21 de maio de 2026

Em números, o mapa da gastança financeira do país, por Luís Nassif

Vamos desdobrar esses bordões, para entender a lógica. E vamos aos grandes números para entender a tragédia brasileira
José Cruz - Agência Brasil

A repórter da Globonews repete pela undécima vez na semana a mesma pergunta: “O PIB surpreendeu, mas o crescimento é sustentável?”. E o velho mestre, da FGV, expele pela milésima vez a explicação que repete há décadas e décadas, desde que a Constituição consagrou direitos sociais inéditos, e décadas e décadas sem ser questionado: 

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  • Não, porque as despesas vinculadas são muito pesadas e não abrem espaço para as despesas discricionárias do governo. Com isso, aumenta a relação dívida/PIB obrigando o governo a aumentar os juros. Além disso, o mercado de trabalho está aquecido, mas não temos mão de obra capacitada devido ao nosso sistema educacional.

Como melhorar a mão-de-obra? Investindo em educação. Mas o gasto com a educação é vinculado. Quando se propõe a desvinculação, obviamente, é para reduzir o gasto. Então como melhorar a educação reduzindo gastos com ela?

Vamos desdobrar esses bordões, para entender a lógica. E vamos aos grandes números para entender a tragédia brasileira, uma situação estratificada que só será resolvida no âmbito de uma grande crise futura, sabe-se lá quando.

As despesas vinculadas são as seguintes:

  • Educação: 18% da receita líquida. Mais a vinculação do FUNDEB (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação).
  • Saúde: 15% da receita líquida.

No ano passado, o governo gastou 

  • R$ 835 bilhões com Previdência Social; 
  • R$ 200 bilhões com Seguridade Social, para financiar o Sistema Único de Saúde. 
  • R$ 115 bilhões para Benefícios de Prestação Continuada, incluindo o Auxílio Brasil.

Com Educação o governo federal gastou 

  • R$ 55 bilhões com educação básica e 
  • R$ 70 bilhões para a educação superior, 
  • outros R$ 10 bilhões para expansão e manutenção da rede federal de educação técnica e R$ 15 bilhões para o Prouni (Universidade para Todos).

Parágrafi abaixo corrigido

No mesmo período, 2023, o governo gastou R$ 654 bilhões com juros da dívida pública interna. A dívida líquida é de 61% do PIB e 2,6% correspondem à correção monetária da d[ivida. Assim, os gastos com juros reais foram de 3,9% do PIB.

Em 2023, a dívida pública sofreu um aumento de R$ 300 bilhões, passando de 58% para 60% do PIB.

Se o governo gastou R$ 654 bilhões com juros da dívida interna, e a dívida aumentou R$ 300 bilhões, saíram recursos de outros canais.

Com Concessões e Privatizações o governo arrecadou R$45 bilhões. Com as estatais (que o mercado quer ver privatizadas) recebeu R$65 bilhões de dividendos da Petrobras, R$ 20 bilhões do Banco do Brasil e R$24 bilhões de outras estatais. Outros R$34 bilhões foram provenientes de leilões do pré-sal e de direitos de mineração.

Os spreads bancários

Não fica por aí a maneira como a financeirização se apropria dos recursos nacionais.

No mesmo 2023, o valor médio do spread bancário foi de 15 a 20%, dependendo do crédito e do perfil do investidor. Em 2023 o volume total de crédito bancário foi de R$4,6 trilhões. Desse total, R$1,6 trilhão foi para pessoa física, ou R$320 bilhões em spread. 

Na França, o spread médio para pessoa física é entre 2% e 4%. A diferença entre um spread de 4% e 20% é de R$256 bilhões. Ou seja, se os consumidores fossem franceses, haveria R$ 256 bilhões a mais de recursos nas mãos deles ou no mercado de consumo.

Já o crédito para Pessoa Jurídica foi de R$2,4 trilhões. O spread bancário foi de 15% a 18%. Fiquemos com 15%. Na França, o spread é entre 1% e 2%. Fiquemos com 2%, A diferença entre 15% e 2% de spread equivale à subtração de R$736 bilhões da atvidade produtiva.

Na outra ponta, o investimento privado no Brasil foi de R$370 bilhões em 2023. Desse total, R$80 bilhões foram de multinacionais. R$110 bilhões foram financiados pelo BNDES, portanto fora do circuito financeiro. Outros R$80 bilhões foram pela Caixa Econômica Federal.

Já os IPOs, glória da Faria Lima, não passaram de R$11 bilhões.

O volume de reaplicação de lucros, das empresas listadas na B3, foi de R$45 bilhões. Já seus custos financeiros foram de R$120 bilhões.

Na tabela abaixo, você tem po rascunho da derrocada da economia brasileira.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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11 Comentários
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  1. Milton

    10 de setembro de 2024 8:06 am

    Do excelente artigo o que fica, além da estarrecedora situação brasileira, é a incapacidade de o governo federal enfrentar a farsa das grandes emissoras de tv que comandam a notícia.
    Nada aprenderam com o passado, em especial com Brizola e suas conversas às sextas-feiras.
    Ali o povo tinha a visão do outro lado da realidade, desmitificando o discurso desde sempre entreguista da grande mídia, o discurso da desvalorização nacional, da redução da nacionalidade.
    Lula, um grande presidente, aguarda pacientemente que venham lhe dar algum espaço .
    Até as galinhas sabem que não basta pôr ovos, tem que cantar o “feito”.
    Lula e alguns de seu ministério agem para engrandecer o Brasil e não fazem o contraditório às mistificações globais.
    Aí fica fácil para os “200 heróis de Esparta” pintarem e bordarem seus tesouros de vermelho e branco com os recursos do povaréu brasileiro e ainda se passarem por vítimas das esquerdas . . .

  2. José de Almeida Bispo

    10 de setembro de 2024 8:11 am

    Sem o mínimo entendimento dessa numeralha apresentada (ainda de forma simplificada, admita-se), mas, “nos barracos da cidade, ninguém mais tem ilusão”: se é rico, tem tudo pra ser…

  3. Rafael

    10 de setembro de 2024 8:21 am

    O Estado Brasileiro da maneira como foi estruturado a partir do Plano Real, tornou-se uma máquina – via mercado financeiro – de transferência de renda, da maioria pobre para a minoria rica.

    Todo discurso do “mercado”, contra a “inflação” e a “gastança do governo” é voltado para aumentar o percentual dessa transferência – taxa de lucro.

    Em resumo, o Estado, dominado pelo mercado financeiro (leia-se a minoria mais rica da sociedade) vai sugando sangue do paciente Brasil (leia-se a maioria da sociedade brasileira ou “mercado produtivo”) enquanto ele aguentar e, no fim, morrer de inanição.

    Como diria Delfim. A urna é um tubo de oxigênio que tenta dar uma sobrevida ao paciente “Brasil produtivo”.

    Mas, não é uma luta fácil.

    De um lado, existe uma simbiose entre rentistas e empresários produtivos. Seja, do ponto de vista prático (aplicação financeira das empresas) ou ideológico (defesa dos donos do capital). E praticamente todos meios de comunicação privada no Brasil, de norte a sul, leste a oeste, fazem uma defesa ideológica cega do mercado financeiro, como se capital rentista e produtivo fossem a mesma coisa. Quando o primeiro, que deveria servir ao segundo, o sequestrou e vive como um parasita.

  4. Machado

    10 de setembro de 2024 11:23 am

    Quê resumo fantástico. Essas tabelas que você expôs deveria ser um dashboard
    do site do Ministério da Fazenda de tão importante que é. Ou do Ministério
    da Fazenda, ou do Banco Central ou do site do Tesouro Nacional.
    Parabéns Nassif, você é o único jornalista do Brasil que dá informações desse
    nível, dessa qualidade.

  5. Carioca

    10 de setembro de 2024 12:04 pm

    creio haver pequeno erro em “3 milhões de pessoas atingidas” pelos R$ 654 bilhões de juros da dívida interna.

    Teria havido falha na revisão ?

    Não seriam 300milhões de pessoas atingidas já comtemplando a prole a ser criada desses ?

    a única coisa que sobreviverá nesse país é a eterna venda de esperança …

  6. Caetano.

    10 de setembro de 2024 1:21 pm

    A meu ver a política de investimento na educação está equivocada. Dever-se-ia dar prioridade total à educação básica, e não ao ensino superior. Os jovens saem do ensino médio como analfabetos funcionais, como podemos querer que o Brasil se desenvolva, com esse baixo nível? Poderiam ser seguidos exemplos de sucesso, como é o caso do Ceará, direcionando parte da verba hoje alocada no ensino superior.

  7. Anônimo

    10 de setembro de 2024 1:38 pm

    O gasto com os parasitas não aparece em nenhuma analise

  8. Ubajara Leite

    10 de setembro de 2024 2:39 pm

    Nassif, fico me perguntando se o pessoal da Globonews lê seus artigos, porque a dinâmica jornalística da emissora permanece intacta, não dá vez para as opiniões divergentes daquelas que sempre procuram para entrevistas e análises (FGV, PUC-Rio, analistas de instituições financeiras e consultores da estirpe de Maílson da Nóbrega). Somente os interesses escusos e o antilulismo explícito dos Marinho explicam a insistência da Globonews pela mesmice na cobertura econômica do Brasil.

    1. Felipe

      11 de setembro de 2024 8:57 am

      Desculpe, mas enquanto a Globo serviu aos princípios larapianos estava tudo bem.
      Agora que busca mostrar um pouco dos podres deste governinho por vezes lá colocado, toda a esquerdalha chia.

  9. Formosa GO 71 anos

    13 de setembro de 2024 3:13 am

    Estamos lascados.aqui na ponta eu falo isso para as pessoas e ninguém tem ciência disso pra eles os gastos vão para deputados,bolsa família etc.o povo deveria saber isso mas como?

  10. Roland Matt Rola

    27 de setembro de 2024 9:47 am

    Nassif, onde é possível consultar os dados dos déficit primário, financeiro e nominal do setor público?

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