Amigos para sempre (II) – Moisés Kendler, por Izaías Almada

E aqui estou voltando aos anos 50 e 60, onde a juventude pós-guerra surgiu sequiosa em busca de paz e amor e de maior igualdade social.

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Amigos para sempre (II)

Moisés Kendler

por Izaías Almada

          Da infância à adolescência as amizades vão aumentando, mas ao mesmo tempo vão se refinando. Algum sentido de responsabilidade, o despertar do sexo, a escolha de uma futura profissão e, se possível, a escolha de um curso universitário ou uma escola técnica que nos encaminhe para o desejo de ter essa ou aquela profissão vão, aos poucos, substituindo a dependência total aos familiares e aos professores.

          Há um momento de insegurança entre o deixar de ser criança e o de se tornar um adulto ou quase um adulto. Insegurança que, se mal controlada, costuma trazer sérios problemas de convivência, ás vezes por motivos completamente fúteis.

          É bom lembrar que aqui estou voltando aos anos 50 e 60 do século XX, onde a juventude pós-guerra, da qual fiz parte, surgiu sequiosa em busca de paz e amor e de maior igualdade social.

          A vitória da revolução cubana e as figuras de Fidel e Che Guevara invadiram os corações e as mentes de milhares de jovens pelo mundo, em particular na América Latina.

          Terminado o curso ginasial no Colégio Batista Mineiro fui admitido no Colégio Estadual de Minas Gerais, após os exames que se faziam para a admissão de novos alunos. Ano de 1958.

          Fui um dos alunos admitidos e, para além de saber que o curso era gratuito, tinha informações de que era um dos melhores, senão o melhor colégio em Minas Gerais, rivalizando com o famoso Pedro II no Rio de Janeiro. E mais: com a idade de 16 anos de idade, meus conhecimentos adquiridos até então foram postos à prova e tomei consciência de que ou estudava para valer ou era jubilado.

          No Colégio Estadual não havia matérias mais fáceis. Matemática, Física, Química, Desenho, Inglês Francês, Espanhol, História eram todas “puxadas” e quem não estivesse preparado, repetia o ano.

          Ao lado dessa exigência, sobretudo em ciências exatas (muitos dos alunos entravam nas Faculdades de Engenharia, Arquitetura, Medicina, sem a necessidade dos famosos cursinhos pré-universitários), as amizades foram aparecendo naturalmente e, como era obrigatório o uso de uniforme, o peso de alguma diferença social não era sentido pelos alunos.

          Uma dessas amizades surgiu com um jovem de família judia e que, assim como eu, imagine o amigo leitor, pertencia a uma base secundarista do Partido Comunista Brasileiro, o PCB. Seu nome: Moisés Kendler. Colegas de escola e de partido político.

          A opção ideológica juvenil quase nos leva à expulsão do Colégio Estadual, pois a renúncia do então presidente Jânio Quadros criou uma situação tensa, onde a burguesia endinheirada, com o apoio de militares (o leitor já viu esse filme?), não queria dar posse ao vice-presidente eleito democraticamente, o senhor João Goulart, que regressava ao país após uma viagem à China comunista.

          Com o apoio de outro colega do colégio, de quem não me recordo o nome, eu, esse colega e Moisés Kendler conseguimos reunir mais alguns interessados numa ação política e impedir a entrada dos alunos pelas duas portas que davam acesso ao prédio de aulas, criando uma situação em que foi preciso a intervenção policial.

          A intenção era apoiar a posse de João Goulart.

          Sabedor do que acontecia, o diretor do colégio, senhor Wilton Cardoso, ameaçou com a expulsão os alunos envolvidos e criadores da grave indisciplina, o que só não ocorreu graças à intervenção de um deputado estadual ligado ao PCB.

          Moisés e eu nos formamos no ano seguinte e continuamos a nossa amizade daí para frente, pois além da política tínhamos também em comum o gosto pelo cinema, razão pela qual nos tornamos frequentadores e sócios do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) em Belo Horizonte.

          O cinema deixou de ser apenas uma diversão, tornando-se uma atividade na qual nos empenhamos, mesmo depois de deixarmos Belo Horizonte. Moisés foi para o Rio de Janeiro onde, além de entrar na Faculdade de Filosofia, criou com mais dois sócios a Mariana Filmes, cuja sede ficava em duas ou três salas do Museu de Arte Moderna.

          Em 1968 tive a oportunidade de ser assistente de direção no filme “Os Marginais” (episódio Papo Amarelo) e, graças a essa experiência, num intervalo das filmagens, Moisés gentilmente, liberou a mim e ao grande fotógrafo Dib Luft para a realização de uma curta metragem, “Domingo no Parque”, baseado na composição de Gilberto Gil, uma das vencedoras do Festival de Música Popular da TV Record em 1967.

          Colégio Estadual de Minas Gerais, Política Estudantil, Centro de Estudos Cinematográficos, Produtora Mariana Filmes no Rio de Janeiro somam alguns bons anos da minha amizade e convivência com Moisés Kendler, hoje psicanalista, que perdura até os dias de hoje. Um amigo para sempre.

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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Izaias Almada

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