Reflexões sobre a COP30: o domínio do agronegócio sobre o progresso climático
por Maddy Haughton-Boakes
Apesar dos esforços do presidente Lula para posicionar o Brasil como líder climático, a COP30 terminou aquém da ambição esperada. Além de não enfrentar o tema dos combustíveis fósseis, a cúpula praticamente ignorou os sistemas alimentares – embora o setor agrícola seja responsável por um terço das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).
Durante a conferência, várias oportunidades de reduzir emissões do sistema alimentar foram perdidas. Desde o estabelecimento do Global Methane Pledge, acordo em que países se comprometeram a cortar 30% das emissões de metano até 2030, cresceu a atenção sobre esse superpoluente – que pode ter um impacto 80 vezes maior que o CO₂ em 20 anos.
Ainda assim, um recente relatório mostra que, mesmo se todas as promessas atuais fossem totalmente cumpridas, as emissões de metano cairiam apenas 8% até 2030. Nesse contexto, a agricultura é um aspecto importante que está sendo ignorado, e os planos existentes só aproveitam metade das oportunidades para cortar emissões nesse setor.
Dentro do panorama geral de resultados dessa COP, o desmatamento foi outra oportunidade perdida: apesar de aparecer no texto final, não houve um plano de ação acordado. Além disso, a nova investida global em biocombustíveis representou um retrocesso, aumentando a pressão sobre o uso da terra e competindo com a segurança alimentar.
Greenwashing no agronegócio
O Brasil é o quinto maior emissor de gases de efeito estufa e de metano do mundo, de acordo com informações do Observatório do Clima. Com o segundo maior rebanho bovino do planeta, o setor agropecuário responde por 75,6% das emissões de metano e por 74% do total de emissões brasileiras.
No entanto, quase um quarto dos 302 lobistas representantes de organizações ligadas à alimentação e agricultura na COP30 representava gigantes da carne, como a JBS, Marfrig (agora MBRF) e Minerva. Além dos números oficiais, muitos outros atuaram dentro da AgriZone, um espaço oficial inédito na conferência, organizado pela Embrapa e patrocinado por empresas como Nestlé e Bayer. Ao entrar, os visitantes se deparavam com o centro de mídia com a marca JBS e exposições promovendo a agricultura “climate-smart”: vídeos de alto impacto, soluções tecnológicas, promessas de “carne de baixo carbono” e a narrativa de que inovação resolve tudo.
A JBS também usou a cúpula para minimizar publicamente a importância do relatório de emissões de Escopo 3 (associadas a cadeia de valor de uma empresa), embora essas emissões indiretas representem 98% da pegada total do setor de carne.
Agronegócio: uma indústria no centro do poder
A influência corporativa vista na COP30 reflete um padrão mais amplo de greenwashing do agronegócio no Brasil. Antes da conferência, lançamos um estudo que detalha como o grande agro tenta controlar a agenda climática do país — táticas que se repetem globalmente.
A indústria brasileira domina o Congresso e molda resultados políticos. O relatório identifica as estratégias de greenwashing do setor: conferências corporativas, lobby nos bastidores, conteúdo patrocinado na imprensa, investimento em influenciadores e tentativas de direcionar a produção acadêmica.
Ele também destaca que, embora a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) atualizada do Brasil preveja uma redução entre 59% e 67% das emissões de GEE até 2035, na comparação com os níveis de 2005, o plano não inclui nenhuma medida para reduzir o metano vindo da agricultura.
Essa omissão ameaça tanto as metas climáticas quanto o próprio futuro do setor, já que a agricultura é fortemente afetada pelas condições climáticas instáveis. Atualmente, 28% das terras agrícolas brasileiras estão fora das condições climáticas ideais – número que pode chegar a 74% até 2060 com o agravamento do calor e da seca.
O caminho está claro — agora é seguir por ele
Em um movimento positivo, a Marfrig se tornou a primeira empresa de carne do mundo a divulgar suas emissões de metano de Escopo 3 e estabelecer uma meta de redução de 33% até 2035, em um anúncio feito na COP30. Esse compromisso mostra que é possível que empresas do setor adotem transparência e definam metas reais de redução. No entanto, a companhia planeja priorizar soluções técnicas – atalhos que tratam os sintomas, não as causas das emissões relacionadas ao gado – em vez de estratégias embasadas em ciência, como a redução do rebanho.
Ao longo do evento, o excepcionalismo flagrante da indústria contrastou com a mobilização de base liderada por povos indígenas e agricultores familiares, que apresentaram sistemas alimentares capazes de sustentar ecossistemas saudáveis e comunidades resilientes. Esse espírito esteve presente também nos eventos que organizamos com parceiros, que expuseram o greenwashing e traçaram caminhos para cumprir o que foi acordado no Global Methane Pledge.
Para ampliar esses esforços, os países precisam enfrentar os interesses corporativos e priorizar a responsabilização. É necessário encarar as mudanças sistêmicas exigidas pelos sistemas alimentares e reduzir o consumo excessivo de produtos de origem animal.
Embora a COP30 tenha terminado, suas lições permanecem. Apesar do fracasso de muitos líderes mundiais em avançar, a sociedade civil e governos visionários já estão traçando novos caminhos – prova de que o progresso é possível.
O desafio agora é aproximar discurso e prática. Isso significa regulamentar o metano agrícola, enfrentar o uso da terra impulsionado pela pecuária e garantir que as estratégias climáticas sejam guiadas pela ciência, não por interesses corporativos.
Maddy Haughton-Boakes, Coordenadora de Campanhas Sênior da Changing Markets Foundation
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