Memórias do Cais do Valongo contra o apagamento
por Arnaldo Cardoso
A decisão de construção do Memorial da Escravidão no Cais do Valongo – Rio de Janeiro, local que em 2018 foi declarado pela Unesco Patrimônio Histórico da Humanidade, está envolvendo os ministérios da Cultura, da Igualdade Racial e o BNDES em um projeto que promete criar além de um importante centro de referência para a cultura negra e de respeito à ancestralidade africana do povo brasileiro, deverá tornar-se um novo marco para o turismo no Rio de Janeiro.
Em recente visita das ministras Anielle Franco e Margareth Menezes ao local, acompanhadas pela primeira-dama Janja da Silva, pelo presidente do BNDES Aloizio Mercadante e por lideranças sociais, se deu a retomada do Comitê Gestor do Cais do Valongo, que tem a responsabilidade de estruturar ações de ocupação, sinalização e qualquer outro tipo de intervenção no sítio arqueológico.
Uma das prioridades do projeto é a ativação para visitação pública de um galpão no local, que abriga mais de um milhão de achados arqueológicos da região. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo é um dos entusiastas do projeto e insere essa iniciativa em um programa de várias frentes para, além da revitalização do centro histórico do Rio de Janeiro pôr em curso um programa mais amplo para o turismo nacional, revertendo a situação de abandono dos últimos anos.
As ruínas do Cais do Valongo reúnem os mais importantes vestígios materiais de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Deixou de funcionar como ponto de entrada de escravos por volta de 1831, com as primeiras leis contra a escravidão assinadas. O tráfico negreiro perdurou ainda por anos, de modo clandestino.
O projeto agora retomado, dialoga com um movimento internacional amplo, que tem envolvido historiadores, antropólogos, sociólogos, arqueólogos, escritores, artistas, ativistas e outros atores sociais na busca de desmontar a colonização epistêmica que perdura até os nossos dias em nações de passado colonial.
Mesmo após as independências políticas, a colonização epistêmica se manteve através do predomínio e hierarquização de formas de pensar e produzir conhecimentos, privilegiando aqueles pautados na racionalidade técnica instrumental do colonizador branco, masculino, racional e cristão, desqualificando saberes ancestrais.
O Clotilda
Não são poucas as semelhanças desse projeto do Cais do Valongo com o desenvolvido no sul do estado americano do Alabama, distrito de AfricaTown (comunidade fundada em 1866), onde o Clotilda, foi o último navio negreiro a atracar no país. São projetos que visam o resgate de uma história apagada e que precisa ser contada.
Sobre o navio negreiro Clotilda e seu último “carregamento”, Zora Neale Hurston (1891-1960), novelista, folclorista e uma das únicas antropólogas negras atuantes na época nos Estados Unidos, realizou minuciosa pesquisa por sugestão do antropólogo e mestre Franz Boas (1858-1942) resultando na escrita do livro “Barracoon: the story of the last ‘Black Cargo’” só publicado em 2018 e transformado no documentário “Descendant” de Margaret Brown, lançado pela Netflix.
Parte do documentário é sustentada por relatos colhidos por Hurston, de Cudjo Lewis (1841-1935) que seria então o único sobrevivente do Clotilda.
O título do livro “Barracoon” refere-se aos barracões da costa de Uidá (atual República do Benim, na África Ocidental), onde cativos eram mantidos para a venda no mercado transatlântico de africanos escravizados.
A exemplo do “The National Memorial for Peace and Justice” (Memorial Nacional pela Paz e Justiça), mais conhecido como o memorial nacional do linchamento, inaugurado em 2018 em Montgomery (Alabama) pelo advogado de direitos civis e ativista Bryan Stevenson, projetos como o da comunidade de AfricaTown e o do Cais do Valongo no Rio de Janeiro além de estimularem um turismo consciente e gerarem recursos para financiamento de projetos sociais, firmam-se como referências da luta pela preservação da história desses povos contra as ameaças de seu apagamento.
Arnaldo Francisco Cardoso é cientista político (PUC-SP), pesquisador, escritor e professor universitário.
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Luiz alberto Melchert de Carvalho e Silva
25 de abril de 2023 1:13 pmE por que o Valongo do cais de Santos deve ser esquecido?