21 de maio de 2026

As denúncias contra o STF como estratégia para a anulação do inquérito, por Luís Nassif

E tudo isso em um movimento que, simultaneamente, anularia o inquérito e pouparia as descobertas sobre os políticos do Centrão.
Foto de Valter Campanato - Agência Brasil

Jornalistas vazaram informações para transferir inquérito ao 1ª Instância, arriscando anulação por prerrogativa de foro.
Novos dados confirmam envolvimento de políticos em inquéritos da Polícia Federal, reforçando complexidade do caso.
Pressão midiática contra STF e Toffoli mistura denúncias sérias e insinuações, afetando a credibilidade das instituições.

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Vamos a um jogo simples de lógica:

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Fato 1 – um jornalista que cobre inquéritos policiais e jurídicos sabe que, se um inquérito não respeitar a chamada “prerrogativa de foro”, poderá ser facilmente anulado. Quem tem a tal prerrogativa, só pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal.

Fato 2 – o jornalista vaza informações, acusações, ataques ao STF, defendendo que o inquérito passe para a 1ª Instância.

Fato 3 – agora, novas informações confirmam que havia políticos nos inquéritos da Polícia Federal.

Dúvida – quem pretendia, de fato, a anulação do inquérito: o Ministro relator do caso ou os jornalistas que defendiam a ida para a 1ª Instância, antes de concluído o inquérito?

Se o inquérito tivesse ido à 1ª Instância, antes de apurar todos os envolvidos, a esta altura estaria anulado. E os mesmos jornalistas que pressionaram para a mudança estariam colocando a culpa nas instituições.

É importante observar que não há amadores nesse jogo.

Um balanço de todas as críticas especificamente à condução do inquérito por Toffoli: Polícia Federal incomodada com isto, incomodada com aquilo. De substancioso, nada. Mas tudo era invocado como desculpa para tirar o inquérito de suas mãos e abrir espaço para sua anulação.

O que estava errado, no começo, era o vazamento de dados do inquérito, por parte de delegados lava jatistas para jornalistas do mesmo campo.

Toffoli precipitou-se, indicando peritos sérios para o trabalho. Como mostramos aqui, o meu homônimo, indicado por Toffoli, desenvolveu sistemas de pesquisas de dados adotados por 40 países. Atropelou procedimentos jurídicos, mas não foi com a intenção de esconder provas, e sim de impedir vazamentos.

A operação, ainda que atabalhoada, foi bem sucedida. Cessaram os vazamentos, embora mais uma vez a PF passasse pano para os vazadores. E os jornalistas-sela, que se beneficiavam dos vazamentos passaram a se alimentar de “cozidões” – notícias já divulgadas, devidamente requentadas. Curiosamente, a principal beneficiária dos vazamentos, sem acesso a novos vazamentos, repetiu, ontem, a mesma cena do conselho deliberativo do BRB -como testemunha da tela do celular do seu presidente, mostrando a mensagem do diretor do Banco Central. Mas desta vez atribuiu a “quatro fontes” e não ao simbólico “três fontes”.

As denúncias sérias – e são denúncias sérias – sobre resorts e quetais, se somaram a outras ridículas: a de que Toffoli teria viajado de carona, para assistir o jogo do Palmeiras, com um advogado envolvido no caso e combinado sua participação em pleno vôo. Como se decisões estratégicas e fundamentais fossem tomadas em uma carona de avião, com outros passageiros testemunhando.

Criado o clima, a fogueira é alimentada de todas as maneiras. Ontem, foi divulgado, com estardalhaço, o grande “escândalo” do Ministério da Saúde estar comprando insulina de uma empresa que tem Vorcaro como sócio. Deixaram de lado o histórico da empresa – a Biobrás, que fabrica insulina bovina, uma das glórias da biotecnologia brasileira -, e também o fato de que é uma Sociedade Anônima, com gestão profissional.

É uma falta de respeito total, não a Toffoli, mas ao jornalismo e aos leitores. Mas, também, é um ensaio solene de como o STF se expõe, por falta de um código de conduta. Em princípio, todo Ministro passa a ser suspeito. Cada viagem internacional, cada patrocínio de eventos, cada boca livre fora do país é uma granada que a mídia lava jatista deixa guardada. E só ativa quando o Ministro está na ponta diferente do lava jatismo.

Esse desequilíbrio se manifesta, também, na mídia corporativa. Hoje em dia, não se logra a unanimidade fácil da Lava Jato, na qual mesmo jornalistas de primeiro time aderiram vergonhosamente ao jornalismo inquisitorial da campanha. Agora, há vozes sérias que se erguem em defesa do jornalismo. E cavalgando por montanhas  espinhosas.

Como explicar ao leitor leigo que há uma diferença fundamental entre desvios éticos e desvios criminosos? Um ex-Ministro do STF aceitando um contrato do Master poderia ser tema de uma discussão sobre desvio ético. Fazer lobby ou favorecimento, valendo-se do cargo público, é desvio criminoso. O ex-Ministro, que, fora do poder, aceitou um contrato do Master – que seria aceito por qualquer grande escritório em operação -, é o mesmo que, no comando da PF, ajudou a desmontar os golpes do Master.

O jornalismo sério pesaria ambos os fatos e o prato da balança apontaria a seriedade do Ministro. O jornalismo de escândalo, não: usaria e requentaria a notícia, deixando insinuações no ar, não com a intenção específica de atingir o Ministro, mas de avançar contra as instituições.

E tudo isso em um movimento que, simultaneamente, anularia o inquérito e pouparia as descobertas sobre os políticos do Centrão.

Enfim, reforça o que venho apontando nessa série: escândalo não é o fato em si, mas a maneira como a imprensa o noticia. 

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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3 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    30 de janeiro de 2026 10:50 am

    Porque o Vorcaro tinha o contato do Nikolalaus?

    Porque não tinha o contato do meu Primo Morador de Rua?

    A imprensa quer poupar os bandidos e os privilégios dos banksters, por isso ataca caninamente o STF.

    Eles passarão, Vlad? E quem passarinho?

  2. José Machado

    30 de janeiro de 2026 1:56 pm

    Estavam atacando Moraes, bolsonarismo, odeiam justiça.
    Agora a elite financeira que deve ter participação nesse escândalo, e também
    o Banco Central que deve sofrer criticas pesadas.
    Eles então ao invés de aprofundarem-se no escândalo; quem ganhou quanto? quanto
    roubaram? para onde o dinheiro foi desviado? quanto o FGC pagará de prejuízo?
    Nada disso interessa a eles. O mérito do golpe das CDBs. Então eles disvirtualizam
    tudo e passa a atacar até o passado do juiz. Isso é OBSTRUÇÃO À JUSTIÇA. O que
    esse jornalismo está fazendo chama-se: Obstrução à justiça.

  3. emerson57

    30 de janeiro de 2026 8:20 pm

    Seu Nassif,
    Esperar o que de uma imprensa (e seus leitores) que passam anos discutindo os mau tratos a um animalzinho indefeso deixando passar a boiada?
    Diferente da maioria das páginas, aqui eu vejo inteligência e patriotismo.

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