8 de junho de 2026

A herança deixada pelo governo militar-miliciano de Bolsonaro, por Luís Nassif

Para contentar o apetite do mercado, o governo aceitou o mais daninho ataque à saúde pública, desde a industrialização do fumo: as bets

Conversava com meu amigo Luiz Alberto Melchert, um sábio com múltiplos conhecimentos. E ele previa: é só começar a área fiscal a dar sinais de superávit, para o mercado pressionar para aumentar a taxa Selic e pegar o aumento.

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Dois dias depois, de fato, parte do mercado, através da mídia, começou a pedir aumento de dois pontos na Taxa Selic.

O Brasil é o país da síndrome de Sísifo. Considerado o mais astuto de todos os mortais, Sísifo foi rei e fundador de cidades, conhecido por sua inteligência e por enganar diversas vezes os deuses. Sua punição, dada a ele por Zeus, foi rolar uma pedra pesada montanha acima, apenas para fazê-la cair toda vez que ele estava prestes a chegar ao topo. Esta tarefa eterna tornou-se o símbolo do absurdo e da inutilidade de algumas ações humanas.

O Brasil é a revanche de Sísifo: por aqui, ele puniu Zeus (o país) a eternamente empurrar a pedra para o alto do morro, para vê-la cair em seguida.

Qualquer arremedo de superávit será eternamente garfado pelo mercado através de uma lógica simples e bizarra.

Se a receita está crescendo, é porque a atividade econômica está crescendo.

Se a atividade econômica está crescendo, abre espaço para reajuste de preços e de pressão sobre a inflação.

Para prevenir, aumenta-se a taxa básica de juros, o mercado se apropria do crescimento da arrecadação e a pedra de Sísifo rola ribanceira abaixo novamente. Investimentos em infraestrutura, saúde educação, retomando o ciclo virtuoso do crescimento? Que nada. Apenas mais impostos no bolso do rentista.

Não apenas isso.

Para contentar o apetite do mercado, o governo aceitou o mais daninho ataque à saúde pública, desde a industrialização do fumo: as bets, os sites de apostas.

Tivemos uma pequena experiência quando houve a permissão para as máquinas eletrônicas de apostas e para os cassinos em centros urbanos. Houve uma epidemia de viciados perdendo bens, desestruturando as famílias. Mais que isso, os bingueiros passaram a dispor de um poder ilimitado sobre as polícias. Financiavam campanhas de deputados em troca da indicação de delegados amigos para sua área de atuação.

Como é uma atividade que atua no limite da legalidade, uma das pernas mais óbvias dos cassinos é a do financiamento de campanha de políticos aliados e o suborno.

Acabou-se com os bingos, não com os cassinos clandestinos, que continuam invadindo as cidades.

Agora, com o bingo eletrônico, cria-se uma ameaça gigantesca à saúde pública. E qual a saída miraculosa do governo? Regulamentar os cassinos para que financiem sistemas de atendimento às vítimas de cassinos.

Será a única contrapartida à dinheirama arrecadada pelos cassinos. A parte maior do bolo de arrecadação fiscal ficará com o mercado.

Não adianta. A herança do suicídio institucional brasileiro – com a conspiração do impeachment e a ascensão dos governos de negócios, Temer e Bolsonaro – criou uma dinâmica invencível de saques contra o interesse comum.

Há um pessimismo generalizado em relação à marcha da insensatez mundial. Sabe-se que apenas uma grande tragédia trará de volta o bom senso. Os grandes saltos do Brasil foram em períodos de crise. Tivemos há poucos anos nossa crise master, um governo militar-miliciano que provocou a morte de centenas de milhares de pessoas com seu terraplanismo, e coalhou o setor público de negócios obscuros.

Mas a lição de nada adiantou. Agora, fica-se pensando qual o tamanho da crise necessária para trazer o Brasil de volta ao rumo do desenvolvimento e do bem-estar social.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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15 Comentários
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  1. Luiz Alberto M C Silva

    19 de agosto de 2024 8:22 am

    Abaixo o Copom

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    19 de agosto de 2024 8:38 am

    Não dei meu telefone a nenhuma dessas empresas. E não me parece que a operadora de celular poderia ter vendido acesso ao meu telefone sem minha autorização. Todavia, isso é irrelevante. As Bets já dominaram o sistema de telefonia móvel. Todos os dias recebo no meu celular propaganda de jogos “on line”, prometendo diversão e lucros. As Bets sempre me oferecem créditos para começar a jogar, com objetivo evidente de instalar o vício para tungar meus recursos. Sou apenas um entre centenas de milhões de otários que os donos da jogatina virtual tentam fisgar. Comigo o esquema deles não funcionará, mas suponho que milhões de idosos e crianças vulneráveis estão perdendo dinheiro nesse momento. O MP e o Judiciário neoliberais tomarão providências, por certo para obrigar os devedores a pagar as dívidas com as Bets e aquelas que eles fazem nos Bancos para poder jogar: https://www.conjur.com.br/2024-ago-09/juiza-autoriza-penhora-de-valores-mantidos-por-devedor-em-bets/ .

  3. José de Almeida Bispo

    19 de agosto de 2024 9:09 am

    Esse país, com a elite que tem (como age, obviamente)… é um milagre.

  4. Antonio Uchoa Neto

    19 de agosto de 2024 10:43 am

    Há alguns anos, escrevi um comentário aqui no GGN (que o Nassif teve a gentileza de transformar em post), em que dizia: “A humanidade já passou por inúmeras catástrofes, tragédias, toda sorte de desgraça, e não me consta que tenha saído de nenhuma delas um milímetro sequer mais humana do que quando entrou. Essa é uma verdade que se constata a cada nova desgraça que nos assola.”
    Entre o Nassif, otimista até a medula, kantiano, e eu, pessimista empedernido, há um abismo intransponível. “Sabe-se que apenas uma grande tragédia trará de volta o bom senso.”
    Uma grande tragédia trará apenas novas oportunidades de negócios, para os bezos e musks da vida. Os agentes corruptores estão por aí, sempre à espreita de grandes negócios. Bom senso não tem valor de mercado, Nassif. Se tivesse, não estaríamos nesse buraco em que estamos. Otimismo conforta, sem dúvida. Mas não nos deve distorcer a visão.
    De onde nada se espera, daí é que não sai nada, mesmo. Stanislau Ponte Preta.
    Mas não se deve esperar nada de grandes tragédias. Só o que sempre as acompanha: a desgraça e a morte para os pobres, e as oportunidades e os negócios, para os de sempre.
    Gostaria de ser otimista, mas diante desse mundo, não consigo.
    Diante do ser humano, melhor dizendo.

    1. Vladimir

      19 de agosto de 2024 3:02 pm

      Essa questão das ver a é um pouco mais complicada do que parece.
      Vez ou outra,assisto os gols do futebol internacional e,acreditem, não há um só país onde o patrocínio nos campos e nos clubes não seja dessas ver a.
      Parece que está tudo dominado.
      Chegará o momento onde a humanidade se questionará : Onde falhamos?

    2. Milton

      20 de agosto de 2024 8:04 am

      Sobre a história do “sapiens” Yuval Hariri escreveu como viu a expansão para a Europa e Ásia dominando e erradicando seus assemelhados. Não conviveu com nenhum parente genealógico, exterminando a concorrência.
      Seria o gene da ganância se sobrepondo a tudo ?
      Hoje o que vemos nas relações entre países e pessoas?
      A força de uns mais potentes para a aniquilação de outros menos favorecidos.
      A história é interessante, diversa na interpretação, e cheia de nuances.
      Acima de tudo educativa.
      Em outra grande obra vemos um personagem a defender os humildes e desvalidos foi morto como castigo pelos ataques à ganância dos potentes da época.
      O moinho gira para esmagar o trigo e entregar a farinha . . .

      1. Moacir Rodrigues de Pontesss

        19 de dezembro de 2024 7:13 pm

        Yuval Hariri teve uma boa ideia ao escrever uma história do “sapiens”, mas escreveu torto por linhas direitas.

  5. Douglas Barreto da Mata

    19 de agosto de 2024 11:58 am

    Bobagem tamanha atribuir o funcionamento do sistema financeiro capitalista a este ou àquele governo.

    Haddad é só um Paulo Guedes de bons modos.

    O modo de operação, melhor dizendo, a razão dele estar ali (e como seu antecessor, ser “apoiado” pela banca) é sempre a mesma:

    Funcionar como leão-de-chácara do prostíbulo dos juros, que hoje tem o nome, sob nova direção, de Calabouço Fiscal.

    É ele de um lado, como aparente mocinho, e o vilão de outro, do Banco Central, reafirmando aquela lógica do guarda bom e guarda mau.

    Eu não sei até quando, Nassif, um cara inteligente como você vai continuar a cair nessa estorinha.

  6. J.Marcelo !!!

    19 de agosto de 2024 4:54 pm

    Nassif quando cada um ainda cominuar a pensar só na sua panelinha e não no coletivo vai ser sempre assim,briga de gangues,está faltando vdd HOMENS E MULHERES PÚBLICOS e não estes inescrupulosos empresários,políticos,pastores,bilionários HOMENS DO MERCADO !!!Obs.:Nassif compara as bets com a industria do fumo vc é doido mesmo Nassif vc andou passeando pelo espaço nos foguetes de Mus.k ???

    1. Marcelo.jotaaa

      20 de agosto de 2024 9:21 am

      O sinal da tvt está sendo sabotado em Sampa capital sem mais muito obg equipe ggn !!! Obs.:Tener com intermitente destroçou o mercado de trabalho,Doria com o comércio,Bolso com as instituições e ascensão dos psicopatas inescrupulosos,Guedes com a economiaCampos arrasados neto completando o q Guedes fez por acaso vcs estão dormindo HOMENS PÚBLICOS iu estão oreocupados só com os seus contracheques ????

  7. Paulo Dantas

    19 de agosto de 2024 6:48 pm

    Bets patrocinam times, atletas e treinadores, ninguém acha que aja conflito de interesses.

    O governo viu só a grana dos impostos.

    O comercio diz sentir que boa parte do consumo foi paras as bets.

    Não fique com raiva, vai piorar, vão legalizar cassinos em resorts esclusivos em nossas melhores praias.

  8. Leonel

    19 de agosto de 2024 11:05 pm

    Olá Nassif, o UOL e Folha estaõ atacando pesadamente o Lula faz umas semanas. A entrevista ao Pacheco (link aí abaixo), olha o tom das perguntas… aí o Pacheco que segura o(a) reporter e dá respostas republicanas…
    https://noticias.uol.com.br/colunas/andreza-matais/2024/08/19/pacheco-defendera-no-stf-transparencia-de-verbas-distribuidas-por-lula.htm

    e essa matéria do Glenn… e essa outra hoje falando no “favorecimento a municípios”…. tá puxado…

  9. Mailson

    20 de agosto de 2024 1:01 pm

    É como eles tivessem se apropriado da máquina pública. Querem o patrimônio público,
    querem o controle do Congresso Nacional, da imprensa e logicamente do tesouro
    nacional. Sobrou dinheiro? Vai para onde? Ora para o bolso deles.

    É preciso derrotá-los. E limpar o Brasil. Já evoluímos muito, já sabemos quem são
    os nosso inimigos.

    1. Moacir Rodrigues de Pontesss

      19 de dezembro de 2024 7:23 pm

      E são os mesmos inimigos que controlam o que a maioria de nós pode saber.

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