Anarriê, alavantú XVI – Caro Jaguar, você foi torturado por beber?, por Rui Daher

Arriscaria dizer, em meus 78 anos, ele ter sido um mentor, apesar do vareio e tortura que levo de todos aqueles que se preocupam com minha saúde.

Anarriê, alavantú XVI – Caro Jaguar, você foi torturado por beber?

por Rui Daher

Quem não o conhece? Um dos melhores cartunistas, chargistas e humoristas brasileiros, até hoje anda por aí e pode ser admirado em algumas folhas e telas cotidianas, corporativas ou não.

Também escritor, fez belos textos para o histórico tabloide semanal carioca “O Pasquim”, junto a uma patota do que havia de melhor no jornalismo nacional, principalmente, se considerarmos o período mais importante em que foi publicado (1969-1991), a lavar nossas almas libertárias, enquanto vigorava a ditadura civil-militar (1964-1985).

Notem alguns do time. Pego os mais frequentes: Millôr Fernandes, Paulo Francis, Newton Carlos, Flávio Rangel, Henfil, Ziraldo, Zélio, Tarso de Castro, Ivan Lessa, Sérgio Augusto, Sérgio Cabral, Luís Carlos Maciel, Paulo Garcez (fotógrafo), Jaguar (claro!), Fortuna, Claudius, ah chega! E muitos outros.

Te perdeste ó colunista? E o Jaguar, a manguaça e a tortura? Realmente, quando “O Pasquim” me incorpora, esqueço da minha carreira de escritor, envergonhado que fico. O “Montbläat”, do Fritz Utzeri (beijo Liège); o “Terra Magazine”, do Bob Fernandes; o “GGN”, dos Luís e Lourdes Nassif; a “CartaCapital”, dos Mino, Manuela Carta e Sérgio Lírio.

Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, nasceu no Rio de Janeiro, em 1932. Em 29 de fevereiro deste ano completa 92 anos. Entre outros, publicou o livro “Confesso que bebi” (Editora Record, 2001), exibindo em palavras e roteiro dos melhores botecos do Rio de Janeiro aquilo que cultuou em boa parte de sua vida.

Arriscaria dizer, em meus 78 anos, ele ter sido um mentor, apesar do vareio e tortura que levo de todos aqueles que se preocupam com minha saúde. Até pouco seus desenhos cobriam as mesas do “Pirajá” (não tenho comparecido), boteco boêmio de São Paulo, onde a saudosa madrinha Beth Carvalho gravou o excelente CD “Esquina Carioca”.

Meu jovem, fã de Luciano Huck, Anitta (que coxas, hein?), Guilherme & Benuto ou Mayara & Maraísa, você perdeu. Contentem-se com Pondé e Karnal. “Sabiné, esses dois é melhor ler, pois podem cair no vestibular, ENEM, uma porra dessas, mano”.

Até pouco tempo, mantinha encaixotada a minha coleção de “O Pasquim”. Amarelecida e destruída pelas traças, diante da artilharia conjugal, acabei dela me desfazendo (da coleção, não a mulher). Só depois, porém, que a Editora Desiderata, lançou três antologias (volume I – de 1969 a 1971; volume II – de 1972 a 1973) e o “Gip! Gip! Nheco! Nheco!” dedicado a Ivan Lessa (1935-2012), o melhor texto de humor nacional que pude ler em minha vida.   

Mas a verdade é que me encontro em completo desacordo com a modernidade cultural brasileira. Pouca coisa salvo. Em música consigo ouvir e gostar de Lucy Alves, Lenine, Zeca Baleiro, Chico César, mais um ou outro. Novos sertanejos servem como injeção de potássio em minhas veias. No cinema, nada, afinal lembram-me os filmes mudos, pois não consigo entender uma palavra do que dizem. Talvez, se legendassem, eu gostasse de algum roteiro. Teatro? Fecho com o saudoso humorista Bussunda (1962-2006), em camiseta antológica: “Vá ao teatro! Mas não me chame”. Teledramaturgia, não opino, pois não assisto. Balé, danço.

Bem, então a que serve este invocar a Jaguar logo no título? Jogar na lama dos moralmente corretos uma senhora ou senhorita que escreve coluna para a Folha de São Paulo, “Vida de Alcoólatra”, Alice S. O Quê? Salles ‘Manada’, Sebo, Suntory, Sumô? Detesto quem entra em temas opinativose não se identifica. Daí ter pedido o testemunho de Jaguar.

A Dona Alice, em artigo de 5 de fevereiro, “No Carnaval, o sorriso nas fotos escondia uma batalha interna”. Adivinharam, né? Em abstinência por algum tempo (abençoada seja), beber ou não beber? Não darei spoiler, a Joana D’Arc de botecos, bloquinhos, sambódromos, esquinas, morros, lajes, quiosques, teria vencido sua batalha interna?

Diz ainda gostar de se fantasiar no rito de Momo, mas usa algumas “ferramentas” para evitar o álcool. Como fantasia sugiro barril oco de carvalho com caninho para evitar banheiros químicos; como coquetel uma parte de óleo de fígado de bacalhau, uma de suco de jiló, e uma de limão para dar a cor de caipirinha. Ofereça aos foliões.

Evoé! No visual abaixo, trago comigo um “Buraco Quente”. Alguns deles afirmam que a velhice os fez pararem de beber. Muitos deles assisti em botecos e teatros de São Paulo e do Rio de Janeiro. Não os percebia assim tão jovens, pelo contrário, mas a cachaça e os copos de cerveja sempre estiveram a seus lados. Do tempo em que “pararam de beber” (acreditem vá! Basta ver atrás do cenário dos depoimentos do documentário o número de garrafas que sobrevivem. Eles merecem). Não participei dessa fase abstêmia. Sorte minha. Conheci-os quando compuseram pérolas do samba.

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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Rui Daher

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