$ 9,9 bilhões em 2025, o dobro do déficit de 2020, que foi de US$ 4,9 bilhões. Hoje, este setor é responsável pelo segundo maior déficit na balança comercial brasileira.
Essa tendência estrutural de diminuição da participação relativa no mercado interno e desequilíbrio na balança comercial é consequencia direta de fragilidades estruturais da indústria nacional. A primeira delas revela-se no fato de que, das 5.283 empresas que compõem o setor, mais da metade (57,9%) possuem até 4 funcionários. Se somarmos as empresas com até 19 funcionários, teremos 4.634 empresas, correspondendo a 87,8% do total.
Essa absoluta predominância de micro e pequenas empresas, em se tratando de um setor estratégico, deveria ser objeto de políticas específicas por parte do governo, pois, pelo seu número, elas constituem a espinha dorsal do sistema. No entanto não é o que acontece. Penalizadas por um sistema público de concessão de crédito basicamente conservador, elas se veem obrigadas a pagar juros mais elevados no sistema financeiro privado para obter financiamentos. Além disso, não contam com suporte de gestão e acesso aos mercados, bem como a inovação, para a imensa maioria, é um horizonte distante. Sem contar que, para o conjunto das empresas, persistem desequilíbrios tributários face aos produtos importados que fragilizam o setor como um todo.
Estes, dentre outros fatores, ajudam a explicar o fato de que, de 2024 a 2025, o número total de empresas do setor diminuiu.
Em setembro de 2023 o Presidente Luis Inácio Lula da Silva assinou decreto instituindo a Estratégia para o Desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, prevendo investimentos de R$ 42 bilhões até o presente ano de 2026. O decreto respondeu a uma das diretrizes do plano Nova Indústria Brasil, cuja meta é elevar a participação da indústria nacional de saúde a 70% do mercado interno de saúde até 2033. Ora, os dados revelados pelo Relatório Setorial da ABIMO parecem indicar que estamos caminhando em sentido inverso. Pode-se argumentar que ainda é cedo para se colher os resultados da nova estratégia e dos investimentos realizados. Mas acendeu-se um claro sinal de alerta, e a prudência aconselha uma séria revisão do que vem sendo feito.
Revisar planos e estratégias à luz de resultados concretos não constitui, infelizmente, um dado da nossa cultura de governança institucional. A realidade, no entanto, impõe mudanças. Ou os gestores públicos debruçam-se sobre os dados, revisando o que até agora foi feito e implementando as correções de rumo necessárias – ou demonstrando que as as mudanças estruturais necessárias estão incubadas nos dados divulgados –, ou as estratégias e planos setoriais não passarão, mais uma vez, das costumeiras homenagens periódicas à nossa pouca competência em aproveitar oportunidades.
Renato Steckert de Oliveira – Sociólogo, professor aposentado da UFRGS, Ex-Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia do Estado do RS.
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