Nós, os primatas, por Felipe A. P. L. Costa

As primeiras linhagens de primatas apareceram há cerca de 65 milhões de anos. Eram pequenos animais arborícolas de hábitos noturnos, semelhantes aos musaranhos

Nós, os primatas

Por Felipe A. P. L. Costa [*]

Os primeiros mamíferos surgiram há uns 220-230 milhões de anos, a partir de uma linhagem ancestral de répteis (há muito extintos), os terapsídeos. A ampla irradiação evolutiva do grupo, no entanto, só ocorreria quase 100 milhões de anos mais tarde.

As primeiras linhagens de primatas apareceram há cerca de 65 milhões de anos. Eram pequenos animais arborícolas de hábitos noturnos, semelhantes aos musaranhos (mamíferos da ordem Soricomorpha). Calcula-se que os primatas viventes sejam os remanescentes de um processo de irradiação que teria dado origem a mais de seis mil espécies – a maioria, evidentemente, já extinta.

Há uns 50 milhões de anos, logo no início de sua história, o ramo ancestral que daria origem a todos os primatas se dividiu em duas linhagens: estrepsirrinos (ou prossímios) e haplorrinos (símios). Estrepsirrinos são primatas de pequeno porte, portadores de rinário (leia-se: região úmida e desprovida de pelos em torno das narinas) e de uma cauda longa e não preênsil. O grupo, concentrado na África (sobretudo Madagascar) e no Sudeste Asiático, inclui lórises, gálagos, lêmures e o ai-ai.

Haplorrinos são primatas de médio e grande porte (com exceção de társios e micos), muitos deles providos de cauda preênsil. O grupo está concentrado nas regiões tropicais da África, Ásia e Américas Central e do Sul e inclui társios, macacos e humanos.

O ramo ancestral dos haplorrinos se subdividiu em três grandes linhagens: os társios, os macacos do Novo Mundo (ou platirrinos) e os macacos do Velho Mundo (catarrinos). Os ramos de macacos do Novo e do Velho Mundo estão separados há pelo menos 20 milhões de anos. Os macacos do Novo Mundo são arborícolas, sendo que muitos deles possuem cauda longa e preênsil, com a qual conseguem se agarrar aos galhos. Algumas espécies do Velho Mundo também são arborícolas, mas outras são essencialmente terrestres; de resto, nenhuma delas possui cauda preênsil.

Além da presença ou não de cauda preênsil, há outras diferenças notáveis entre platirrinos e catarrinos. Os primeiros têm um nariz amplo, com narinas afastadas e voltadas para frente; os últimos têm um nariz estreito, com narinas próximas e voltadas para baixo. As arcadas dentárias também diferem: prossímios e platirrinos são dotados de três dentes pré-molares e os catarrinos, de dois.

Os antropoides

Os primatas viventes mais próximos dos seres humanos são os catarrinos, entre os quais duas grandes linhagens (referidas formalmente como superfamílias) são reconhecidas: Cercopithecoidea e Hominoidea.

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo traz um modelo da filogenia dos grandes grupos de primatas viventes: estrepsirrinos (AB) e haplorrinos (CG). A origem dos társios (C) é controversa, embora as evidências sugiram que sejam haplorrinos. Os haplorrinos que não são társios são referidos como antropoides (DG) e estão subdivididos em platirrinos (G) e catarrinos (DF), incluindo os hominídeos (F). O último ancestral comum a todos os grupos teria vivido há uns 70 milhões de anos. (Entre parêntesis, o número de espécies viventes conhecidas.)

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A superfamília Cercopithecoidea abriga diversas espécies de macacos africanos e asiáticos, de hábitos arborícolas ou terrestres, caracterizados pela presença de cauda. Conta com a maior de todas as famílias de primatas (Cercopithecidae), o que faz da África o continente com o maior número de espécies viventes. Algumas das espécies mais conhecidas: babuínos (Papio), mandril (Mandrillus), colobos (Colobus) e o macaco-narigudo (Nasalis).

A superfamília Hominoidea pode ser subdividida em dois grupos: o dos pequenos símios (gibões) e o dos grandes símios, ou antropoides. Estes últimos incluem o gênero humano (Homo) e outros três gêneros de primatas viventes, Gorilla (duas espécies de gorilas), Pan (chimpanzés e bonobos) e Pongo (duas – talvez três – espécies de orangotangos). Os três primeiros são gêneros tipicamente africanos (com a ressalva, mais uma vez, de que o gênero Homo se tornou cosmopolita); o último é típico do sudeste da Ásia.

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Notas

[*] Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019), assim como 16 artigos anteriores – ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] É amplamente aceita a noção de que os macacos do Novo Mundo formam um grupo monofilético, embora ainda haja divergências sobre o número e a posição relativa dos vários subgrupos (famílias etc.). A fauna brasileira contém apenas primatas platirrinos – e.g., macaco-prego (Cebus), micos e saguis (Callithrix e afins), macaco-aranha (Ateles), muriqui (Brachyteles), bugios (Alouatta), uacaris (Cacajao), sauás (Callicebus) e o macaco-da-noite (Aotus).

[2] A família Hominidae abrigou durante muito tempo apenas e tão somente a espécie humana e seus parentes extintos mais próximos (Homo erectus, H. habilis, Australopithecus etc.). Nenhuma outra espécie vivente era incluída entre os hominídeos – chimpanzés e gorilas, por exemplo, eram colocados na família Pongidae. Esse ponto de vista foi abandonado. As evidências têm reforçado a opinião de antigos naturalistas, segundo a qual os nossos privilégios taxonômicos de outrora eram apenas frutos de chauvinismo antropocêntrico.

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