Ambiente, hábitat, nicho, por Felipe A. P. L. Costa

Vamos desde já esclarecer o significado de três conceitos ecológicos corriqueiros

Ambiente, hábitat, nicho, por Felipe A. P. L. Costa [1]

Vamos desde já esclarecer o significado de três conceitos ecológicos corriqueiros: ambiente, hábitat e nicho. O primeiro é de uso particularmente problemático, pois os autores dificilmente discutem ou sequer informam o significado que estão a adotar.

Ambiente é o conjunto de elementos (fatores bióticos e abióticos) que têm algum impacto sobre uma entidade orgânica (indivíduos, populações etc.). Não se trata de mero espaço físico nem de algo que possa ser definido sem um referencial biológico – i.e., ao falarmos de ambiente, temos de nos referir ao seu dono; não há ambientes vazios. Muitos organismos podem viver em um mesmo hábitat, mas cada um deles terá o seu próprio ambiente, pois cada um interage e é afetado por um conjunto particular de elementos.

Hábitat (forma aportuguesa da palavra latina habitat) é um espaço físico, cujas dimensões podem ser estabelecidas a priori e de modo arbitrário, de acordo com os interesses do observador e independentemente da presença de algum referencial biológico. Uma poça d’água, uma caverna ou um fragmento florestal são exemplos de hábitats, não de ambientes.

O exemplo a seguir visa esclarecer os dois conceitos.

Considere os inquilinos que vivem em sua casa – sua família, como você já deve ter percebido, não está sozinha!

Sem contar os fungos e micro-organismos, a sua casa deve abrigar uma variedade razoável de plantas e animais – e.g., algas na pia, moscas nos ralos, ácaros nas camas, formigas na cozinha etc. Todos esses inquilinos estão compartilhando de um espaço de convivência – a sua casa é o hábitat deles. Todavia, nem todos interagem entre si. Vejamos alguns que interagem. Considere a lagartixa-de-parede (Hemidactylus mabouia), uma espécie de origem africana que é encontrada hoje em áreas urbanas de todos os estados do país. Animais de hábitos noturnos, as lagartixas se alimentam principalmente de insetos (e.g., baratas e mariposas) e aranhas. Assim, caso elas de fato sejam encontradas em sua casa, podemos inferir que por lá vivem também algumas presas de H. mabouia.

Que tipo de interação você mantém com esses inquilinos?

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Exceto talvez por algum inconveniente ocasional, eu ousaria dizer que quase todos eles estão fora do seu campo de visão – i.e., você não vive a caçar insetos ou aranhas para se alimentar! Em outras palavras, as preocupações que pautam o seu dia a dia não coincidem com as das lagartixas – e.g., encontrar presas adequadas em meio aos inquilinos que vivem ou visitam o lugar. (No fim das contas, você talvez só não queira encontrar baratas pela casa!)

Se o ambiente de um organismo é definido como a totalidade de fatores que o afetam ou com os quais ele interage, a lição a extrair daí seria a seguinte: embora a sua família e as lagartixas possam ser todos encontrados em um mesmo hábitat (ao menos durante certas horas do dia), uns e outros têm o seu próprio ambiente.

Trocando em miúdos, a informação de que dois ou mais organismos são encontrados em um mesmo hábitat, pouco ou nada nos diz a respeito do ambiente de cada um deles.

O nicho

Assim como ocorre com a palavra ambiente, a expressão nicho ecológico tem gerado muita confusão.

O termo nicho vem do italiano nicchio, que se converteu no francês nicher (aninhar), sendo posteriormente copiado em outros idiomas. O significado original ainda persiste: o nicho da arquitetura é um objeto material, uma estrutura tridimensional escavada em uma parede – um oco que abriga algum item decorativo.

Na primeira metade do século 20, os biólogos se apropriaram do termo, ajustando o seu significado de modo a adequá-lo às suas próprias necessidades. Um dos primeiros a usar a expressão nicho ecológico (ao menos em um contexto biológico significativo) foi o naturalista estadunidense Joseph Grinnell (1877-1939), em 1917. Segundo ele, o nicho abrigaria tudo o que afeta a vida de um organismo, incluindo fatores bióticos e abióticos [2].

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Desde então, o conceito foi usado de muitos modos diferentes, a ponto de alguns autores passarem a evitá-lo.

Em meados no século 20, por exemplo, ganhou popularidade a noção de que o nicho seria a profissão de cada uma das espécies que vivem em uma dada comunidade. A analogia prosperou entre nós durante anos e, embora seja uma ideia vaga e imprecisa, ainda aparece em alguns livros didáticos.

Foi só no fim da década de 1950 que surgiu uma definição mais rigorosa e formal. Estamos a falar agora do conceito de nicho multidimensional, a partir do qual iriam se desenvolver as ideias modernas a respeito do assunto.

O nicho multidimensional

As diferentes concepções de nicho podem ser arranjadas em duas categorias: (1) nicho como propriedade do mundo exterior; e (2) nicho como uma característica inerente aos organismos.

Para os adeptos do primeiro ponto de vista, o nicho seria uma oportunidade a ser aproveitada ou uma vaga a ser preenchida, evocando o conceito arquitetônico de um buraco vazio escavado na parede. Para os defensores do segundo ponto de vista, o nicho seria uma resposta do organismo ao mundo exterior – i.e., um conjunto mais ou menos integrado de traços fenotípicos que evoluíram em razão dos desafios impostos pelo ambiente.

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[FIGURA. A imagem que acompanha este artigo é uma representação bidimensional do nicho de três espécies de lagartos insetívoros (AC); o eixo horizontal indica o tamanho da presa e o e. vertical, a altura na vegetação onde os lagartos forrageiam. Se os dois eixos são examinados em separado, as curvas sobre cada um deles exibem faixas de sobreposição notáveis, sugerindo que a competição interespecífica é intensa. Se os eixos são analisados ao mesmo tempo, porém, persiste apenas uma área de sobreposição (BC), indicando que a competição interespecífica por presas é reduzida quando os lagartos forrageiam em estratos diferentes.]

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Criado pelo biólogo inglês G. Evelyn Hutchinson (1903-1991), o conceito de nicho multidimensional foi divulgado às vésperas do primeiro centenário do darwinismo.

Segundo Hutchinson, o nicho é um espaço (imaginário) n-dimensional habitado por entidades vivas (indivíduos, populações etc.). Cada dimensão corresponderia a um fator ambiental relevante, de modo que a região definida pela interseção de todas elas seria o nicho multidimensional da entidade em questão.

Em nosso mundo tridimensional, não temos como visualizar objetos n-dimensionais quando n > 3. Ocorre que os fatores decisivos (e.g., uso do espaço, itens alimentares, defesas contra inimigos) não são de fato muito numerosos. Assim, uma representação com apenas dois ou três eixos já nos oferece um esboço bastante razoável de algum aspecto do nicho de um organismo.

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Notas

[1] Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019), que está a ser lançado pelo autor. (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros do autor, ver aqui.

[2] O termo já havia sido usado antes. Em 1910, por exemplo, o geneticista estadunidense Roswell H. [Hill] Johnson (1877-1967) escreveu: “Podemos esperar que, no campo, diferentes espécies ocupem diferentes nichos no ambiente. Ao menos este é o corolário da crença atual de que cada espécie é tão comum quanto possível, sendo seus números limitados tão somente pelo seu suprimento alimentar, uma crença que resulta das fortes inclinações malthusianas de Darwin.

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